sexta-feira, 18 de julho de 2014

A corrupção padrão FIFA. José Maurício de Carvalho



















A avaliação simplificadora resultado de pobres análises da realidade nacional fizeram surgir na mídia e nas redes sociais a ideia frágil de que os recursos gastos com os estádios da copa resolveriam, ou melhorariam substancialmente, a realidade da educação e da saúde pública brasileiras, caso nelas fossem aplicados os recursos gastos na construção dos estádios. Essa análise simplória levou a conclusão igualmente débil: a de que poderíamos construir inúmeros hospitais e escolas de grande qualidade com o dinheiro de meia dúzia de campos de futebol que foram reformados para a Copa do Mundo no Brasil. Generalizou-se a triste ideia de que devíamos ter construído escolas e hospitais padrão FIFA com esse dinheiro, mudando assim o padrão da educação e saúdes nacionais. Essas análises simplificadoras tem encanto e mistificam porque buscar a excelência é um ideal que a humanidade persegue (e deve mesmo perseguir). Portanto, fazer tudo excelente é o que se deve buscar, inclusive para os estádios de futebol. Além disso, é boa ideia gastar parte importante dos recursos nacionais com a saúde e educação do povo evitando desperdício, pois isso garantirá, se feito com persistência, uma vida melhor para as futuras gerações de brasileiros. No entanto, os outros aspectos da vida não podem ser esquecidos e a mudança de padrão social da sociedade depende de trabalho contínuo, do planejamento sistemático, e do esforço atual geração para a melhoria do futuro. Essa mudança para melhor não virá com poucos anos de trabalho e pouco empenho.
Apesar do início do texto sugerir o contrário, não vou tratar aqui do mal uso dos recursos públicos. Pretendo considerar o triste fato da semana que foi a descoberta de uma quadrilha internacional, com participação de brasileiros, envolvida com a venda ilegal de ingressos de cortesia da FIFA. Tomo então emprestada a expressão padrão FIFA, usada nas análises simplificadoras acima mencionadas, para referir a uma forma de corrupção que alcança pessoas de diferentes nacionalidades, formação, estrato social e uma entidade séria situada numa das sociedades mais organizadas do mundo, a Suíça.
O esquema de fraude organizado para ganhos ilegítimos que foi descoberto pela Polícia Federal brasileira mostra que mesmo em meio a organizações sérias e de boa tradição pode surgir a corrupção. De modo geral, o mal feito, ou o mal moral, pode surgir em qualquer sociedade, não importa quão bem organizada seja e quão possuidora seja dos melhores princípios e intenções. É que o sujeito humano precisa ser fiel aos ideais éticos para que as coisas corram bem e as sociedades, futebolísticas ou não, cumpram seu papel e objetivos. Pouca eficácia possuem bons princípios se forem associados a má conduta. Contudo, mesmo sendo possível escolher o mal devido à liberdade pessoal é preciso defender os princípios, pois é da sua difusão que se fortalece uma regra aceitável para todos. E essas regras permanecem válidas, mesmo se alguns não as praticam.
A formação pessoal para a excelência é uma das maiores debilidades de nosso tempo de massas, dizia Ortega y Gasset. Poucas instituições procuram e defendem, com entusiasmo, a excelência, pois isso implica numa espécie de compromisso moral com o esforço e com a vocação pessoal. Excelência moral está associada a esforço e responsabilidade. A fragilidade da liberdade não pode impedir de combater o mal. Pois, se não é possível uma sociedade perfeita nessa terra, quando não se opõem ao mal praticado, os membros de uma sociedade produzem um mal maior, um mal metafísico, isto é, favorecem o gosto de fazer o mal ou, ao menos, a crença de que ele pode ser praticado sem enormes prejuízos para toda a sociedade. Muitas vezes, a simples omissão contribui para que o mal se espalhe.
Precisamos, por isso, combater o mal em todas as suas formas. Ao debater os princípios morais e assumi-los fortalecemos o propósito de evitá-los. Ao punir os que se deixam levar pela tentação do mal feito evitamos a propagação desse mal. Ao enfrentar os males dos quais somos causa involuntária, como o melhorar uma sociedade injusta, ajudamos a construir um futuro menos injusto. Ao combater o males objetivos presentes na vida social damos passos decisivos, reais e concretos para melhorar o mundo.

A história de corrupção envolvendo dirigentes da FIFA e outros aproveitadores de plantão mostra que o mal moral surge onde está o homem e deve ser combatido nas consciências e instituições. O fato mostra que fica o homem desafiado a renovar o compromisso na excelência dos princípios pensados e nas ações praticadas todos os dias de sua existência. Não há vitórias definitivas nessa batalha da consciência e da organização social.

sexta-feira, 11 de julho de 2014

O Despertar da consciência. Selvino Antonio Malfatti




Se partirmos da constatação de que existimos, de imediato veremos a precariedade de nossa existência. Conseguiremos recuar até o instante de nossa consciência, de nossa interioridade que, iluminada, toma consciência de si? Estamos suspensos, sem ser e com desejo de mendigos de tê-lo. Quando ocorreu o acender de nossa consciência? Para a maioria tudo se esvanece no passado longínquo o qual não se consegue identificar. Caminhamos sobre o Nada, como o Mestre caminhava sobre as águas.
Alguns têm a felicidade ou não, de despertar cedo para a consciência.  Eu fui um deles devido à religiosidade dos pais. Nas aulas de Catecismo, uma das primeiras perguntas a nós feita e ainda presente, foi ponto de partida para a consciência.
- Para que vivemos na terra? E a resposta nos tirava do marasmo do nada:
- Para amar e servir a Deus e assim salvar nossa alma.
É para isto que existimos, nos dizia o Catecismo. Depois até poderá ter mudado, mas foi dado o choque do despertar e despertamos. Isto pode acontecer pela mística, filosofia, testemunho e outros.
O que nos consola como reduto último é a Esperança. Entre o Ser e o Nada, perigosamente suspenso sobre a Morte, o homem consegue viver porque se recusa cortar o fio da Esperança. Se este for rompido, cairemos no Nada.  Os acenos das Angústias, do Cuidado, da Náusea, na verdade, são apenas acenos do desespero, pois são formas de cortejar o Nada, de quem pendula entre a Morte.

A Luz pode ser a metáfora da vida, enquanto a Noite é a da Morte. O primeiro um ser-em-si e o segundo o não ser. Esta dualidade reflete-se na gnosiologia, na relação entre sujeito e objeto. No ato do conhecimento, o sujeito não só contempla o objeto, mas também o objetiva. A relação imediata que surge é uma bipolaridade de eu- isto. Neste primeiro contato sujeito-objeto, é estabelecida uma relação fria. O primeiro ignorando a concretude do segundo e este reduzindo ao mínimo sua concretude. Dessa relação surge uma metafísica materialista ou mesmo estruturalista. A relação sujeito-objeto nos leva a renunciar ao conhecimento da Vida, do Homem e do Espírito, pois há um sujeito diante de uma coisa e vice-versa. Será possível outra relação? É possível  desde que a relação que se estabeleça seja de natureza Eu-Tu , Nós-Ele, Eu-Vós. Esta relação muda a natureza, pois em vez de objetos, coisas, há relações de sujeitos intersubjetivos. Com essa relação é possível captar a vida, o espírito e o Homem concreto. O existente humano é o ser-em-si em trânsito, na busca do Ser-em-Si-para-Si. Então, talvez, a esperança substitua a culpa e liberte o ser humano.

sexta-feira, 4 de julho de 2014

O mundo da bola e a vida. José Maurício de Carvalho.













A notícia da semana no cenário esportivo nacional foi o centenário do Santos Futebol Clube completado no último dia 14 às 12 horas. E o centenário do Santos nos coloca diante da lembrança de um dos mais fantásticos times que já surgiu. O time mágico foi bicampeão das Américas, bicampeão do mundo e a base da seleção bicampeã do mundo. O Santos de Pelé, Gilmar, Pepe, Edu e de tantos outros artistas da bola, jogava brincando, fazia o jogo parecer fácil com sua rotina de vitórias. Ver aquele time jogar lançava o expectador numa dimensão lúdica, onde viver é o exercício da mais perfeita prática esportiva com a completa entrega ao jogo. E as torcidas de todo mundo corriam para ver o time do Santos jogar.
Naquele tempo em que o Santos vencia em qualquer parte do mundo e as pessoas aguardavam ansiosas o dia de vê-lo jogar, as torcidas não se matavam na expressão mais completa da animalidade humana. Os embates esportivos não levam à morte porque a vida vivida segundo seus impulsos e desafios profundos não é expressão da agressividade e destruição. Em contraste com a alegria da comemoração do centenário do Santos ainda perturba e assusta o recente confronto entre as torcidas do Palmeiras e do Corinthians que resultou na morte de dois palmerenses. Neste outro jogo da brutalidade não há vencedores, todos perdem, não importa o lado dos mortos ou feridos. Ano passado conflitos parecidos resultaram na morte de um torcedor corintiano, nova derrota da vida.  Se algo merece ser celebrado neste centenário do Santos é como o seu futebol mágico tornou o time admirado entre todas as torcidas. Não havia nos anos sessenta torcedor que não fosse encantado pelo Santos de Pelé. O time maravilhou o mundo com o futebol bem jogado, com um futebol bonito de ver.
A vida possui uma a dimensão esportiva que o jogo de bola representa. Viver é dedicar-se integralmente a algo, a um projeto de existência com a mesma gana e dedicação com que o atleta deve jogar. Há regras, há objetivos, mas a vida mesmo só é interessante quando regras e objetivos são cumpridos com entrega. Com a mesma alegria que os treinadores cobram de seus atletas: jogar com alegria, com dedicação completa, do mesmo modo que se deve viver.

O Santos de Pelé protagonizou tempos mágicos de vitórias e de um futebol lindo. Algo que hoje vemos no Barcelona do argentino Leonel Messi. E o que faz o time catalão jogar tão bem e o argentino destacar, superando-se de modo cada vez mais extraordinário? A resposta é a dedicação completa do grupo de atletas que se entrega de forma apaixonada ao que faz. Não há registro de jogadores do Barça em baladas, ninguém está acima do peso, nem é flagrado com prostitutas, bandidos ou traficantes. É um time focado em sua missão, vencer no esporte e na vida. Jogam duas vezes por semana, ninguém fica lesionado ou tem cansaço muscular. O Barça é tão extraordinário em campo quanto fora dele quando treina e se prepara 24 horas para jogar, sete dias por semana.  Entregar-se apaixonado ao que se faz tornou Pelé o atleta do século, e é este o segredo de Messi que as revistas esportivas explicam com altos salários, talento do treinador, treinamentos físicos e táticos. Tudo isto somente tem o efeito que tem porque ali há alguém completamente entregue à sua missão de jogar bola, como somos desafiados a viver, com o mesmo entusiasmo e dedicação. É esta entrega que temos que ter, não importa se nossa missão é fazer pão, varrer rua, levantar pontes, administrar empresa, cuidar da saúde ou ensinar. Não importa o ofício, não importa o que se busca, não importa o que temos que fazer, devemos fazê-lo de forma completa. Viva o Santos de Pelé que é, na lembrança de quem o viu jogar, um exemplo do que é viver de forma apaixonada pelo que se faz e no respeito às regras do jogo e da vida.

sexta-feira, 27 de junho de 2014

QUEM É MELHOR: FELIPÃO OU SCHUCK? Selvino Antonio Malfatti.














Dois eventos ocorreram no Brasil concomitantes atualmente. O primeiro é o campeonato mundial de futebol realizado no Brasil e o segundo o lançamento de um satélite pelo Brasil na Rússia. Cada um deles tem um responsável. O Primeiro, Luiz Felipe Scolari, comanda uma equipe de jogadores de futebol que vai enfrentando um a um os adversários para conseguir chegar ao topo e tornar-se campeão. O segundo, Nelson Jorge Schuch, gerencia uma equipe de pesquisadores do INPE e da UFSM e já chegou ao objetivo: colocar em órbita terrestre um satélite.
O primeiro foi contemplado com bilhões de verbas nacionais e internacionais, bem como construções de faraônicos estádios nas principais capitais da federação, com funcionários regiamente remunerados. O segundo possui um modesto laboratório do INPE, na região central do Rio Grande do sul, Santa Maria, com funcionários e bolsistas pagos em salários. Na estréia do jogo do Brasil, no dia de 12 de junho, na Arena Corinthians, Scolari recebia atenção de milhões de pessoas tanto do Brasil como do exterior. No lançamento do satélite, na base espacial Yasny, na Rússia, estavam presentes duas dezenas de pesquisadores, geralmente coordenadores de projetos para lançamento de satélites.
Estabelecer um paralelo entre os feitos de Felipão e Schuch parece coisa de maluco, de samba de crioulo doido, pois são acontecimentos de natureza totalmente diversa. O primeiro é lúdico e o segundo científico. No entanto, como são contemporâneos é possível verificar a receptividade e repercussões no seio social de um e de outro, bem como projetar as conseqüências de um e de outro. 
Quanto à liderança, Felipão é essencialmente um futebolista que se transformou em treinador da equipe brasileira para o mundial de 2014.  Antes treinou o Palmeiras, em cujo time aprendeu as manhas e artimanhas do futebol e seus campeonatos. Principalmente as artimanhas, as entrelinhas e o jeitinho. Claro, tem um curriculum futebolístico invejável: foi campeão da seleção brasileira em 2002, da Copa do Mundo, Coreia do Sul, Libertadores da América. Em 2013 foi campeão da Copa das Confederações. Tudo isso, evidentemente, o qualifica.
Por sua vez, Schuch vive uma monótona vida acadêmica. É pesquisador do CNPq e professor da UFSM, desenvolve dezenas de linhas de pesquisa e trabalha com várias instituições. Sua maior conquista foi ter construído, junto com alunos da UFSM e do pesquisador Otávio Santos Cupertino, do Inpe de São José dos Campos, um satélite, já lançado ao espaço em 19 de junho deste. Também está qualificado devidamente para levar adiante projetos de pesquisa.
O que têm em comum?  Ambos são gaúchos, mas isto é irrelevante.
Schuch já alcançou seu objetivo, o satélite já está em órbita. Digamos que Socari também o faça, isto é, que o Brasil arremate a taça. Quais as conseqüências? Scolari proporcionará uma alegria imensa a milhões de brasileiros e admiração, senão inveja, dos demais países. E os estádios, como esfinges, continuarão a ostentar a grandiosidade do futebol brasileiro. Scolari será recebido em toda parte como herói, ovacionado e, por tabela, muito bem pago.  
Schuch, constará em atas e relatórios científicos como o primeiro brasileiro a conseguir tal feito. E continuará recebendo remuneração de professor. O satélite, porém, poderá prever tempestades, enchentes, secas prolongadas ou queimadas. Localizar cidades, ruas e pontos distantes e desconhecidos. A área da comunicação receberá mais impulsos, será mais rápida, segura e precisa. O Gps, cujo gerenciamento está nos Estados Unidos, poderá vir para o Brasil, inclusive fornecer para outros países, passando a ser fonte de divisas. Melhorará a vida de milhões de brasileiros.
O satélite não é grande, por isso mesmo chamado de NanoSatC-BR1, mas sua importância é inestimável para o conhecimento do espaço e inserir o Brasil no patamar espacial e outras vantagens. 
Quem é melhor? Scolari ou Schuch?
A propósito, lembro-me da Carta do imperador Vespasiano a seu filho Tito sobre a conclusão de Coliseu:

“Alguns senadores o criticam, dizendo que deveríamos investir em esgotos e escolas. Não dê ouvidos a esses poucos. Pensa: onde o povo prefere pousar seu clunis: numa privada, num banco de escola ou num estádio? Num estádio, é claro.”

sexta-feira, 20 de junho de 2014

Política e Ética, o livro. José Maurício de Carvalho






O mal feito dos políticos brasileiros ganhou destaque na mídia nos últimos tempos. Episódios que não deveriam acontecer se repetem com frequência assustadora na administração da coisa pública nos três níveis de poder. A ampla divulgação desses episódios é resultado do clima de abertura política e de liberdade presentes na sociedade brasileira nesses últimos trinta anos. Esse ambiente de liberdade existente hoje em dia sugeriu que a corrupção aumentou, pelo menos é a percepção da maioria dos brasileiros, conforme os números da pesquisa divulgada recentemente pela Anistia Internacional. No entanto, esse é um tema sempre presente na história política do país e é difícil saber se objetivamente estamos pior ou se permanecemos tão mal como sempre no que se refere à corrupção e outros males da gestão pública. Os mais velhos se lembram que Jânio Quadros foi eleito, em 1960, com a bandeira moralizadora, prometendo varrer a corrupção da vida pública considerada um dos grandes males do país. Voltando mais no tempo sabemos que a República foi proclamada, no já distante século XIX, tendo por justificativa o projeto moralizador de Augusto Comte e do seu amor à humanidade. Tinha-se, dizia-se na ocasião, uma monarquia incapaz de resolver nossos problemas e onde o universo político atingiria um nível de corrupção incorrigível, apesar da intocável figura do monarca. A alternativa possível era mudar o regime, avaliaram os líderes do movimento republicano. Esses fatos não são novidade para quem percorre os livros de história ou sociologia do Brasil. E há mais: O golpe de 64 teve, entre suas justificativas, erradicar a corrupção do espaço público, mas o governo revolucionário logo se viu nela envolvido, ainda que pouco divulgada devido ao autoritarismo do regime. Em nenhum  momento da nossa história pátria, vivemos a sensação de pertencer a uma sociedade bem estruturada moralmente. Nem nos tempos da colônia, onde a moral contrareformista era fiscalizada com mão de ferro pela Santa Inquisição na união Estado - Igreja, deixou-se de experimentar a corrupção, o contrabando e o mal feito contra o erário real em grandes proporções.
Essas referências históricas servem para indicar que a corrupção sempre esteve presente na história pátria e, no nível que se encontra entre nós, tem raízes no modelo de Estado e no modo como ele é administrado desde os tempos da colônia. Essa realidade mostra que os problemas da Política vão além da formação pessoal, contempla mais que a tensão entre valores morais e culturais mencionada por Max Weber, mas reproduz problemas de nossa tradição cultural que reforçam o mal feito. Esses elementos precisam ser conhecidos pela sociedade, debatidos, para serem rejeitados e punidos. Essa parece ser a melhor estratégia de lidar com os males que temos visto na política.
Cada homem pertence a uma comunidade, que lhe fornece uma  compreensão de mundo, que teceu seu entendimento da realidade e tudo isso é muito maior que o mundo de cada indivíduo. A pátria é um valor que não se pode desconhecer. A sociedade é responsável por boa parte da vida e da felicidade possível de se alcançar. Ainda que a existência de cada um seja resultado das escolhas que faz, ela não se realiza à parte da circunstância em que vive cada homem. Talvez seja mais exato dizert que o homem é um ser dfe relações, dependendo sua existência da sociedade onde vive. A política e a vida social não são descartáveis da vida pessoal e muitas vezes os valores que elas defendem (a defesa da pátria por exemplo) conflitam com os princípios éticos estabelecidos (não matar). No entanto, de modo geral semelhante tensão, ensina-nos Max Weber, não invalida a existência de princípios morais universalmente aceitos. Também não legitimam práticas totalitárias e a máxima de que fins bons justificam o emprego de meios ruins, muito menos corroboram o mal feito, a corrupção e o descaso com a coisa pública.
Examinar a vida humana não é só descrever o que tentamos fazer, mas é pensar o que temos que fazer com o que a vida fez de nós, como indivíduos e como sociedade. A existência da vida livre do indivíduo singular em meio à uma cultura dá nascimento às preocupações éticas. A Ética é o fio de ouro que amarra as criações culturais e as relações entre as pessoas. Ela traz, para a consciência pessoal, o sentido de pertença à humanidade, mesmo que isso seja vivido como conflito entre propósitos pessoais e valores sociais. Essa circunstância nos coloca diante do fato de que o sentido da existência há de ser construído entre levar adiante um projeto vital e a necessidade de assumir a responsabilidade por escolhas nos limites de princípios socialmente reconhecidos. O homem só pode se realizar quando conduz o fazer de seu mundo pessoal no respeito à dignidade dos outros, valor maior da cristandade ocidental. E é nesse espaço de relacionamento que se pode falar de transcendência possível como a ultrapassagem de limites pessoais para a realização de uma vida melhor.
O desejo de viver um novo tempo em nosso país e a persistência de práticas indesejadas, que nesses últimos anos também surgiram em outros países, foram oportunidade, para o Dr. Selvino Malfatti e eu refletirmos sobre os problemas da Política e da Ética. O livro nasce de um esforço para tratar, ainda que não nos moldes acadêmicos a que estamos mais habituados, do problema da corrupção e da imoralidade em geral, temas dos noticiários diários. Esclareça-se, é necessário, que os textos originalmente foram preparados como artigos de periódicos regionais e, mesmo sem possuir a metodologia rigorosa da investigação científica, usam conceitos precisos e buscam a objetividade no tratamento dos problemas. Eles têm a pretensão de trazer de modo simples, ao grande público, os problemas políticos e éticos, permeados de uma reflexão sobre os fins da sociedade e o sentido da vida. É esta a base do livro Política e Ética editado, em Curitiba, pela CRV que hoje estamos apresentando a essa sociedade literária e alguns convidados. Nenhuma mudança virá da sociedade sem um debate amplo dos problemas abordados no livro, um debate que enfrente tanto a herança cultural de raiz patrimonial da sociedade brasileira, como a desorganização do modelo de moral tradicional prevalente entre nós até poucas décadas.
O dito acima ajuda a entender que a corrupção e outros problemas políticos como a mistura entre os bens públicos e privados têm raízes antigas, vêm da herança patrimonial, que Portugal assimilou do convívio com os árabes, povo que ocupou, por séculos, a Península Ibérica. A tradição patrimonial não é causa única da corrupção nacional, a tentação ao mal feito é universal, mas o patrimonialismo cria um ambiente favorável para que ela persista. Se a política impõe o desafio de estabelecer os fins da sociedade, esse precisa nascer de novas práticas para alcançar melhores resultados que hoje é o desejo dos brasileiros. Isso significa romper com a enorme burocracia do Estado, com a prática do favorecimento dos amigos, com o tratamento desigual dos cidadãos e com a praga do idealismo jurídico que  obriga o impossível e irrealizável, estabelecendo um mundo surreral de leis que colam e que não colam, numa confusão da qual nem o Estado escapa. O que dizer do princípio de que a saúde é um direito de todos e um dever do Estado? Enfim, no plano da cultura será preciso firmar as bases da democracia liberal, da disputa legítima de interesses, respeitar as leis, estabelecer mecanismos eficientes de controle do uso da máquina pública, mas sobretudo criticar, desde dentro, a organização do Estado onde a ideologia e as práticas reinantes fortalecem o patrimonialismo, o privilégio e o uso público da máquina governamental em benefício privado. Está nisso a raiz da procura de benefícios particulares, independente de como se organiza a máquina pública, do desrespeito ao espaço coletivo, da apropriação indevida pelos particulares do que é público. A expressão sofisticada desses fatos é a negociata, frequentemente denunciada, de empresários com agentes do governo. Para a classe média o problema se mostra, por exemplo, na ocupação indevida dos jardins e praças públicas para pequenos negócios particulares, prática tão comum em nossa cidade e, na forma mais grotesca, na invasão dos sem isso e sem aquilo nas terras e propriedades públicas e particulares. Olha-se o patrimônio público como um tesouro sem dono do qual pode-se apropriar sem constrangimento, pois o que é público não tem dono na visão patrimonial, ou melhor, o dono é o rei muito rico e que mora distante no além mar (ou em Brasília) e tão longe ele mora que não dá notícia do modo como se trata o que é dele e que o cidadão não sente como coisa de todos, base da res-pública.
Por outro lado, a falta de discussão moral que situe o problema moral nos limites da razão humana, a ausência de limite da juventude educada na crença de que é proibido interditar desejos, as mudanças profundas no entendimento dos valores nucleares da cultura, o desejo ansioso e permanente do gozo contínuo e irresponsável presente hoje em dia numa forma de hedonismo angustiado que se espalhou pelo mundo, tudo contribui para o enfraquecimento do tecido social. Alguns desses problemas são percebidos localmente, mas são questões universais de uma sociedade de massa que Ortega y Gasset associou, no século passado, à invertebração histórica. Invertebração que consiste na perda do compromisso de fazer bem feito os desafios pessoais e de não reconhecer socialmente a liderança de competências e talentos, impedindo que a exemplaridade moral e a excelência pessoal conduzam a vida social. Invertebração que é, essencialmente, produto da crise de valores e da falta de compromisso com aquele núcleo íntimo e insubornável que é a consciência moral, núcleo que nos impede de mentir para nós mesmos, pois não podemos iludir a nós mesmos.
Conceber a vida como subjetividade situada no mundo e não pelas categorias da subjetividade abstrata concebida no início da modernidade é um desafio complexo de criar ciência, técnica, arte, filosofia, leis e até novas formas de experiências religiosas, tudo alimentado pelo compromisso de sermos melhores e de fazermos uma sociedade mais justa.
Enfim, os problemas da Política e da Ética contemporâneas são muitos, possuem origem complexa e envolvem muitos aspectos. É o que os pequenos capítulos do livro procuram apresentar ao tratar dos ideais da democracia, das funções do parlamento, da organização partidária, do funcionamento do Estado, da corrupção, das políticas públicas, da importância da educação para a moralidade, do significado dos valores, dos relacionamentos intersubjetivos, da relação entre Moral e Direito, do compromisso de fazer o futuro. Os textos do livro se não aprofundam esses assuntos os apresentam em toda sua complexidade. Eles propiciam uma visão ampla da problemática e oferecem a exata dimensão do desafio que precisaremos enfrentar nos próximos anos.

José Mauricio de Carvalho
Departamento de Filosofia da UFSJ


sexta-feira, 13 de junho de 2014

COMPORTAMENTOS SOCIAIS E CULTURA ÉTICA. Selvino Antonio Malfatti



                      



Comportamento significa as ações dos indivíduos na convivência social. Existem ações individuais, os comportamentos individuais, como pensar, sofrer, amar. Existem, no entanto comportamentos praticados coletivamente, como por exemplo, conversar, trabalhar, lecionar. Nos individuais é afetado somente quem pratica tais ações, mas nos segundos os outros também são afetados. Por isso, eles possuem regras, normas ou leis, quer espontâneas, quer impostas.
Se compararmos algumas sociedades entre si, percebemos que umas têm um grau de coesão muito forte, enquanto em outras predominam comportamentos dissolventes. Só para darmos um exemplo comparemos a sociedade britânica e a espanhola, ambas politicamente monárquicas. Na primeira, há um fulcro de valores consensuais que imanta as vontades individuais, enquanto na espanhola o que predomina é o anárquico. Os ingleses concordam na sua grande maioria com o sistema político monárquico e constitucional. Os espanhóis também têm monarquia, no entanto as discordâncias são enormes, tanto em quantidade, como qualidade. Alguns até duvidam que o rei D. Juan não consiga passar o trono para seu filho.
 Os ingleses aprovam o sistema econômico capitalista, embora haja secundárias discordâncias quanto maior ou menor intervenção estatal. Os espanhóis debatem-se entre ideologias liberais e socialistas.
Quanto à religião, em que pese a Anglicana na Inglaterra ser oficial, há amplo espaço para as demais como presbiterianismo, igreja metodista, sikhismo, batista, hinduísmo, judaísmo e outras. Os espanhóis têm a religião católica como majoritária, embora não oficial atualmente. O catolicismo foi religião oficial até 1931. Depois de 1939 a 1978. Por motivo de críticas e contestações, tanto por parte de católicos como de outras confissões, deixou de ser oficial em 1978.
Em relação aos partidos políticos na Inglaterra, os dois maiores partidos, o partido conservador como o trabalhista são liberais, apenas diferindo o grau de intervenção econômico-social. Na Espanha há um pluripartidarismo pulverizando a vontade popular.
Em que pese haver várias teorias para explicar tal fenômeno, penso que a questão ético-cultural é o pano de fundo e o móvel do comportamento social. A sociedade inglesa cedo na história teve que enfrentar o debate ético devido à Reforma de Lutero. Este acontecimento religioso provocou a fragmentação religiosa e com a ela a quebra da unidade ética proveniente do catolicismo. Depois da quebra da unidade religiosa, os ingleses tiveram que enfrentar a questão: a ética de qual religião seria a válida? Se optasse por uma particular adviria o dissenso e com ele a dissolução social nas formas comportamentais. A solução encontrada foi um debate ético supra-confissional. Disso emergiu uma ética laica e de consenso. Os demais países que não experimentaram a presença das várias religiões cristãs advindas da Reforma, mas permaneceram monoliticamente unidas em torno do catolicismo, como foi Espanha, Portugal, Brasil, Itália e outras, adotaram a ética decorrente da Igreja católica. Com a laicidade da sociedade o catolicismo deixou de ser a referência ética e a sociedade sente-se perdida. E ainda atualmente não há um consenso de valores que norteiem o comportamento coletivo.
No Brasil, por exemplo, parece que o que vale é o não ser flagrado. Não há um “justo” válido para todos, mas um “tirar vantagem de tudo”. É como um mercado ambulante. O preço dos produtos não é fixo, mas depende daquilo que conseguir do comprador. Parece na Turquia onde uma colcha foi ofertada por um vendedor por 450 reais, mas a pechincha baixou para 40 reais. Qual é mesmo, então, o preço justo?
Da mesma forma ocorre que o comportamento social. Falta um parâmetro válido para todos.
A propósito, o que se pensa sobre?
1.    Mentira
2.    Violência
3.    Roubo
4.    Infidelidade
5.    Vício
6.    Bulling
7.    Mutilação e suicídio, inclusive pásticas
8.    Trabalho escravo ou demasiado
9.    Jogo prejudicial
10. Fofocas

sexta-feira, 6 de junho de 2014

Política e Tolerância. José Maurício de Carvalho.






A tolerância entendida como necessidade de conviver com a diferença parece  tão antiga e natural quanto a experiência social do homem.  É que o homem é singular na sua herança genética e único no modo de compreender o mundo. Contudo, a história da humanidade foi quase sempre povoada de opressão e intolerância, recheada de imposição pela força de uma crença ou modo de vida. Lamentável faceta da animalidade humana.
A noção de tolerância só se firma quando a vida comunitária adquire amadurecimento e compreensão ética no respeito ao diferente. Neste sentido, merece registro o entendimento de Guilherme de Ockam, ainda no século XIV, de que Deus podia acolher entre seus escolhidos alguém que vive na razão. Dizer isto não era simples num tempo em que se acreditava que o caminho até Deus podia ser interditado pelos homens e que era legítimo torturar e matar quem partilhasse outra fé. Assim, a noção de tolerância entra na história em momento determinado e se torna importante nas disputas religiosas da cristandade dividida do início da modernidade.
O termo ganhou força depois da formação do Estado Moderno, pois pela primeira vez depois de séculos tinha-se a experiência de um poder forte e centralizado dirigindo grande comunidade. Enfrentar a intolerância tornou-se urgente com a divisão da cristandade e multiplicação de igrejas cristãs. É, neste contexto, que as Cartas sobre a Tolerância (1689), de John Locke, adquirem significado, pois reconhecendo ser o Estado um instituto para conservar e promover os bens civis, cabia-lhe assegurar o convívio pacífico dos cidadãos, desde que suas ações não contrariassem as finalidades pelas quais Ele existe, a saber: defender a vida, a liberdade e a propriedade das pessoas.
Locke, contudo, admitia um limite, pois para estar entre os protegidos pelo instituto da tolerância os cidadãos deviam professar algumas dentre as crenças cristãs disponíveis. Os infiéis não podiam beneficiar-se da tolerância. Era o pavor da brutalidade sem os limites do homem que não temia Deus.  Foram as novas experiências sociais da Europa laica que estimularam o debate público e trouxeram ao espaço coletivo estudos e reflexões como o Tratado sobre a tolerância (1763), de Voltaire. Desde então o assunto ganhou importância crescente entre as diferentes sociedades civis regulamentadas pelo Estado moderno, pois neles, conclui-se, o destino dos homens encontra-se nas próprias mãos. Política é o exercício deste destino.
Os episódios da semana que terminaram com depredação e violência em Porto Alegre, lamentáveis incidentes de rebeldia ilegal que se repetem pelo país, mostra como, com o exercício da violência, estamos longe de entender o significado da tolerância como estratégia moderna de convivência no espaço público. O problema se agrava com a divulgação crescente de teorias radicais que proclamam legítimo um dito poder popular, nome usado para impor à força o que parece legítimo a um grupo radical.

A violência e a intolerância é não apenas um meio de fugir do estado de direito e das leis existentes nas sociedades modernas, mas o caminho seguro de destruição da paz social. É legítima a participação na vida política e no destino da sociedade, mas isto não valida a brutalidade e a violência contra as leis do país e princípios de conduta racionalmente reconhecidos. O debate público do uso ilegítimo da força e o entendimento do significado da tolerância no espaço político são temas para reflexão em nossa sociedade nos dias que correm. Esperemos que ela inspire outras atitudes.

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