sexta-feira, 6 de dezembro de 2024

O acirramento da violência. José Mauricio de Carvalho

 



O dia 25 de novembro pretende dar visibilidade à violência contra a mulher. A ONU escolheu esta data porque foi nesse dia, no ano de 1960, que o ditador da República Dominicana Rafael Trujillo torturou e executou as irmãs Mirabal: Pátria, Teresa e Minerva. No último dia 25 a ONU divulgou dados assustadores da violência contra a mulher, mostrando que se trata de um comportamento infelizmente espalhado pelo mundo, tendo havido 85 mil assassinatos de mulheres em 2023, uma a cada dez minutos. Na Europa é onde a violência é menor, mas também está crescendo nesses últimos anos.

No Brasil a situação não é nada confortável, havendo o Ministério das Mulheres divulgado uma pesquisa feita em outubro deste ano com uma amostra representativa da população brasileira. Ela revela que 20% das mulheres relataram que já haviam sido agredidas ou ameaçadas de morte por companheiros e/ou ex-companheiros. A tendência de agravamento do quadro identificado pela ONU no mundo também se verifica em nosso país. O que explica esse aumento da violência?

Algumas razões são apresentadas nesses estudos, há, geralmente, motivos culturais relacionados à crença na submissão da mulher. Há o crescimento dos divórcios pedido por mulheres que buscam a independência financeira e profissional. Há uma crescente preocupação feminina com o êxito e carreira profissional a interferir em relacionamentos. Essa situação inserida num tempo em que a independência financeira e autonomia feminina são estimuladas em diversas partes do planeta, cria tensões nas sociedades mais conservadoras. Por detrás da violência há também uma leitura anacrônica de morais religiosas que submetem as mulheres a rígido controle de costumes, regras que nasceram em outro momento histórico e de uma interpretação machista da vontade de Deus. Enfim, são muitos os motivos para a violência, inclusive a pequena importância que as polícias atribuem às denúncias e queixas das mulheres contra ex parceiros.

Sem deixar de considerar a correção dessas explicações, devemos ir mais fundo recordando que a criatura humana, o que não exclui as mulheres, é instintivamente agressiva. Os maiores estragos são de responsabilidade masculina, pois o homem é, geralmente, fisicamente mais forte que a mulher. No entanto, o controle da agressividade é um dos desafios de nosso tempo, quando diversas sociedades assistem ao crescimento da violência também contra idosos e crianças, contra o pobre, as minorias e o estrangeiro. Enfim, a violência vem crescendo em função de dificuldades variadas que inclui o aumento das guerras regionais, da perseguição ao diferente e da procura de melhoria de vida pelas populações mais pobres.

Isso significa que o aumento da violência contra mulher é parte de um quadro geral do aumento da violência pelo mundo, pelo atual crescimento de um tipo de pensamento que se auto intitula conservador, com pautas radicais que apontam para a derrota da vida civilizada, da racionalidade iluminista e dos propósitos de paz e progresso visíveis na belle époque. A desconsideração da razão e dos esforços por pautar a vida nos seus limites, tem aberto as portas para todo tipo de violência, inclusive a praticada contra a mulher, as crianças e velhos. E, nesse mundo, quando mais se considera normal a violação das normas e leis em geral, maior a violência contra os mais fracos. Pois quem não tem limites no controle dos instintos é uma ameaça para a sociedade. E a despreocupação com a violência cresce na mesma proporção que se reduziu: o ensino das humanidades, da educação não tecnológica, do respeito às normas de uma moralidade ética.

Enfim, a violência contra a mulher é parte de um tempo que assiste ao crescimento das outras formas de brutalidade, todas alimentadas pela intolerância de um conservadorismo que atinge os fracos do mundo, o pobre, o estrangeiro, o diferente, as minorias, etc. Violência que precisa ser combatida como forma de reestabelecer uma sociedade mais fraterna e comprometida com as boas causas.

 

sexta-feira, 29 de novembro de 2024

FRÉDÉRIC BASTIAT E SEU PENSAMENTO SOBRE A LEI. Selvino Antonio Malfatti.

 


Neste mês de dezembro ocorre o trigésimo aniversário de morte de Fédéric Bastiat. Nasceu em França no início do século XIX e faleceu em Roma na véspera de Natal de 1850. Viveu um período efervescente e conturbado na Europa. A França, depois do período napoleónico, apensar de inúmeras tentativas, se encontra só no final do século. A Inglaterra vive o apogeu da era vitoriana. Alemanha, em que pese a preocupação com sua unificação, forma o império com Oto Bismark. A Itália consegue sua unificação de um conglomerado de pequenos reinos sob Vitor Emanuel. Permeando tudo isso há os debates do voto, do socialismo, do sindicalismo, da escravidão, esta condenada “in limine” por Bastiat.

No conturbado meio político da Europa, mormente na França, com a República, Restauração, Constituição e novamente República, Bastiat escreve La Loi (a Lei), no final de sua vida. O que o levou a escrever este pequeno livro? Pequeno só em tamanho, pois seu conteúdo é imenso! Da mesma forma que Alexis Tocqueville que escreveu A Democracia na América, buscando no espírito do povo americano a explicação de suas instituições, Bastiat preocupado com seu país que não encontrava o espírito do povo,  pois vivia continuamente em crise: não servia a monarquia, não servia a República, não servia o Império, finalmente volta para a República.  Por quê esta instabilidade e inquietude? - se pergunta Bastiat. Por que não há uma legitimidade alicerçada nas tradições do povo. Os políticos inventavam leis que saíam de suas mentes, mas não tinham nada a ver com o povo. Era preciso buscar novamente o coração do povo, a intimidade da consciência de cada um, aquilo que o povo espontaneamente praticava.

E qual é este fundamento? O que o povo praticava?  A lei natural. No fundo Bastiat, um conservador como Edmund Burke, que no livro L´Ancien Régin condena Revolução que pôs abaixo todas as tradições do antigo Regime, as obsoletas, mas também as válidas , pede para repensarem Jonh Locke, Segundo Tratado do Governo Civil, no qual nos Capítulos IV e V estabelecem magistralmente os direitos individuais naturais, dos quais derivam todos os demais direitos, vida, liberdade, igualdade, inclusive o de propriedade. Este direito natural é sim o espírito do povo, enraizado em toda história da França desde Aristóteles, na Política,  Santo Agostinho na Cidade de Deus e dos Homens, em Santo Tomás na Suma Teológica, em Kant na Metafísica dos Costumes,  o qual institui o dever como algo natural,  e continua o desfilar de pensadores que se alicerçam sobre a lei natural.  Por isso, a lei deve começar com eles e não com derivações mentais que não tem ressonância na natureza e que só servem para tiranizar o povo com promessas filantrópicas, do calibre socialista e enciclopedista, mas no fundo o que praticam é a espoliação.

À guisa de conclusão podemos dizer que Bastiat coloca como alicerce da lei os direitos naturais, os quais fundamentam a liberdade e a justiça. Defende que a prosperidade e a paz só podem ser alcançadas quando a lei tem por objetivo assegurar os direitos naturais, e não para proteger privilégios ou interesses específicos em detrimento dos gerais. Se a lei natural for consagrada para proteger os direitos individuais, estes erguerão uma barreira contra o poder estatal.

 Nota do Autor: A questão dos direitos individuais é tão importante no Pacto de Paz de Pedras Altas,  Rosário do Sul, 1923, entre Chimangos e Maragatos do Rio Grande do Sul consta três vezes O RESPEITO AOS DIREITOS INDIVIDUAIS.


sexta-feira, 22 de novembro de 2024

O G2O Rio-024. Selvino Antonio Malfatti

 




Nos “G20” reúnem-se as maiores economias mundiais abrangendo 85% da produção internacional.  A presidência é rotativa cabendo ao Brasil para este ano de 2024, até dezembro.

A agenda geralmente tem um ponto focal, este ano a questão da fome sob a sugestão do Brasil. Nos encontros quase nunca faltam as questões abaixo, embora também quase sempre fica só no papel, com algumas exceções. Abaixo as resoluções deste ano.

1.   Mudanças Climáticas e Sustentabilidade

Neste tema as discussões envolvem redução de emissão de carbono, atualização de energias buscando as renováveis, financiamento climático para países em desenvolvimento financiamentos de produções agrícolas sustentáveis.  

2.   Economia Global e Comércio

A economia global veio para ficar. As tentativas para implantar as alternativas redundaram em fracasso, inclusive as alternativas  já em funcionamento pouco a pouco estão se tornando globais, como China e Rússia.

As soluções apontadas são no sentido de estancar a inflação global e as consequências da pós-pandemia.

3.   Tecnologia e Inovação

A emergência da Inteligência Artificial requer urgentemente de regulamentação, cibersegurança e segurança de dados.

Questões relacionadas à cibersegurança e proteção de dados. Incentivar a conectividade e a inclusão na educação de novas tecnologias

Expansão da conectividade digital e inclusão tecnológica.

4.   Segurança Alimentar e Recursos Naturais

Incentivos governamentais à agricultura sustentável e evitar o desperdício alimentar.

5.   Saúde Global

Previsão de epidemias, saúde pública e provisão de vacinas.

Apoio à Organização Mundial da Saúde e preparação para enfrentamento global às crises sanitárias

6.   Geopolítica e Segurança Global

Gerenciamento pacífico de conflitos bélicos.

Estímulo ao combate ao terrorismo, tráfico de drogas e crimes cibernéticos.

Além desses temas foram discutidas e aprovadas medidas para garantir o desenvolvimento e Inclusão Social, energia e Transição Energética, estratégias para acelerar a transição para fontes de energia limpa e outros temas relevantes para o mundo ou comunidades particulares.

Sob a presidência do Brasil este ano o tema principal foi a fome. Foi aprovada a sugestão da criação de uma Aliança Global contra a fome e Pobreza. Para tanto foi levantada a hipótese de criação de um fundo internacional para dar suporte às políticas públicas e programas que visem a eliminação da fome.

O encontro conclui que a fome é uma consequência das desigualdades estruturais, potencializadas por crises globais, adventos climáticos adversos e guerras, ligadas à Agendas 2030 da ONU. O Brasil assumiu a responsabilidade de levar adiante a proposta.

 


sexta-feira, 15 de novembro de 2024

A AUTORIDADE DO PROFESSOR. Selvino Antonio Malfatti

 




 

Neste artigo focamos a autoridade do professor em sala de aula. Para chegar à função o professor deve ter formação específica, demonstrar habilidade, agir ético comprovado. Em troca receberá um salário.

Para exercer sua função receberá uma classe de alunos aos quais ministrará aulas. As condições para o bom exercício é a disciplina tendo em vista que as aulas não são individuais, mas coletivas. O pressuposto para a disciplina é o respeito à autoridade moral e física do professor.  Atuação do professor é específica: ele transmite conhecimentos, cobra através de avaliações o aproveitamento, atribui um conceito final na conclusão do período.

Um dos problemas enfrentados por professores em todos os tempos é a autoridade. Esta significa que o professor tem que exigir: disciplina, fazer temas ou trabalhos, cumprir ordens. Acontece que enquanto o professor só tiver uma autoridade moral, nem sempre suas ordens são eficazes. Será necessário que tenha em potencial uma autoridade física pra se tornarem efetivas as suas ordens.

As leis devem ser claras e o os poderes – executivo,  judiciário e legislativo -  torná-las eficazes. Não adianta nada o professor ter autoridade se um dos poder desacreditá-la.  A autoridade possui uma hierarquia, reconhecida por quem deve obedecer. Mas não é só. A autoridade deve ter principalmente legitimidade para que mereça obediência. A legitimidade é proveniente da lei legítima. Por isso a autoridade do professor reside no direito, por que embora um ditador faça leis, contudo estas não tem legitimidade.  De tal sorte que se tornou proverbial: sem legitimidade não há autoridade.

Este conceito transposto à escola terá a mesma validade? Comumente a receita aplicada é esta: repressão, sanção e disciplina. Com toda a autoridade que carrega pela própria experiência, Hannah Arend se pergunta: “o que é a autoridade”? Para ela a autoridade exclui os meios externos de coerção: “onde a força é usada a autoridade propriamente falhou”. Detalha a filósofa: a autoridade baseia-se numa hierarquia, cuja legitimidade é reconhecida por quem obedece. Quem se submete não se inferioriza. Estão intimamente ligados: legitimidade, reconhecimento e autoridade. A autoridade não deprecia ninguém, nem lhe tira a liberdade.

O certo é que as queixas da falta de autoridade dos professores continuam. Ora são professores que não conseguem disciplina nas salas de aula, ora são agressões físicas, ora denúncias de maus tratos ou racismo, enfim professores envolvidos num emaranhado de leis que os acusam por quaisquer motivos até discriminação sexual.

Serão estas queixas apenas uma nostalgia de tempos autoritários ou refletem uma crise mais profunda? A legitimidade das instituições e nelas os docentes? O fato é que há uma crise não só na escola, como na educação como um todo como constata Eirick Prairat, autor de Eduquer avec tact.

A difusão das ideias democráticas em todos os estratos da sociedade em si é positivo. Mas há espaços pré-políticos, que não são abarcados pela democracia, conforme Hannah Arend. Quais são estes espaços? Tudo o que não for público é privado. Nos espaços privados estão os espaços pré- políticos ou espaços de iniciação que precedem e preparam para os espaços políticos. Citam-se a escola e a família. Nestes é necessária a autoridade como forma de educação. Como nestes ambientes as pessoas estão em formação da personalidade e do caráter são espaços intermediários para no futuro exercer cada um a cidadania na esfera pública. Justifica-se a autoridade nestes ambientes para o desenvolvimento da capacidade crítica de discernimento. É a educação para democracia.

Nestes ambientes, principalmente na escola, o adulto, no caso o professor, assume a responsabilidade de introduzir as novas gerações para o mundo. Para tanto requer autoridade para transmitir os conhecimentos armazenados pelos antigos para os novos e o treinamento para a democracia.

Para Arend na escola a autoridade é exercida pelo educador não para suprir a liberdade, mas para aprendê-la e depois como adulto exercê-la.

sexta-feira, 8 de novembro de 2024

Transtorno esquizofrênico e morte no sul. José Mauricio de Carvalho

 




Zygmunt Bauman realizou diversos estudos sobre a atual crise de cultura e suas manifestações. Um dos aspectos mencionados como causa dessa crise foi o desmantelamento do Estado Social. O desmonte se devia, avaliou, ao desinteresse do grande capital pelo bom funcionamento dos Estados. Isso porque ele já não mais necessita de um exército de trabalhadores e, assim, se descomprometeu de sua formação e manutenção. O fenômeno foi descrito genericamente como desterritorialização do capital, isto é, quebra do vínculo da territorialidade entre o capital e o Estado onde ele está. Não tendo mais necessidade de um lugar fixo para se desenvolver, o grande capital não necessita mais se responsabilizar por um povo ou Estado.

Por conta de seus atuais interesses e depois que deixou de se preocupar com a ameaça comunista, pelo fim do comunismo real, o grande capital anda solto pelo mundo. Como um bom boêmio dorme aqui e acorda acolá. Passa a vida a proclamar as delícias do consumismo e do gozo imediato e irresponsável. A Rússia não mais ameaça com o comunismo e a China criou uma espécie nova de despotismo oriental, autoritária e capitalista. Os remanescentes do comunismo como Coreia do Norte, Cuba e Venezuela servem apenas para se mostrar o que se deve evitar. O totalitarismo ou ao menos o brutal autoritarismo ali praticado não deve mesmo ser tolerado. Aliás, nenhuma forma de governo autoritário deve ser aceita, pois a democracia e o estado de direito é a melhor experiência de organização política que temos.

A desterritorialização do capital e seu desinteresse pelo destino do Estados criou dificuldades crescentes para a manutenção de compromissos históricos entre o Estado e seu povo. Compromissos como a educação pública de boa qualidade, serviços de saúde públicos e institutos de previdência social, além da segurança cidadã. Lembremos que a proteção da criança desassistida, dos doentes e velhos foi uma conquista da sociedade ocidental, assuntos defendidos pelos grandes capitalistas dos últimos séculos por obediência, inclusive, ao princípio moral bíblico de proteger os fracos e desamparados: crianças, doentes e velhos. Nesse novo momento e, sem explicar isso ao povo, políticos de extrema direita atribuem os novos problemas do Estado ao estrangeiro e ao diferente (minorias em geral e pobres) e esperam transformar o Estado numa delegacia de polícia com um território cercado de muros. Vendem esse projeto como a maravilha da classe média e inventaram um cristianismo da prosperidade e riqueza tão distante dos ensinamentos do mestre de Nazaré como o sol da lua. Esse tal evangelho da prosperidade ajuda mais a enriquecer alguns pastores e igrejas, mas isso é outra história.

No campo da segurança, a falta de compromisso do Estado com o seu monopólio se mostrou, entre coisas iguais, na política dos CACs. Em outras palavras, sem o monopólio da segurança pelo Estado e seus agentes policiais, cada qual se vire e proteja vida e patrimônio de arma em punho. Porém colocar arma, generalizadamente, na mão da população, nunca foi o melhor caminho para garantir a segurança de ninguém. Isso feito e caminharemos para aquilo que Thomas Hobbes descreveu como guerra de todos contra todos.

O episódio recente no qual o caminhoneiro Edson Crippa, que matou diversas pessoas em Novo Hamburgo (RS), é um bom exemplo do que significa armar indiscriminadamente a população. O caminheiro era portador de transtorno esquizofrênico e já havia sido internado em diversas instituições psiquiátricas. Quem conhece a dinâmica desse transtorno sabe que ele se manifesta em crises episódicas quando a pessoa pode se tornar extremamente agressiva. Os sintomas do transtorno são: alucinações, delírios, pensamento desorganizado, abulia, falta de prazer na vida, dificuldade de organizar informações e usá-las adequadamente, dificuldade de interagir socialmente, entre muitos outros sintomas graves de alteração da consciência.

Mesmo com esse diagnóstico, Edson Crippa consegui a certificação de Colecionador, Atirador e Caçador (CAC) e tinha em sua posse quatro armas: uma pistola de 9 mm, uma pistola 380, uma espingarda de calibre 12 e um fuzil, além de mais de 300 munições. Provavelmente devido a uma denúncia de maus-tratos aos pais, ele entrou em surto. Durante o ataque, Edson matou o pai, um irmão e dois policiais. A mãe e a cunhada e outras pessoas foram gravemente feridas. No final o próprio atirador também foi morto. Uma tragédia que poderia ter sido evitada se o motorista não tivesse armas à mão e elas estivessem confiadas apenas aos agentes de segurança.

Assim, devido a diferentes e novas dificuldades, os Estados terão que se reinventar. Não fechando os olhos para os problemas ou pela reativação de um nacionalismo nazista e doentio, mas pelo fortalecimento da democracia e seus mecanismos.

 

 

 

sexta-feira, 1 de novembro de 2024

Papa Francisco e o Amor. Selvino Antonio Maslfatti

 


 


 

 A nova Encíclica de Francisco I insere-se na vertente franciscana do pensamento cristão. Com efeito, o franciscano Dun Scotus enfatiza o papel da vontade colocando-a em supremacia em relação à razão. Da mesma forma São Francisco é todo amor em relação à razão. Não pode ser esquecido Santo Agostinho quando proclama: “o coração tem razões que a própria razão desconhece”. O fundamento geral e próximo é o evangelho de São João.

O título da Encíclica Dilexit vos consta do livro de São João, capítulo 3 e em outras passagens bíblicas. A linha de pensamento dirige-se, não à razão, mas ao coração, por isso enfatiza a caridade e com ela quer enfrentar os desafios contemporâneos. Destacas o amor na vida da Igreja e dos fiéis lembrando as palavras de Jesus: “amou-vos até o fim.”

Destacamos os principais pontos:

O amor é o coração da Igreja e de toda a sua ação. O amor não é algo teórico, mas concreto que se manifesta através das obras de misericórdia que se concretizam no serviço aos pobres e marginalizados.

A caridade através da qual busca a justiça social. Esta caridade não apenas visa a ajuda material, mas trem em mente a justiça social. A igreja deve estar atenta às necessidades dos vulneráveis e esforçar-se para promover um mundo amis justo.

Um dos temas mais badalados internacionalmente é o meio ambiente. A solução é novamente o amor para cuidar da criação da criação. Cita, para tanto a própria Encíclica: Laudato Si. Este amor deverá se estender a todas as criaturas.

Os povos devem procurar a unidade e a fraternidade através do amor. Este promoverá a fraternidade  e o respeito mútuo, inclusive entre as religiões.

Cristo é o exemplo do amor sacrificial. O papa exorta os cristãos a seguirem seu exemplo para sua entrega ao próximo.

Estes são os principais temas abordados pelo papa. Concluindo, quer uma igreja voltada para o serviço social, com justiça social e o cuidado com o ambiente, através do amor.

Encíclica:

 “Ele nos amou”, diz São Paulo, referindo-se a Cristo (Rm 8,37), para nos ajudar a descobrir que nada “poderá nos separar” daquele amor (Rm 8,39). Paulo afirmou isto com certeza porque o próprio Cristo tinha assegurado aos seus discípulos: “Eu vos amei” (Jo 15, 9.12). Ele também nos disse: “Eu os chamo de amigos” (Jo 15,15). O seu coração aberto precede-nos e espera-nos sem condições, sem exigir um pré-requisito para poder amar-nos e oferecer-nos a sua amizade: “ele nos amou primeiro” (1 Jo 4, 10). Graças a Jesus “conhecemos o amor que Deus tem por nós e acreditamos” nesse amor (1Jo 4,16).( CARTA ENCÍCLICA, DILEXIT NOS, Santo Padre Francisco)

 

sexta-feira, 25 de outubro de 2024

Democracia e religião .José Mauricio de Carvalho

 



A religião, como fato cultural, é uma das dimensões fundamentais da Vida. Tem um lugar importante no pensamento moderno ao lado da Ciência, da Filosofia e das Artes em geral. Ela enseja uma forma de ver o mundo e uma das fragilidades da modernidade foi perder de vista o significado da religião e de uma linguagem que ligue o homem com a transcendência.

O ocidente tem a Bíblia cristã, com seus dois testamentos, como livros sagrados, incorporando, assim, o essencial do livro sagrado dos judeus. No Primeiro Testamento (também chamado de Antigo Testamento) vemos que a religião ditava o ritmo da vida e inclusive os rumos da política. Disso tratei no livro sobre Martin Buber, publicado pela Filoczar de São Paulo. Ali mostramos que depois de sair do Egito, o povo judeu (CARVALHO, 2017, p. 77): “procurava Moisés para decidir sobre todos os assuntos da vida diária, por isso ele foi aconselhado a ter auxiliares para se dedicar apenas aos assuntos mais importantes de sua missão. A organização do povo naquele momento da viagem se assemelhava a das tribos de Madián, que eram diversas e tinham experiência de como se organizar nas andanças pelo deserto. E, para cumprir sua missão, Moisés adotou a forma de organização sugerida pelo sogro, uma estrutura sem alma copiada dos medianitas. Como explicou Buber, esse foi um acontecimento realmente histórico, já que os medianitas tinham experiência de como organizar as andanças pelos campos da região.”

 Segue-se a estruturação moral da sociedade pela lei mosaica, que a fé do povo acolheu como vinda diretamente de Deus. Embora, na sequência da história, a organização política foi entregue aos juízes e reis, enquanto a vida religiosa ficava a cargo dos sacerdotes. Na era profética, os homens de Deus sempre tinham algo a dizer sobre a vida e influenciavam o destino do povo, inclusive a política.

A boa novidade dos tempos modernos na Europa foi organizar a vida política à parte da religião. Isso porque havendo várias religiões cristãs num mesmo Estado Nacional era melhor deixá-las cuidando de assuntos espirituais e oferecendo uma moral íntima, ajudando, enquanto organização, a formatar uma moral social laica. Assim, religiosos e seus interesses ficavam fora da organização política da sociedade. Foi preciso revisar o pensamento judaico-cristão para ele não alimentar o fanatismo religioso, não estimular o ódio a outras crenças e nem tentasse impor à força uma religião, uma fé, uma perspectiva de mundo. Ficou claro, para o homem moderno, que uma sociedade de irmãos é um ideal moral e somente nesses termos encontra justificativa em nossos dias, como explicaram o judeu Martin Buber e o notável teólogo protestante Paul Tillich.

É claro que, como a sociedade caminhou no sentido da laicização, em alguns setores eclipsou Deus, resultando em dificuldades para lidar com o sagrado. A laicização acabou plantando sementes de uma crise que desabrochou em nosso tempo. Essa semente não foi, contudo, a única responsável pela crise de cultura atual. Chegamos por muitas influências à sociedade líquida e desinstitucionalizada. Como se trata de assunto complexo não temos como entrar nos múltiplos elementos dessa crise nesse pequeno ensaio.

Um fato novo e estranho de nossos dias foi o apoio de religiões neopentecostais a um pensamento de direita e extrema-direita, em razão de um interesse comum, a pauta de costumes conservadores. Essa aproximação não apenas dificultou parte da sociedade discutir os novos problemas morais e conversar com o que hoje temos, como trouxe para o discurso político a mesma intransigência, fundamentalismo e radicalismo que marcam essas crenças. Isso deu ao assunto um clima que em nada favorece um ambiente saudável de debate, que consiste em dar e ter reconhecida a razão quando se discute o destino dos grupos.

Some-se a isso a popularização das redes sociais usando um algoritmo que aproxima os que pensam iguais e afasta quem pensa diferente. Concebido para vender e identificar interesses comuns entre consumidores, as redes sociais e sua forma de funcionamento, alimentam a radicalização do pensamento político e favorecem um ambiente antidemocrático que precisamos revisar e modificar.

O futuro da democracia vai exigir que essas duas realidades, a religião e a política, sejam acompanhadas e revisadas para superar os discursos de ódio, o unilateralismo, o fanatismo e, especialmente, para manter a distância necessária entre as religiões e o espaço político.

Postagens mais vistas