sexta-feira, 25 de junho de 2021

A inconsciência, crença e irracionalidade. José Mauricio de Carvalho

 

 



Quando vivemos numa sociedade de massas como a nossa, cujo comportamento dos membros é frequentemente irracional, os estudos de Freud são de enorme significado, pois eles lançam luzes sobre o que acontece. Isso porque a conduta do homem-massa não se manifesta, ordinariamente, no espaço entre ter e dar razão e muitas coisas parecem não ter explicação. A psicanálise ajudou a entender o motivo de o homem agir frequentemente de forma irracional e, outras tantas vezes, de modo não racional. Há uma diferença entre essas duas formas de ação, embora nenhuma das duas seja consciente. A primeira é conduzida por impulsos inconscientes e reprimidos, pertence ao sistema inconsciente, não chegam a consciência espontaneamente. A segunda inclui crenças ou propósitos internos, que estão na base da racionalidade e surgem como expressão de fé íntima. Esse último comportamento se baseia em ideias do sistema consciente/pré-consciente.

Essa é uma boa forma de entender as crenças, assumindo-as como aquelas ideias inconscientes que Freud entendera habitar o sistema consciente/pré-consciente. Assim parece entender Ortega y Gasset quando avaliou que crenças são guias existenciais comuns que nascem da fidelidade ao núcleo mais íntimo da pessoa. Para ele, as crenças guiam a vida, mas não se concretizam necessariamente em ações arbitrárias ou violentas. Crença é o que faz o homem, por exemplo, levantar todos os dias com esperança de que terá um bom dia e estar certo de que a vida caminhará para o melhor, quando sabemos que nenhuma das duas coisas tem garantias nem comprovação. Crença é também o que o faz subir para seu apartamento numa torre alta, sem se preocupar ou perguntar se a edificação é firme o bastante para não desabar. No entanto, as crenças podem ser questionadas em dada ocasião. Quando assim ocorre elas deixam de ser crenças para se tornarem ideias comuns. Ideias podem ser debatidas, aceitas ou recusadas, crenças não.

As crenças mostram a forma geral de atuação humana. Correspondem a um componente pré-racional, isto é, são um tipo específico de ideia. Ortega y Gasset mostrou que nossa vida nelas se sustenta, pois elas são um tipo de ideia que habitamos. Logo, não é a análise lógica que, ordinariamente, guia o homem, mas aquelas ideias às quais o homem adere completamente e sem questionamento. As crenças formam o alicerce de nossa presença no mundo. Elas “constituem a base de nossa vida, o terreno sobre o qual ela acontece. Porque elas nos põem diante do que para nós é a realidade mesma. Toda nossa conduta, inclusive intelectual, depende de qual seja o sistema de nossas crenças autênticas. Nelas vivemos, nos movemos e somos” [1].

Muito interessante é que Ortega y Gasset observou que as crenças marcam as gerações. Assim, algumas crenças são compartilhadas pelos homens de certo tempo, cada geração as recebe por herança e enquanto elas não se colocam contra os desafios que a vida apresenta, elas permanecem. Porém, quando a vida se modifica e a crença já não corresponde à vivência geral das pessoas ela é colocada em dúvida e isso é suficiente para ela deixar de ser crença.

A psicanálise representou uma significativa contribuição para compreensão da conduta humana, ao abrir os olhos de filósofos como Ortega y Gasset para essa realidade, somos movidos por forças inconscientes, algumas num sistema, outras noutro. Essa descoberta feita com observações cuidadas, cujas evidências foram aceitas pela ciência psicológica.  A ciência usa a evidência empírica para testar esquemas de situação e teorias. Porém, é preciso distinguir as observações que nascem no espaço da ciência, das derivações que ela permite no espaço filosófico. Isso é diferente da leitura distorcida e fantasiosa dos fatos observados. Esse falseamento da ciência é uma forma de mentira que destrói as construções racionais do homem. Elas formam crenças ruins.

Assim, do mesmo modo que houve, atualmente, da parte de governantes, descrédito da vacina e insistência em procedimentos médicos não reconhecidos, em meio a maior pandemia da história do Brasil; no século passado Hitler propôs, como científica, sem evidência controlada, a crença na teoria da superioridade ariana.

A ciência passa por percalços assim, a distorção das evidências para se chegar aos resultados que se deseja. Porém, a ciência é uma forma de racionalidade que não comporta tais desvios e os anos e a comunidade científica se encarregam de reformar as mentiras que nascem de crenças ruins. Porém fica-nos a lição de que as boas práticas da ciência, que pareciam uma crença unanimidade entre os líderes das nações não o é. O que se passou entre nós é prova disso. Precisamos defender a ciência tanto das simplificações errôneas, quanto das generalizações deformantes. Isso é parte da nossa racionalidade que é fundamental para corrigir crenças ruins e entender a irracionalidade.

 


[1] ORTEGA Y GASSET, 1994, v. V, p. 387.

 

quinta-feira, 17 de junho de 2021

É POSSÍVEL UMA MORAL UNIVERSAL? Selvino Antonio Malfatti

 



Em abril terá lugar na Itália um encontro da União Europeia Budhista italiana.

É sempre um bom auguro uma aproximação de uma culturas multissecular oriental com outra ocidental. Isto vem ao encontro de uma hipótese: há um liame entre a cultura oriental e ocidental. 

Na cultura ocidental surgiram determinadas normas morais concretas e históricas deram origem a valores permanentes e universais, isto é, à ética. Podem ser encontrados vestígios destas normas em outras culturas, como na Ásia e na América. São exemplos da primeira o Código de Hamurabi, da Babilônia, e o código de Manu, da Índia. Trata-se de um conjunto de preceitos religiosos, morais e mesmo jurídicos os quais buscam a defesa da pessoa, do homem principalmente no que diz respeito a sua pessoa, vida e propriedade. Nessas culturas já emerge a famosa dita “regra de ouro” que estabelece a reciprocidade de direitos: não faças ao outro o que não queres que te façam. Esta regra consta em Confúcio, na China, e no poema Hindu Mahabarata. Já na américa os incas também tinham seus preceitos religiosos-sociais ao estabelecer que não se deve roubar - a ética da propriedade- não se deve mentir- a ética da verdade- e a proibição da preguiça - a ética do dever de subsistência através do trabalho.

E precisamente uma das culturas orientais que mais se aproxima do cristianismo e judaísmo ocidental é o Budismo.

Hinduísmo e Budismo. Era praticado por casta hereditária de letrados, que, embora não tivessem cargos, atuavam como conselheiros ritualistas e espirituais para indivíduos ou comunidades. Era uma sociedade de castas, as quais formavam uma ordem hierárquica, cujo topo era ocupado pelos brâmanes. Depois vinham os guerreiros, comerciantes, agricultores e por fim os trabalhadores. O intercâmbio entre as castas era proibido. Acreditavam na reencarnação e como todas as religiões orientais eram místicos. Os brâmanes constituíam um centro em torno do qual gravitava toda a organização social. Os brâmanes, educados nos Veda, era o estamento plenamente aceito. O budismo era constituído por monges contemplativos, mendicantes e errantes. Eram considerados membros integrais das comunidades religiosas. Os demais eram tidos como inferiores, objetos e não sujeitos de religiosidade.

Destacaríamos dois aspectos do budismo.

1.    As grandes Verdades:

  As Quatro Nobres Verdades:

- a existência do sofrimento universal,

- a causa do sofrimento,

- a possibilidade de extingui-lo,

- e o caminho para extingui-lo através da:

Reta Compreensão, Reto Propósito, Reta Palavra, Reta Ação, Retos Meios da Subsistência, Reto Esforço, Reta Atenção, Reta Meditação.

2. Os Mandamentos: (Entre parêntese colocamos o correspondente judaico-cristão).

1º Não mateis. Respeito a todo ser vivente. (5º)

2ºNão roubeis, não furteis. Deixai que cada qual goze do fruto de seu trabalho. (7º)

3ºEvitai toda impureza e sede castos em tudo. (6º)

4ºNão mintais. Dizei discretamente a verdade, com suavidade e prudência, de modo a não ofender. (8º)

 5ºNão murmureis, nem sede eco da maledicência. (8º)

Não jureis nem blasfemeis. Falai com decência e dignidade. (2º)

6ºNão percais o tempo em conversações ociosas. Falai coisas proveitosas ou calai.

7ºNão tenhais inveja nem cobiça. Alegrai-vos com a felicidade alheia. 

8ºPurificai vosso coração de toda malícia.

9ºNão tenhais ira nem rancor, nem ódio mesmo contra os que vos caluniem e vos queiram mal. Sede bondade e benevolência com os seres viventes.

10ºLibertai vossa mente da escravidão da ignorância, e aprendei a verdade para não cairdes no ceticismo nem no erro.

 Comparando com os Mandamentos Judaico-cristãos salta à vista as semelhança e algumas diferenças. Os Mandamentos budistas surgiram 600 anos depois de Cristo e o Decálogo há mais de 3500 anos.

 

“Os mandamentos são normas para as comunidades, o caminho moral e ético que deve ser seguido. O Cristianismo adotou os mesmos mandamentos do Judaísmo, e estes permanecem em incrível semelhança, havendo diferenças diminutas, como por exemplo, a citação do amor de Deus  no  Cristianismo  que  é  inexistente  no  Budismo;  e  a  abstenção  de drogas  e  álcool inexistente no Cristianismo. Embora o Budismo não coloque a devoção a Deus, evidencia a orientação de não desrespeitar as Divindades, quando exorta a não blasfemar. São Mandamentos   no   Budismo:   não   matar,   ser   compassivo,   dar   e   receber   com generosidade, abster-se de drogas e álcool, na adulterar, ser casto, não mentir, não caluniar, não jurar, não blasfemar, não cobiçar, não invejar, purificar o coração da ira e aprender a verdade (KHARISHNANDA, 1998, p.99-159). No Budismo  temos mandamentos de  conduta  que não  dizem respeito  a verdades universais, como por exemplo, abster-se de álcool. Ora, exagerar no álcool é sem dúvida um grande empecilho no desenvolvimento espiritual como em qualquer outro desenvolvimento da vida, tais como trabalho, família e convívio social. Mas o Budismo estabelece abstenção total 

devido os grandes prejuízos que provocam na mente para a prática da meditação, pois o álcool provoca agitação mental impedindo a concentração. Já no Cristianismo temos: Amar a Deus sobre todas as coisas, não matar, não roubar, não cometer adultério, não caluniar, não cobiçar a mulher do próximo, não tomar o nome de Deus em vão, honrar pai e mãe, não jurar falso testemunho, honrar o próximo (Dt 5,1-21).Todos os  mandamentos do  Cristianismo praticamente se aplicam  a verdades universais,  pois  o   objetivo  Cristão  é  a   simplificação   de  regras   para a   comunidade,  em oposição às numerosas regras do Judaísmo”

(UNIVERSIDADE DO VALE DO ACARAÚ - UVAFACULDADE DE EDUCAÇÃO TEOLÓGICA DO NORDESTE – FAETENCURSO DE LICENCIATURA PLENA EM CIÊNCIAS DA RELIGIÃOSEMELHANÇAS ENTRE O BUDISMO E O CRISTIANISMOContribuições Ecumênicas do Oriente para o OcidenteFrancisco Adalberto Alves SobreiraMaranguape/ CE20058, p. 41-41)

 

 

 

quinta-feira, 10 de junho de 2021

AMBIENTE FAMILAR E RELIGIOSO x ENSINO FORMAL ESCOLAR – DUAS CIDADANIAS. Selvino Antonio Malfatti.

 

            https://www.youtube.com/watch?v=eNAor3VITQg


Uma eficiente educação escolar, formal, é suficiente para garantir uma cidadania? Parece que não, ao menos para imigrantes italianos com cidadania de segunda geração. Esta, já em escolaridade regular italiana, mas vivendo num ambiente com língua e religião do seu ambiente familiar -país de origem- continuam pensar como a primeira geração, isto é, não italianos.

A hipótese de Ernesto Galli della Loggia, do jornal Corriere dela Sera, é de que a segunda geração, em que pese a educação formal do governo italiano, pensa e age, não como italianos, mas como imigrantes. O mesmo acontece com imigrantes israelitas e palestinos, conforme Gad Lerner, num artigo no Fact. Israelitas de segunda geração de imigrantes não reconhecem mais seus compatriotas e os chamam em árabe de: “yahoud kalabna ”,“ os judeus são os nossos cães ”»

Não foi o que aconteceu com os emigrantes italianos vindos para o Brasil no século XIX. Filhos de imigrantes, uns já na quarta geração, continuam mantendo as tradições italianas de seus trisavós ou mesmo tataravós ligadas à língua e religião e ao mesmo tempo se integraram à cidadania brasileira. Inclusive já na segunda geração foram mandados para Itália para combater contra seus próprios compatriotas.

Recordando-se ainda hoje das tribulações por que passaram seus antepassados. Cantam “Merica, Mérica... Abbiam dormito sul nudo terreno come le bestie andian riposar”. (Mérica, Mérica.. Dormimos no chão nu como animais que procuravam descanso.) Embora tenham se integrado à cultura brasileira, mantém a língua italiana, ainda falada no ambiente de seus antepassados. A religião se desprendeu nas novas gerações, mas a língua ainda continua viva.

A cultura italiana manteve as tradições trazidas da Itália, como hábitos culinários (panetone, pão de trigo, vinho, pizza, espaguete, risoto, polenta e técnicas agrícolas). Inicialmente havia :’noi” italiani e “i brasiliani. O significativo é que os brasileiros assimilaram os costumes e cultura italiana e vice versa.  

Além desses aspectos materiais os italianos deixaram o espírito como as danças, canções folclóricas, música, música tocada na sanfona, falar em voz alta, pronunciar todas as sílabas.

Aspectos da cultura italiana passaram para os costumes brasileiros e os brasileiros transmitiram componentes brasileiros para os italianos como na comida: feijão e arroz, churrasco, carreteiro, carne seca. 

Nos estados do sul do Brasil, onde a imigração italiana e de outras culturas se fizeram mais presentes, deixaram marcas indeléveis. Uma dessas foi o reconhecimento do Talian como patrimônio histórico e cultural desses estados. Este dialeto era falado entre os imigrantes italianos nos estados do sul e ainda se encontram núcleos que o falam, inclusive um município gaúcho o tem como língua oficial ao lado do português. É Bento Gonçalves, pioneiro dos assentamentos dos colonos italianos.

Outro município gaúcho que adota o Talian como língua co-oficial é Serafina Correa:

“– Decreto Nº 49, de 19 de julho de 2013. Dispõe sobre a utilização preferencial da língua co-oficial, o Talian, na semana do aniversário do município e dá outras providências.”

Não se negar a influência da língua e da religião no meio social das novas gerações, mas não se pode dizer que isto é generalizado. No Brasil, as novas gerações assimilaram plenamente a cultura local, inclusive a língua. E ninguém dos novos pretende mudar ou rejeita a cultura de seu novo país.

 

sexta-feira, 4 de junho de 2021

Boa, General. José Mauricio de Carvalho

 



Explicar o funcionamento do Estado de Direito e das instituições democráticas no Estado moderno não é fácil. Viver conforme regras estabelecidas em parlamentos livres, constituições respeitadas, exige maturidade das comunidades nacionais, além de uma precisa compreensão do que seja uma nação e das normas de moral social. Essa realidade está mais difícil nesses dias, quando o pensamento político é pouco estudado e a sociedade de massas ganha força. Assim, a passagem do General Eduardo Pazuello pelo Ministério da Saúde do atual governo ajuda a explicar questões importantes para o funcionamento do Estado de Direito.

A carreira militar proíbe a participação de militares da ativa em atos políticos e deve ser respeitada porque, sendo uma instituição permanente e de defesa do Estado, os membros das forças militares não devem se envolver em manifestações políticas. As forças militares servem ao país, nos termos postos pela Constituição, e possuem outras regras próprias da atividade. Assim, ao descumprir uma regra dessas, o militar que errou deve ser punido. E agora o mais importante. Pessoas erram, pessoas falham. Não é a instituição, essencial ao bom funcionamento do Estado, que deve ser fechada ou, nesse caso, as forças armadas dissolvidas porque um de seus membros não cumpriu as regras que as regem. Aplica-se esse princípio a casos semelhantes que envolvam outros funcionários públicos de instituições igualmente importantes: justiça, parlamento, universidades, polícia etc. O erro de um membro não justifica o desmonte da instituição.

 

O mencionado General ocupou o cargo de Ministro entorno a 9 meses. Tempo suficiente para ele demonstrar que, como gerente de saúde, é apenas um soldado de alta patente. Isso não depõe contra ele. Ninguém consegue ser muito bom em tudo, embora se espere que alguém culto tenha uma visão geral de mundo à altura de seu tempo. Por isso as ciências têm campos próprios, métodos singulares e as sociedades complexas exigem preparação específica para os postos de trabalho. Mas a participação do General como Ministro da Saúde ajuda a mostrar que os militares, se estão preparados para sua missão constitucional, não são especialistas em tudo e nem são eficientes para ocupar todos os cargos de Estado.

Na condição de Ministro de Estado da Saúde, o General nomeou o coronel da reserva George Divério para a Superintendência Estadual do Ministério no RJ e esse último contratou, num período de 2 dias, obras sem licitação, ou amparo legal, que somam cerca de R$ 28,8 milhões. A contratação é suspeita de fraude e corrupção, especialmente porque os contratados foram envolvidos, no passado, em outros malfeitos. São eles Fábio de Rezende Tonassi e Celso Fernandes de Mattos donos da Cefa-3 e forneceram material de informática para a Aeronáutica, em 2007. Uma investigação na ocasião mostrou que o material vendido não foi entregue, em uma fraude aos cofres públicos de mais de R$ 2 milhões. Por notar fortes indícios de irregularidades, a Advocacia-Geral da União não aprovou a dispensa de licitação para as obras e os contratos foram anulados. Ato contínuo, o Tribunal de Contas da União abriu um processo para investigar as irregularidades.  Isso revela que nem todos os militares são incorruptíveis ou, pelo menos, não estão preparados para ocupar certos cargos públicos. Não são eficientes para tudo.

Outro episódio pedagógico envolvendo o General Ministro foi o que se seguiu ao anúncio da compra de 46 milhões de doses da coronav na reunião que ele fez com os governadores em outubro de 2020. No dia seguinte, o Presidente da República desautorizou seu ministro a seguir com as tratativas com o Instituto Butantan e mandou cancelar a compra das 46 milhões de doses, embora o Ministro já tivesse anunciado a compra das vacinas em reunião com governadores. A razão nada científica do Presidente era que a vacina foi desenvolvida pelo Instituto Butantan, de São Paulo, em pareceria com a Sinovac (chinesa) e o Presidente é adversário político do governador paulista, João Doria (PSDB) e vem criticando a China por razões ideológicas. A resposta de Pazuello de que um manda e outro obedece depois da reprovação do Presidente à compra é a versão tupiniquim da desculpa dada pelos oficiais nazistas no tribunal de Nuremberg. Naquela ocasião foi descartada a desculpa de que se possa justificar atos reprováveis pelo cumprimento de ordens superiores. É que entre a ordem e a execução há a consciência pessoal como intermediária moral.

Assim, em sua rápida passagem pelo Ministério, o General nos permitiu mostrar coisas interessantes: pessoas erram, instituições de estado devem ficar a salvo desses erros; ninguém está isento de atos de corrupção, independente do posto que ocupa no Estado; ninguém, inclusive os militares, está preparado para todos os cargos do Estado e, a consciência moral é a base de nossas ações, especialmente as mais significativas e que envolvam a vida de muitas pessoas. Não se passa adiante a culpa por más escolhas. Fazer isso é ser conivente e cúmplice do mal.

 

 

 

 


 

sexta-feira, 28 de maio de 2021

TREMER É HUMANO. Selvino Antonio Malfatti.

 



O historiador Adriano Prosperi nos adverte: cuidado com o medo da liberdade, com a queda das ilusões e da necessidade de uma nova consciência do futuro. Isto consta em seu livro: Tremer é Humano.

Conforme ele duas grandes ilusões caíram com a pandemia da Covid-19. A primeira atinge a Humanidade como um todo e a segunda, a visão de mundo originária e desenvolvida no ocidente.

Por um lado, diga-se de passagem, nossa irremediável transitoriedade. Embora todos saibamos que vamos ao pó ainda assim teimamos numa infundada crença da imortalidade. O próprio apóstolo Paulo reconhece a chegada do fim. “é chegado o tempo de minha partida”. Mas a pergunta que teima em insistir: donde vem a ideia da imortalidade? Parece que o homem quer ser o que não é. Ou é, mas tem dúvidas.

Aquilo que o ser humano diz de si mesmo é o que ele não é e quer ser, mas aquilo que diz que não é, é aquilo, mas não quer ser. Com efeito, diz de si coisas maravilhosas, no entanto não corresponde à realidade. Proclama que se guia pela razão, que é livre e co-partícipe da divindade. Na verdade ele sente que não é plenamente isto, mas almeja tornar-se e agir racionalmente, livremente e incorruptivelmente. Quando nega ser cruel, mentiroso, devasso, corrupto é porque não quer ser isto, mas dobra-se à realidade de constatar que é isto e por isso esforça-se para desmentir a realidade. Não é outro o pensamento de Prosperi quando afirma: “a realidade da vida repousa no engano de uma persuasão instintiva e enraizada da própria imortalidade”. Seria mesmo uma persuasão instintiva? Por que somente o homem a possui e por que a possui?

Se o pensamento da morte como fim de tudo impregnasse nossa mente dia e noite, qual o sentido para agir, para nos alegrarmos, assumir uma causa nobre, projetar o futuro?

É por isso que a pandemia ao escancarar a precariedade da existência de forma tão crua nos deixa inativos e trêmulos perante esta realidade.

Outra decepção cruel é a difusão da notícia de que o vírus foi superado, que está batendo em retirada e que se pode cantar VITÓRIA.  Mas, para decepção, voltou. Pensava-se: como uma doença tão grotesca se instalou em países avançados, europeus, nórdicos?  Se fosse o Terceiro Mundo, na África ou Ásia, vá la! Mas na Europa?

Prosperi chama a atenção para uma realidade que queremos recusar: somos apenas mais um componente desta história natural, hóspedes majoritários, mas não necessários. E dispensáveis, senão compulsoriamente expulsáveis ou descartáveis. Somos incapazes de superar um vírus biológico.

O homem precisa voltar-se para o elo indissociável da natureza, da qual faz parte e centrar suas reflexões sobre ele. É preciso reestudar as reencenações das pragas do passado. Conforme Baruch Spinoza é preciso cortar o “o nó que amarra o medo e a esperança”, que fundamenta o apelo do sobrenatural, para confiar na razão a maneira de descobrir a “fonte da felicidade”.

Conforme Prosperi, o medo matou a confiança, transformando o relacionamento com o outro em uma ameaça a ser afastada. Até quando esta experiência persistirá no nosso futuro? Há muito a temer por que o medo insidioso está se avolumando dentro de nós...

 

 

 

FRANCISMAR PRESTES LEAL

Médico na linha de frente da UTI no tratamento da Covid- Maringa

Pulmão branco. Não há mais trocas gasosas decentes. A Covid está nos vencendo no cansaço, literalmente. Mesmo quem não foi infectado está cansado. Quem foi, ou não respira mais ou respira mal. Que doença... não poupa ninguém, absolutamente ninguém. Ainda bem que a maioria vai bem, mas não há como saber quem, de antemão. Atualmente, a maior parte dos casos críticos de Covid é composta por adultos jovens, muitos sem comorbidades, previamente saudáveis. Por alguma razão, muito provavelmente pela vacinação, os idosos estão internando e morrendo menos dessa doença. “Jovem e saudável não morre de Covid!”, chegamos a ouvir. Mentira, mais uma “fake new”, mais uma tola negação. Pulmão branco, mais um. O caso, a imagem, em questão é de um jovem adulto. Sem doenças, musculoso, atlético, aparentemente imbatível. Ao vê-lo chegar à nossa UTI, pensei em um gladiador romano, tal a imponência física daquele homem. Seu braço era maior do que minha perna, do que minha cabeça, para se ter uma ideia. Mas o olhar do gigante era o mesmo de todos que entram conscientes na UTI: o de uma criança assustada, com medo. No fundo, independentemente do quão grande aparentamos, somos todos pequenas crianças. “Não vai precisar intubar, né, doutor?”, ele disse, aos poucos, com a respiração e o coração disparados. “Tomei o kit certinho, no começo, não entendo!”, suspirou. Mais um que protelou a busca de ajuda adequada, achando que estava se curando, que estaria protegido da forma grave da Covid por determinados remédios. “Não queria vir para o hospital porque não quero ser intubado, doutor!”. Já vi esse filme, inclusive na minha família - eu pensei. Frequência respiratória alta, saturação baixa (mesmo com bastante oxigênio), arritmia cardíaca com elevada resposta ventricular. Alguns componentes do “kit”, principalmente se tomados juntos, podem causar esse tipo de arritmia. Pulmão branco, extremidades azuis. A cabeça e as mãos pareciam balões azuis. “Estou com sono, doutor”, e fechou os olhos. A intubação foi extremamente difícil: a anatomia do gigante não permitia ver suas cordas vocais. Para tentar salvar temos que calar, atravessando as cordas da voz da traqueia. “Doutor, não consigo pegar a pressão!”, gritou a enfermeira. Choque. Nas infecções graves, a pressão pode desabar. Tentamos resgatar, com “volume e drogas”, mas nem sempre conseguimos. Choque refratário. Caos, correria, procedimentos, gritos... “Parou! Assistolia!”. Comprimir o coração de um gladiador não é fácil. Uma batalha homérica. Porém, toda guerra tem um fim, ganhando ou perdendo. Perdemos, de coração apertado, lutando bravamente ao lado de um enorme guerreiro. A vida não é uma linha reta, que grita no monitor. Não há garantias nas curvas. A melhor forma de não morrermos de uma doença é não ter essa doença, evitando-a ou vacinando-se, que são as melhores “armas” que temos, mesmo que imperfeitas. “Descanse, lutador”. Chego a fantasiar a sua chegada ovacionada no coliseu do céu. Aos lutadores da terra fica o pedido repetido: cuidem-se. De azul e branco, bastam o céu e as nuvens. Que Deus nos ajude

 

 

sexta-feira, 21 de maio de 2021

O SENTIDO DA VIDA. Selvino Antonio Malfatti

 





Se tivesse um familiar no sofrimento extremo, que nada o aliviasse, gritando de dor dia e noite, e implorasse para por fim através da morte, o que faria? Pediria ao médico para atender ao desesperado ou aconselharia suportar? 

Coloquemos frente à frente do debate um arcebispo da Igreja católica e um doutor sociólogo de uma universidade.

O arcebispo – Dom Vicenzo Paglia - se auto- define como “um pequeno crente” e Luigi Manconi, o sociólogo, ele se intitula como um “pouco crente”, Ambos discutem o tema comum: o dom da vida. Mas o pano de fundo são as questões vitais do cidadão contemporâneo – liberdade, igualdade, justiça e fraternidade – na obra conjunta: O Sentido da Vida.

O formato humano que a obra assumiu foi não de ataque mútuo, nem de concordância subserviente, mas cada um tentando entender as razões do outro. Com isso assumiu um caráter cooperativo no sentido de empenhar-se na construção de algo em conjunto, uma aliança entre religião e ciência. Daí surge um sentido de comunidade e com ela um novo sentido da vida. O alicerce que amalgamou foi o respeito e a valorização das diferenças. Não foi apenas a propalação de boas intenções, mas um alicerce da vida civil. Mormente agora que a sociedade se encontra fissurada pela pandemia, ferida esta, de momento, sem perspectiva de cura. O que advirá ninguém ainda sabe, mas todos percebem que cada indivíduo está mudando e consequentemente o todo também mudará.

Diz o arcebispo: “somos dois mendigos no limiar do mistério, a caminho de tentar apreender o sentido da existência. Não temos vida no bolso. Supera-nos e por isso tentamos entender seu sentido”.

Já o sociologia contra argumenta com o princípio da esperança e evoca a formação de uma “consciência antecipadora”, como propõe Ernst Bloch. Inclusive defende um pessimismo da razão no sentido avançar impávido na defesa das liberdades e direitos pessoais. Paglia se contrapõe à tendência individualista de uma sociedades presa aos desejos, pois “a vida de cada um de nós depende da dos outros”, citando Lorenzo Milani.

Após estes momentos de concessões mútuas ambos deixam de lado o dueto e passam a duelar-se. Para Marconi, o arcebispo, a vida é uma dádiva da qual não podemos nos desfazer. Defende que, concordando com Vittorio Possenti, a vida é uma dadiva singular, cuja propriedade fica sempre retida com o doador. “Recebemos a vida como um presente, mas não podemos  para fazer o que queremos com ela."

O sociólogo Luigi Manconi, ex-parlamentar e professor de sociologia dos Fenômenos Políticos, contra- argumenta dizendo que  “Não nego o direito à autodeterminação, mas colocaria a liberdade de decisão no quadro de um amor mútuo que deve presidir ao encontro”. Minha ideia de eutanásia só vem por último. Só depois de se esgotar toda prática de acompanhamento como assistência material e conforto espiritual. Fala não no direito de eutanásia, mas da liberdade negativa, isto é, livrar-se da “dor insuportável”. Não nega que o princípio da autodeterminação: "pode traduzir-se numa espécie de niilismo egótico".

Para ele a eutanásia seria abrir a porta para absolver quem tira a vida de alguém, ou considerar alguém indigno de viver e por isso seria permitido tirar a vida. E qual seria uma vida digna e uma indigna? Nega que a doutrina cristã considera a dor um valor. Para ele, como para Claudel: «Deus não veio explicar o sofrimento; ele veio para enchê-lo com a sua presença ».  

Há temas que ainda ficam em aberto, conforme os autores. Manconi cita a lei do Bioensaio ou as Disposições do Tratamento Antecipado, fruto de uma discussão aberta, livre de ideologia, mas infelizmente pouco conhecida.

Por sua vez, Paglia preocupa-se com o avanço da ideia que legitima o suicídio. Ao comentar o suicídio de um amigo conclui: a dor física aparece mais importante da dor moral que causa ao amigo.

Contudo, permanece a questão de: o que é mais importante? A dor física ou a dor moral? Para quem está estremecendo de dor física precisa livrar-se dela, ela é mais importante, para quem o livra pode ter que carregar o remorso pela vida toda pela dor moral causada.

sexta-feira, 14 de maio de 2021

A FAMÍLIA. Selvino Antonio Malfatti

 





A ONU instituiu o dia 15 de maio como o Dia Internacional da Família.

Afinal, o que é a família? Radicalmente a família pode ser entendida como o núcleo: pai, mãe e irmãos. Se aplicarmos o método de Aristóteles para definirmos a família chegaremos à seguinte conclusão:

Na Metafísica, Aristóteles define as quatro causas das coisas.

Causa formal — é a forma da coisa (um objeto define sua essência pela sua forma).

Causa material — é a matéria de que uma coisa é feita (a matéria na qual consiste o objeto).

Causa eficiente — é a origem da coisa (aquilo ou aquele que tornou possível o objeto).

Causa final — é a razão de algo existir (a finalidade do objeto).

1.    Material. É daquilo que constitui a família. Pode ser o instinto, afeto, a lei. A mais comum parece ser instintiva e afetiva. A instintiva baseia-se na atração sexual. Sexos masculino e feminino buscam-se para complementarem-se.

2.    Final. A natureza busca cumprir seu fim. O fim da família é gerar a continuidade da espécie humana. Isto acontece pela união entre elementos masculinos e femininos, dando origem a outro ser humano. Com isto se atinge a finalidade.

3.    Formal. A forma como se constitui a família varia no tempo e no espaço. Desde os relacionamentos abertos (nem tanto) até os mais reclusos.

4.    Eficiente. O autor constitutivo da família são os autores da família. Aqui também o leque se abre quase ao infinito, dependendo do espaço e tempo. Na história  a família nas da vontade da religião – igreja -, da lei- aspecto legal, da comunidade – casamento. Sempre mais o elemento cultural assume a importância central transferindo a fisiologia para cultura.

Da conjunção destas 4 causas nasce a família com relações afetivas, fisiológicas, culturais e legais.Se apelarmos para o ideal tipo weberiano da família encontramos os elementos: sexo, filhos, relacionamento, gênero. Cada um deles assume culturalmente formas diversas

Em algumas culturas a família abre seu leque para tios, avós, primos. Atualmente não conceito de família não abrange m grupo restrito, mas também não e tão extensa como a família patriarcal que incluía até os escravos.

 

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