sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

17, a antiga e a nova crise. José Mauricio de Carvalho




Há cem anos o mundo vivia a brutalidade da Iª Guerra mundial e 1917 trouxe a Revolução Comunista. Revolução e Guerra multiplicaram as mortes violentas. Embora o homem tenha na violência um meio de expressão, a barbárie em larga escala obriga rever divisões e conflitos. Para famílias despedaçadas e países destruídos aquele foi um tempo de vidas destroçadas. Terminada a Guerra e a Revolução veio a crise econômica de 1929, o empobrecimento da população mundial e os governos totalitários.
A radicalização política trouxe o nazismo e o fascismo, expressões da direita radical e o comunismo soviético, manifestação da esquerda radical. E o radicalismo ganhou outras formas: franquismo, salazarismo, estado novo, peronismo, etc. Esses governos buscavam sociedades menos desiguais e combater a corrupção. Buscavam esses objetivos pela eliminação violenta das diferenças internas e dos opositores do regime. Não conseguiram. Esses governos eram a face visível de um fenômeno amplo e emergente, a sociedade de massas. O fenômeno foi identificado no magistral livro de Ortega y Gasset intitulado A rebelião das massas (1930). O filósofo revelou multidões desejosas de assumir o comando da história, descomprometida com a excelência, formada na especialização técnica, inculta, infantilizada na expressão de desejos irracionais e querendo uma vida que sabia impossível.
Essa sociedade com seus conflitos, infelicidades, ilusões, decepções era uma sociedade destroçada, incapaz de propor boas razões para viver. A magnífica proposta civilizatória do século XIX, baseada nos ideais de progresso permanente e paz perfeita revelaram-se ilusão. E os filósofos de então escancaram seus problemas. Propuseram recuperar a importância de pensar, lembraram o valor do ensino das humanidades e o comprometimento com uma vida autêntica (expressão de uma ética associada à construção do sentido pessoal). Tudo isso não efetivado na vida das massas, recusado pela ignorância dos governantes e pela limitação de um conhecimento que se esgotava na tecno-ciência.
Quando a Segunda Grande Guerra acabou e a organização das Nações Unidas se consolidou a vida pareceu voltar ao normal. Porém, logo a sensação de tranquilidade se perdeu pela consciência de que o mundo anterior já não existia, a luta na África pela independência das ex-colônias europeias instaurou um novo tempo de guerras localizadas, a revolução comunista cubana trouxe a violência socialista para as Américas, a guerra fria e o terrível medo da bomba atômica começou a pairar sobre a humanidade. Os filósofos olharam esse tempo de disseram a crise não acabou. A Filosofia foi tanto bajulada quando desconsiderada. A revolta dos jovens franceses em 68 foi provavelmente a única voz ao que diziam os filósofos. Foi logo abafada pelas autoridades. Havia, contudo, na revolta também a ilusão de que se podia gozar sem limite e que era preciso mudar o mundo facilmente.
Quando caiu o muro de Berlim e veio o fim do comunismo soviético o risco da bomba diminuiu, a globalização econômica trouxe uma nova era de prosperidade e a emergência dos Estados Unidos como grande potência universal estabeleceram um novo tempo. Passados os anos da euforia, que à consolidação a sonhada unidade de Europa, a construção de blocos regionais aproximando antigos rivais, o mundo mergulhou numa nova crise com aspectos antiga. A tal primavera árabe virou o inferno da guerra na Líbia, Iraque, Síria, os milhares de refugiados que se dirigem à Europa, no recrudescimento do terrorismo islâmico, na emergência do Califado (Estado Islâmico). Temos então a crise econômica de 2008, o acirramento da luta pela sobrevivência e a brutal violência que explodiu no interior das sociedades menos desenvolvidas como o Brasil impulsionada pelo narcotráfico.
Esse tempo continua um tempo de massas de especialistas e incultas. Elas continuam, como observou Ortega, querendo dirigir o futuro. Essa massa hoje dispõe de redes sociais onde expõe publicamente a vida privada, propõe opiniões que comprovam sua incultura, não tem compromisso com a excelência, permanece no auto-esquecimento, perdida na rotina, no trabalho vazio e no ócio ainda mais sem sentido. Seus governantes projetam um ensino técnico, recusam a formação humanística recusando a tradição que teceu a cultura ocidental, em nome da eficiência e da economia. E não conseguirão nenhuma das duas, pois a massa de trabalhadores continua incapaz de pensar por si mesma, de buscar um sentido para suas vidas, de recriar intimamente a trajetória humana, de clarear os problemas, de dizer seus sentimentos.
A tudo isso soma-se a crença de que o sucesso material resume o sentido da existência, sucesso desconectado da excelência pessoal, reduzindo a vida ao consumo de bens sorvidos cada vez com maior ansiedade.
Todo esforço para se alcançar uma vida mais humana, mais conforme a excelência possível a cada um, com um sentido pessoal conscientemente elaborado, com maturidade emocional, com formação cultural ficou apenas nas mãos de cada pessoa. Talvez ainda sobreviva em alguns a confiança de que a base de humanidade que o ocidente construiu possa servir de inspiração ao homem no esforço para reconstruir seu tempo e sua cultura. Um tempo em que o respeito à pessoa humana, o valor nuclear do ocidente possa ser melhor vivido. Mais que isso só para quem tem uma fé pessoal num Deus que dirige a história e saberá retirar de tudo a redenção.


sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

DILMA ROUSSEFF 2016 – A CASSAÇÃO ATRASADA. Selvino Antonio Malfatti.




O acontecimento político mais relevante no Brasil em 2016, certamente foi a cassação de ex-presidente Dilma Rousseff no senado. Mal findara a votação a assistência  in loco e online explode de um lado, ‘GOLPE’, de outro, “VAIAS”.
A cassação foi legal? Foi legítima. Cumpriu a lei? Sintonizou-se com a ética?
Não resta a menor dúvida de que o processo de cassação seguiu seus trâmites jurídicos corretamente. Quanto à ética as ações possuem duas perspectivas básicas: a ação - o fazer corretamente e omissão - o não não fazer ou permitir que outros façam o que não deve. A responsabilidade em ambos têm peso igual.
O ato de fazer é inerente à função que alguém exerce. A um presidente, por exemplo, o fazer envolve as atribuições contidas na constituição:    
I - nomear e exonerar os Ministros de Estado; 
II - exercer, com o auxílio dos Ministros de Estado, a direção superior da administração federal;       
III - iniciar o processo legislativo, na forma e nos casos previstos nesta Constituição;              
IV - sancionar, promulgar e fazer publicar as leis, bem como expedir decretos e regulamentos para sua fiel execução....e outras. 
Parece que não se pode dizer que a ex-presidente Dilma Rousseff tenha violado abertamente estas atribuições ou que as não tenha cumprido. O problema está em ela ter permitido que outros as violassem, como apossar-se de dinheiro público, manipulação eleitoral, compra de votos, caixa-dois, desvio de dinheiro das estatais. Numa palavra: a corrupção política. Nisso consiste o crime de Dilma Rousseff como presidente. Pura omissão. Foi o de ter deixado fazer o ilícito ou o malfeito: FALTOU INTERVIR.  Como veio à tona a corrupção?
O estopim tem início quando um funcionário dos Correios é flagrado recebendo propina. Desde então, até o presente, veio a público uma dezena de casos semelhantes. Os de maior repercussão foram acusações de crimes envolvendo parentes do Presidente Luís Inácio Lula da Silva - os denominados casos Lulinha e caso Vavá -, o saque de Roberto Marques - assessor e amigo do ministro José Dirceu -, Paulo Okamotto - pagador de contas do Presidente .- as movimentações milionárias em paraísos fiscais do publicitário Duda Mendonça, a violação de privacidade e gestão fraudulenta do ministro Antonio Palocci, as ações de Henrique Meirelles tentando liquidar os bancos Mercantil e Econômico, a duvidosa intervenção do Ministro da Justiça Márcio Thomaz Bastos na tentativa de encobrir a violação do sigilo bancário por parte do ministro Antonio Palocci, a concordância da nacionalização dos bens da Petrobrás na Bolívia por parte do executivo brasileiro, as propinas recebidas através do Dossiê Dantas, as Comissões Parlamentares de Inquérito, sem falar no assassinato ainda não elucidado do prefeito de Sento André, Celso Daniel, e na renúncia do ministro-chefe da Casa Civil, José Dirceu (Carneiro, 2006). Comissões Parlamentares de Inquérito se multiplicam, atualmente já passam de uma dezena. Tiveram início com as dos Bingos, depois dos Correios, em seguida com a do Mensalão e continuaram com a da Imigração Ilegal, da Terra, das Armas, da 8iopirataria e do Extermínio do Nordeste. E novas estão surgindo, como a da Anatel e das Empresas de Telecomunicações, a do Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra, a que trata do Registro Nacional de Veículos Automotores - Renavam, CPI das Sanguessugas e outras. Atualmente a maior ação na justiça é o Lava-Jato que envolve o núcleo do poder, como o ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva e atual presidente Dilma Rousseff, além de deputados, senadores e políticos de primeiro escalão. Atualmente os maiores processos são o Lava-jato, Petrobras e Odebrecht. 
Diante deste quadro, nem o ex-presidente Lula e nem Dilma Rousseff intervieram. Foi necessária a ação do Judiciário e o pedido de um jurista para iniciar o processo de impeachement. A presidente defendeu-se alegando não ter cometido nada de ilícito. Mas os senadores viram o outro lado: a omissão. E o desfecho foi a cassação por omissão.
Por isso, a ex-presidente Dilma foi condenada por omissão, enquanto o ex-residente Lula, tem como acusação a ação ativa de violação das leis e o processo aguarda julgamento.



sábado, 31 de dezembro de 2016

A triste face da barbárie que se instalou entre nós e o ano novo. José Mauricio de Carvalho.





Muita coisa aconteceu no país na última semana, mas pouca tão emblemática como o assassinato do vendedor ambulante Luiz Carlos Ruas que trabalhava, como ambulante, no Metrô de São Paulo. Filmados em agressividade descontrolada, os primos Alípio Rogério e Ricardo Martins não tiveram como negar o assassinato e ficou ridículo a fantasiosa história dos seus advogados. Triste é destino do Direito quando cria histórias sem compromisso com valores e a verdade. E quando se assiste às filmagens da agressão não há como não se perguntar: como é possível tanta brutalidade? Por que fizeram aquilo? Por que ninguém tentou impedir, mas ao contrário, correram apavoradas em histérica fuga?
Não é simples uma resposta. Essa é uma tentativa de alinhavar alguns pontos desse enrosco. Os jovens adultos de hoje foram criados por uma geração que queria gozar sem limites. A geração do é proibido proibir, do sexo livre e rock and roll, a geração que confundiu a necessária repressão à agressividade, sexualidade e desejos, com brutalidade, com violência contra crianças, com desrespeito à lei e ao estado de direito típico dos anos da ditadura. Ao contrário, do que acreditou aquela geração não há educação sem limites, sem contenção dos desejos, o que pode ser feito, contudo, com carinho e amor. É possível uma sociedade ordeira no estado de direito. É preciso controlar os impulsos.
Esses jovens adultos de hoje não aprenderam a dialogar, a usar a razão e a reconhecer quando os outros a têm. Ao contrário, sendo criados na intolerância do desejo, não têm limites e nem reconhecem outra autoridade que a força. Por isso usam a violência nas relações pessoais e se destroem nas drogas. A agressividade nas ruas e trânsito de nossas cidades maiores, em especial na capital paulista, é exemplo de como deixamos de usar a razão para resolver problemas e conflitos.
A geração dos jovens adultos de hoje foi criada numa sociedade absurdamente desigual, onde as desigualdades se aceleraram e se evidenciaram, não porque os pobres ficaram mais pobres, mas porque, ao contrário, houve um enriquecimento. Porém, o paradoxo se esclarece quando se compreende que os benefícios desse enriquecimento, pelo menos em nosso país, se concentraram numa pequena faixa da população, enquanto a grossa maioria permaneceu no limite da sobrevivência. Essa realidade reforçou o comportamento da antiga elite escravocrata. Essa elite não tem pudor de beber champanhe de 10.000 dólares e comprar prédios inteiros em Miami, mas não dá uma bolsa de estudos, nunca fez uma doação para uma universidade ou hospital. Uma elite que não se sente parte dessa nação, que não se solidariza com a imensa maioria, a critica e ridiculariza. Uma elite que se faz representar no parlamento e compra os pobres que ali chegam corrompendo-os com a chance de enriquecer criminosamente. É mais fácil enriquecer meia dúzia de egoístas que construir uma sociedade mais justa. A atual proposta de reforma previdenciária é parte disso.
Os jovens adultos de hoje foram criados no modelo tecnicista de uma educação positivista, que não o deixou de ser nem quando sofreu o impacto dos princípios humanistas da escola nova. Ao contrário, logo aderiu aos modismos da instrução programada, do ensino técnico da 5692/72, como hoje flerta apaixonada com as metodologias tecnológicas. Tudo sem mudar a qualidade do ensino e sem produzir cientistas brilhantes e bons matemáticos como parece ser seu objetivo. Trata-se de sobrevivência tardia do pombalismo, uma espécie de fetiche pela ciência e pela técnica. Pombal acreditava que o progresso da Inglaterra se devia à prática da ciência sem se dar conta da estrutura moral em vigência na sociedade britânica. Pombal reformou a escola portuguesa, trouxe brilhantes cientistas de fora, criou uma universidade de ponta e não mudou essencialmente a sociedade, nem a política. O patrimonialismo sobreviveu e Portugal continuou atrás das sociedades europeias que tinham outra base moral. A nova proposta do ensino é mais do mesmo.
Esses jovens adultos confundem estado de direito e pensamento liberal com posições de direita, sem perceber que nazismo e fascismo, tanto quando o comunismo soviético e cubano, são inimigos da humanidade porque todo totalitarismo ou governo ditatorial, transforma o homem numa peça da máquina estatal. Os que hoje clamam pela ditadura militar apenas manifestam falta de conhecimento da história e do sentido da política.
Os jovens adultos de hoje foram criados por pais que confundiram a relação pessoal com Deus com a prática de ritos e cultos religiosos, que mesmo sendo importantes para os grupos sociais, são o caminho e não o destino da alma humana. Uma geração que não buscou o encontro pessoal com Deus e não consegue mudar a vida pelo lado de dentro porque Deus é apenas a ideia distante que o rito celebra.
Esses jovens adultos de hoje abandonaram as práticas e ritos dos seus pais, afastaram-se dos líderes religiosos que usam o nome de Deus para enriquecer e construir sociedades poderosas que apenas têm o título de igrejas. Esses líderes que falam em nome do profeta de Nazaré, o menino simples que não viveu em belas casas, não construiu nenhum templo, não criou nenhuma seita e viveu para ensinar o amor aos outros e a Deus. Porém, esses jovens não buscam Deus e nem sabem fazê-lo.
Esses jovens adultos de hoje são os frutos da uma geração e seus equívocos. Nesses dias onde aflora o desejo de mudanças, espero que de fato possamos fazê-la, transformando aquilo que realmente vale a pena, mudando os equívocos de ontem para termos uma nação melhor no futuro e uma humanidade melhor que nasça em cada gesto.





sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

ÉTICA UNIVERSAL. Selvino Antonio Malfatti.





Há algum tempo muitos se preocupam com a presença de normas morais na cultura social. Constatamos que estas normas surgem em sociedades concretas como respostas a problemas de convivência entre os seres humanos. Em cada sociedade histórica ocorreram problemas e respostas de relacionamento entre os seres humanos. Se, por exemplo, a mentira se disseminasse de tal sorte que fosse impossível a confiança mútua, afetando a convivência, eram estabelecidas regras para evitá-la, isto é, a mentira era proibida e a verdade tornava-se uma norma ética, isto é, padrão de comportamento coletivo.
Dentre os diversos componentes da vida em sociedade, aquele que relaciona os indivíduos numa ordem de mando e obediência, certamente é um dos mais preponderantes, pois são necessárias regras claras delimitando a esfera de quem  manda e quem obedece. Por isso o espaço da política é o mais privilegiado para normas morais e em decorrência para a ética. O escopo é  encontrar no “modus vivendi” político daquelas normas que paulatinamente foram incorporadas na cultura ocidental como regras gerais e válidas para todos.
Optamos pela cultura política ocidental porque foi dela que determinadas normas morais concretas e históricas deram origem a valores permanentes e universais, isto é, à Ética. No entanto, podem ser encontrados vestígios destas normas em outras culturas, como na Ásia e na América. São exemplos da primeira o Código de Hamurabi, da Babilônia, e o Código de Manu, da Índia. Trata-se de um conjunto de preceitos religiosos, morais e mesmo jurídicos os quais buscam a defesa do homem principalmente no que diz respeito a sua pessoa, vida e propriedade. 

Nessas culturas já emerge a famosa dita “regra de ouro” que estabelece a reciprocidade de direitos: não faças ao outro o que não queres que te façam. Esta regra pode ser encontrada em Confúcio, na China, e no poema hindu Mahabarata. Já na América os Incas também tinham seus preceitos religiosos-sociais ao estabelecer que não se deva roubar, a ética da propriedade, não se deva mentir, a ética da verdade, e a proibição da preguiça, a ética do dever de subsistência através do trabalho.
Com efeito, no decorrer da História, emergiu um conjunto de normas relativas ao homem como ser social, que, conforme a época recebeu as mais diversas denominações, tais como: direitos naturais, direitos fundamentais, direitos do homem, direitos humanos ou Declaração Universal dos Direitos do Homem e outras. Estes “direitos” são normas ou máximas de convivência, ou Ética.
 A problemática das regras do agir humano sempre esteve presente na história. Há, porém, momentos marcantes como a meditação grega, o decálogo judaico, o pragmatismo romano, o transcendente medieval e a culminância política dos modernos. No entanto é na atualidade que a Ética está se impondo, pois nunca como hoje os seres humanos necessitam de normas éticas e morais para sua convivência e sobrevivência. Certamente isto se deve ao fato de que em nenhum tempo e com tamanha dimensão as normas máximas da convivência do ser humano foram tão desrespeitadas como contemporaneamente. Com efeito, o século XX passou por duas guerras mundiais, experimentou três formas de totalitarismos, sem falarmos de centenas de ditaduras ou governos autoritários, para os quais a ética pouco ou nada valiam. Milhões de pessoas foram torturados moral e fisicamente, mortas como vermes, os cadáveres expostos ou enterrados em valas comuns. Outros milhões foram privados da liberdade, jogadas em masmorras ou em campos de concentração. A própria consciência humana foi invadida e aniquilada no totalitarismo russo e em outras experiências totalitárias. A discriminação racial e de sexo, as perseguições e mesmo extermínios étnicos, os radicalismos ideológicos ainda ocupam a maior parte de nossos noticiários. E na atualidade os experimentos científicos envolvendo seres humanos conseguem manipular o corpo como se fosse um objeto disponível e depois descartado.

A hipótese sobre o surgimento de uma Ética de normas universais seriam as revoluções burguesas dos séculos XVII e XVIII não resistem à exegese histórica. Se pode constatar que em pensadores do período fundamentavam estas normas em escritores anteriores, fazendo referências aos clássicos gregos e romanos, como foi o caso de Jefferson que citou Aristóteles e Cícero entre outros. Inclusive, alguns citavam a própria Bíblia como Locke. Isto nos leva a explorar uma segunda hipótese, qual seja, de que estas normas fazem parte do patrimônio da cultura universal a qual incorporou cumulativamente os preceitos éticos e morais válidos de cada época e de cada sociedade histórica. Não é por acaso que o filósofo Kant, ao procurar o fundamento ético universal, chegou à conclusão de que no Decálogo, de origem hebraica, se encontra a síntese da ética universal e estabeleceu o princípio geral: o que é permitido particularmente e que pode ser considerado norma universal é norma universal.

sábado, 17 de dezembro de 2016

Natal e esperança. José Mauricio de Carvalho



Vivemos dias de violência no interior das sociedades nacionais, sem tantas ameaças e guerras entre Estados, mas com crescente desrespeito à dignidade humana no interior dos Estados. Isso se mostra tanto em guerras abertas como se vê na Síria e Iraque, como nas disputas entre bandos rivais de traficantes e entre eles e a polícia no Brasil. Essa mesma violência se mostra em países da África como no conflito envolvendo a Nigéria, o Benin, Chade, Camarões e Níger e o grupo islâmico Boko Haram. E onde a violência não é aberta, como na corrupção política, também não se vive os tempos de paz da fraternidade universal do Sinai. E não custa lembrar nesses dias de explícita corrupção, que é uma forma de violência roubar o dinheiro da sociedade para custear o luxo suntuoso e ilegal.
E o que estrutura a fraternidade universal? Tivemos oportunidade de comentar no livro Ética (2010, p. 29-31). Uma das fontes da moral ocidental é a tradição judaico-cristã, ou melhor, os mandamentos da lei mosaica. O que há neste Código? Ele resume as regras morais que desde muitos séculos antes de Cristo servem de guia de conduta para o povo judeu. Os judeus as reconhecem como sagradas porque acreditam que foram entregues diretamente por Deus a Moisés. Elas se destinam a servir de orientação para uma vida plena, conforme o plano traçado pelo Criador. Os hebreus foram escravos no Egito e para orientar os tempos de liberdade que se seguiram à fuga liderada por Moisés através do deserto, Deus lhes ofereceu regras para bem viver em liberdade, assegurando também com elas uma disciplina interna. Os judeus acreditam que o cumprimento do Código será cobrado quando a pessoa se apresentar diante de Deus depois da passagem pela vida terrena. O Código mosaico orienta a relação do homem com Deus do seguinte modo: “Não terás outros deuses, não farás imagens divinas e nem as adorará”. As regras também disciplinam o convívio social: “Honrarás pai e mãe, não matarás, não cometerás adultério, não furtarás, não darás falso testemunho contra o próximo”. O cumprimento das normas, à parte do destino religioso do crente, era também cobrada na vida social.
Essas regras formam a base do convívio humano e fornecem o ideal de vida do homem ocidental, mesmo do não religioso. E assim é porque esse humanismo hebreu foi fundido e aprimorado nos evangelhos de Jesus e daí se tornaram a base da moral ocidental. E não é difícil perceber que nesses nossos dias onde se está distante da fraternidade universal, as regras de moralidade andam pouco cuidadas e a crença religiosa também tem pouco impacto na vida diária. Mesmo os socialistas de ontem, que beberam dessa fonte fraterna, perderam o essencial da mensagem porque não há socialismo possível sem uma mudança íntima e comprometimento pessoal com a justiça. O socialismo do progresso e da técnica que apenas confia no Estado termina nalguma forma de desastre.
Pois esse mundo de violência precisa da festa do natal, não de enfeitar ruas e comprar presentes, mas de fazer isso para celebrar o nascimento do enviado de Deus. O que temos para comemorar é a vinda do menino que veio ensinar que a missão dos homens é o serviço entendido como o tecido formador da fraternidade universal. Um trabalho feito na excelência do empenho pessoal, dedicado a tornar melhor a vida dos outros. Um trabalho onde o objetivo seja a construção de um mundo de paz e garantir o pão ganho honesta e corretamente.



sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

SEXALESCENTES OU… SEXYGENÁRIOS? Por Tita Teixeira



Se estivermos atentos, podemos notar que está a surgir uma nova faixa social, a das pessoas que estão em torno dos sessenta/setenta anos de idade, os sexalescentes – é a geração que rejeita a palavra “sexagenário”, porque simplesmente não está nos seus planos deixar-se envelhecer.

Trata-se de uma verdadeira novidade demográfica – parecida com a que, em meados do século XX, se deu com a consciência da idade da adolescência, que deu identidade a uma massa jovens oprimidos em corpos desenvolvidos, que até então não sabiam onde meter-se nem como vestir-se.

Este novo grupo humano, que hoje ronda os sessenta/setenta, teve uma vida razoavelmente satisfatória.

São homens e mulheres independentes, que trabalham há muitos anos e que conseguiram mudar o significado tétrico que tantos autores deram, durante décadas, ao conceito de trabalho. Que procuraram e encontraram há muito a actividade de que mais gostavam e que com ela ganharam a vida.

Talvez seja por isso que se sentem realizados… Alguns nem sonham em aposentar-se. E os que já se aposentaram gozam plenamente cada dia sem medo do ócio ou solidão. Desfrutam a situação, porque depois de anos de trabalho, criação dos filhos, preocupações, fracassos e sucessos, sabe bem olhar para o mar sem pensar em mais nada, ou seguir o voo de um pássaro da janela de um 5.º andar…

Neste universo de pessoas saudáveis, curiosas e activas, a mulher tem um papel destacado. Traz décadas de experiência de fazer a sua vontade, quando as suas mães só podiam obedecer e de ocupar lugares na sociedade que as suas mães nem tinham sonhado ocupar.

Esta mulher sexalescente sobreviveu à bebedeira do poder que lhe deu o feminismo dos anos 60. Naqueles momentos da sua juventude em que eram tantas as mudanças, parou e reflectiu sobre o que na realidade queria.

Algumas optaram por viver sozinhas, outras fizeram carreiras que sempre tinham sido exclusivamente para homens, outras escolheram ter filhos, outras não, foram jornalistas, atletas, juízas, médicas, diplomatas… Mas cada uma fez o que quis: reconheçamos que não foi fácil e, no entanto, continuam a fazê-lo todos os dias.

Algumas coisas podem dar-se por adquiridas.

Por exemplo, não são pessoas que estejam paradas no tempo: a geração dos “sessenta/setenta”, homens e mulheres, lida com o computador como se o tivesse feito toda a vida. Escrevem aos filhos que estão longe e até se esquecem do velho telefone para contactar os amigos – mandam e-mails com as suas notícias, ideias e vivências.

De uma maneira geral estão satisfeitos com o seu estado civil e quando não estão, não se conformam e procuram mudá-lo. Raramente se desfazem em prantos sentimentais.

Ao contrário dos jovens, os sexalescentes conhecem e pesam todos os riscos. Ninguém se põe a chorar quando perde: apenas reflecte, toma nota, e parte para outra…

… Os homens não invejam a aparência das jovens estrelas do desporto, ou dos que ostentam um terno Armani, nem as mulheres sonham em ter as formas perfeitas de um modelo. Em vez disso, conhecem a importância de um olhar cúmplice, de uma frase inteligente ou de um sorriso iluminado pela experiência.

Hoje, as pessoas na década dos sessenta/setenta, como tem sido seu costume ao longo da sua vida, estão estreando uma idade que não tem nome. Antes seriam velhos e agora já não o são. Hoje estão de boa saúde, física e mental, recordam a juventude mas sem nostalgias parvas, porque a juventude ela própria também está cheia de nostalgias e de problemas.

Celebram o Sol em cada manhã e sorriem para si próprios… talvez por alguma secreta razão que só sabem e saberão os que chegam aos 60/70 no século XXI!




Autor não identificado

sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

A Tragédia e a História. José Mauricio de Carvalho













Na noite do dia 29, a última terça-feira do mês de novembro de 2016, um acidente aéreo matou 19 dos 22 jogadores da equipe de futebol da Chapecoense. Os jogadores se dirigiam à cidade de Medellín, na Colômbia, para enfrentar o Atlético Nacional pelo primeiro jogo da final da Copa sul americana. No voo iam também dirigentes, jornalistas e a comissão técnica da equipe. A maioria dos tripulantes e passageiros faleceu, totalizando 71 pessoas.
Diante desse fato, envolvendo tantas pessoas, a maioria jovem e tantos atletas fica, em todos nós, a inevitável tentativa de compreender o acidente. E as primeiras respostas reproduzem os últimos instantes antes do acidente, busca-se entender os fatos, procuram-se as razões que o provocaram e um cuidadoso estudo se inicia conduzido pelas autoridades aéreas. Algumas pessoas se satisfazem com as respostas que nascem daí, faltou combustível, a companhia aérea assumiu um risco desnecessário, o avião ficou aguardando autorização para pousar, a gasolina acabou, etc. Mas é claro que se pode ir além dessas respostas. Pode-se perguntar porque essas coisas acontecem com os homens? Os gregos quando se viram diante de acontecimentos semelhantes teorizaram sobre a tragédia. Aristóteles a resume como a luta heroica, narrada de forma elevada e que termina de forma triste, com a desolação completa ou a morte dos heróis. E esse sacrifício é incontornável, apesar dos heróis se rebelarem contra o desfecho, não o desejarem, o fim inevitável mostra a força do destino que a todos arrasta contra a vontade. A tragédia é o olhar para a vida mesma, com os fatos que a tipificam, deixando de lado as tentativas de mascarar os desastres ou mistificar a existência humana.
O acidente com os jogadores da Chapecoense, até a batida do avião na montanha e a condução dos corpos e sobreviventes para os hospitais tem todos os componentes descritos pelos gregos, há os heróis em luta para vencer um grande desafio (vencer o jogo final do campeonato sul americano), há a narração épica que enaltece o trabalho dos atletas que se preparam e lutaram para chegar a esse momento, há o imprevisto e terrível fim que a todos arrasta para um final impensável e o fracasso, perderam a batalha. Os fatos que se seguem mostram um final diverso da análise grega.
A cidade de Chapecó, nesse acidente, não apenas chora seus mortos, mas se mobilizou, arrumou o estádio para recebe-los, mostrou toda sua dor, mas se prepara para recomeçar depois de enxugar as lágrimas e enterrar seus mortos. A tragédia uniu a comunidade, deu-lhe uma base que solidifica, um sentimento de pertença. Todos os habitantes da cidade torcem para o clube, todos desejam seu sucesso. Sentindo-se juntos e unidos enfrentarão melhor as adversidades e vencerão os desafios futuros. As nações precisam partilhar esse sentimento comum de pertença para funcionarem como uma verdadeira comunidade. Do contrário serão apenas um agregado de pessoas.
A cerimônia no estádio de Medellín, realizada na hora do jogo, resume as inúmeras manifestações de solidariedade humana que ocorreram no Brasil e no exterior. Muitos torcedores e pessoas ao redor do mundo mostraram sua solidariedade e ofereceram ajuda diante do sofrimento das famílias das vítimas, da cidade de Chapecó e do Brasil. Mas o time, dirigentes e torcedores do Atlético Medellín fizeram algo melhor, eles tornaram aqueles que o destino matou vitoriosos. Os adversários da final foram reconhecidos como vencedores, dando um novo sentido à tragédia. Nessa linda atitude a mão que dirige e é senhora da história, orientou e dirigiu os fatos para um novo final. E junto com os torcedores, atletas de dirigentes do Atlético Medellín nada mais resta que se juntar a esse emocionante coro que reconheceu os vitoriosos e cantar com eles: “vamos, vamos Chape”.


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