sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

ENCONTRO DE NAPOLI SOBRE OS DIREITOS DO HOMEM. Selvino Antonio Malfatti



















Teve lugar em Napoli, dia nove e dez de dezembro de 2015, um Encontro sobre os Direitos do Homem, confrontando-se o relativismo local e o universalismo absoluto. O referido evento foi patrocinado pelo Instituto para os estudos filosóficos do Centro Gaetano Salvemini. Algumas questões foram colocadas como: será que se pode falar que toda pessoa em qualquer parte da terra e em todo momento deve gozar dos mesmos direitos? Na verdade os direitos universais são patrimônio da cultura ocidental. E como de fato funciona em cada Estado estes direitos? Estas são as perguntas para justificar o caráter relativista e universal destes direitos, no dilema que se estabelece concretamente entre cultura e política ou, uma coisa é o meio social e outro a engenharia política de cada Estado.



Depois dos atentados de Paris e São Bernardino, que reduziram os direitos individuais em razão da segurança, agudizaram a questão e provocaram novos debates, os quais mereceram mais aprofundamento diante da ameaça do Terror Global.
A questão dos direitos do homem não nasceu pronta, Foi uma conquista ética de milhares de anos que atravessou as mais diversas culturas, mormente as ocidentais.
Um conjunto de direitos afetos à individualidade do homem, também denominados direitos do homem, evidenciou-se como consciência deles, nas diversas experiências do Ocidente. Através de contínuas assimilações de legados de povos diversos e em tempos históricos diferentes, a consciência dos Direitos do Homem constitui hoje uma confluência cultural fazendo parte de valores da pessoa humana. Atualmente estes direitos ocupam um lugar privilegiado entre as instituições políticas, pois foram considerados pela Organização das Nações Unidas um Patrimônio da Humanidade.
No entanto, atualmente há três momentos marcantes quanto a estes direitos. Trata-se da institucionalização na Constituição da Revolução Americana, na Revolução Francesa e na Declaração da Organização das Nações Unidas.

1.    Revolução Americana
Os Representantes das 13 colônias, nos Estados Unidos, se reuniram em Filadélfia em 4 de junho de 1776, em Congresso Continental e anunciam a famosa Declaração de Independência. Nela já se expressariam os princípios filosóficos que iriam nortear a futura Constituição. Primeiramente se estabelecem os princípios dos Direitos do Homem, tais como a igualdade, a vida, a liberdade e a buscada felicidade. Estes direitos são considerados inalienáveis e originários do nascimento como ser humano. Estes princípios são "self-evidenf'. No dizer de Jefferson a Declaração não inventava nada, seguindo o senso comum, isto é, o consentimento. Mas ao citar expressamente os ensinamentos de Aristóteles, Cícero, Locke e Sidney, identificou-se com uma filosofia que considerava os Direitos do Homem provenientes da lei natural.
Na questão da organização do Estado, surgiram duas tendências: uma queria praticamente uma soberania para cada ex-colônia, eram os anti-federatlstas, e outra queria uma ampla autonomia para os estados, mas sem a soberania. Eram os federalistas. Na Convenção encarregada de elaborar uma Constituição, de 17 de setembro de 1787, os delegados houveram por bem silenciar sobre a questão dos Direitos do Homem, merecendo diversas críticas posteriores. No entanto, em 15 de Dezembro de 1791, 10 artigos são aditados à Constituição, devidamente ratificados pelos legislativos estaduais.
O princípio que norteou a Carta de Direitos foi o jusnaturalismo. Estabeleceu-se que, para os Estados, "tudo o que não está reservado, está concedido", mas para o Governo geral, "tudo o que não está concedido, está reservado". Daí que a Carta, em seus 10 artigos, sintetiza os principais direitos do homem, perante o governo central. O Congresso, não pode fazer leis sobre religião e comércio, não pode restringir a liberdade de imprensa e palavra. Proibir o povo de reunir-se. O povo pode possuir e portar armas. Proíbe-se o alojamento de soldados em casas, sem o consentimento do proprietário. Ao povo é garantido o direito de integridade pessoal, patrimônio e documentação. Os mandatos de busca e apreensão devem ter descrições pormenorizadas de locais, pessoas e objetos. Todo processo que vise a vida, propriedade e liberdade deve ter amparo legal, sem falar no direito de defesa e de julgamento público e imparcial, incidindo somente sobre crimes identificados. Em processos que exceda vinte dólares, após julgado por um júri, não pode ser julgado por outro tribunal, senão de acordo com lei comum. Não haverá fianças e multas excessivas, ou castigos cruéis e extraordinários. A enumeração destes direitos não elimina outros que estão na posse do povo. Os poderes que não foram delegados ao governo central, nem proibidos aos estados, permanecem nos estados e no povo.

2.    Revolução Francesa
Na noite de 4 de agosto de 1789, a Assembléia na França aboliu os dízimos, as obrigações feudais dos camponeses, a servidão foi extinta, caíram os privilégios de caça dos nobres, a isenção de impostos, e os monopólios. Este foi o primeiro passo, fazer tabula rasa de todas as classes e nível social, igualando a todos perante a lei. Após serem removidos os entulhos inicia a obra de reconstrução.
De imediato faz-se a Declaração dos Direitos do Homem como precaução contra a antiga ordem. A Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão traz um objetivo universalista. A Carta americana referia-se somente a seus habitantes. A francesa objetiva todo o homem, primeiramente porque a fundamentação dos Direitos do Homem inspirou-se na razão. E em segundo lugar, iniciava-se uma consciência da universalidade desses direitos. A Assembléia já estava legislando para toda a humanidade.
Embora fale em "direitos naturais", na verdade são abstrações de situações concretas. Quem descobriu os direitos naturais foi a razão, sendo eles válidos uniformemente para todos os homens, de todos os tempos e em qualquer situação. Os direitos consagrados na Declaração são de liberdade, igualdade, propriedade, segurança e resistência à opressão. A soberania, de acordo com a doutrina contratualista, é depositada na nação. Além disso, todos têm direito á pública e ampla defesa quando acusados. É garantida a liberdade de expressão, podendo para tanto, falar, escrever e imprimir suas idéias. É instituída uma força pública para garantir os direitos do homem. Este artigo evidencia o caráter estatal e convencionalista, dos direitos presentes na revolução francesa. A defesa dos direitos necessita de uma força, quando, a ideia de direitos naturais é deter a força perante estes direitos. Com isso o poder se arroga o árbitro dos direitos, ideia estranha à doutrina jusnaturalista.

3.    A Declaração Universal dos Direitos do Homem
A Declaração Universal dos Direitos do Homem é a suprema consciência alcançada até agora. Nela estão presentes tanto os direitos provenientes da razão, os convencionalistas, como os naturais, jusnaturalista. O caráter racionalista dos Direitos do Homem parece predominar na Carta das Nações Unidas em 1948, através da Declaração Universal dos Direitos do Homem. No entanto, todos os direitos do jusnaturalismo também estão presentes e dá a entender que estes direitos estão acima dos Estados e governos, os quais devem reconhecê-los. Possui um Preâmbulo e 30 artigos. No primeiro, através dos "considerandos", se estabelecem os grandes princípios da convivência humana, tais como a dignidade humana, o ideal democrático, resistência à opressão e outros. A Carta divide os direitos em individuais e sociais. Entre os primeiros constam os quatro grandes direitos do homem: vida, liberdade, igualdade e propriedade. Mas outros foram acrescidos como nacionalidade, asilo, intimidade, família, ir e vir, participação política e outros. Quanto aos segundos consta a segurança, trabalho, seguridade, educação e cultura. Já o artigo 29, estabelece os deveres perante a comunidade e finalmente no artigo 30, determina que a interpretação seja sempre em benefício da verdade.

quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

Ano novo: entre o tempo cíclico e a progressividade. José Mauricio de Carvalho - Prof. do IPTAN

Estamos, conforme a tradição, nos aproximando do ano de 2016 contados do nascimento de Jesus de Nazaré, reconhecido como o Cristo. Observe-se que não sabemos a ocasião exata do seu nascimento, 25 de dezembro foi uma data simbólica escolhida pela Igreja Romana, no século IV, para sobrepor-se às festividades do Deus Sol cultuado entre os romanos. Igualmente não sabemos se o nascimento de Cristo se deu exatamente no ano que a tradição estabeleceu. Esta data foi inicialmente calculada por Dionísio, o pequeno, com base em outras datas de referência do Império Romano (fundação de Roma, governo de imperadores, etc.). Os cálculos iniciais de Dionísio estavam errados e foram corrigidos posteriormente. Chegou-se então ao ano aproximado do nascimento de Cristo, tomando-se como parâmetro os governantes do Império Romano mencionados nos evangelhos. Com base nesses cálculos Cristo deve ter nascido entre três e seis anos antes da data estabelecida. Assim estaríamos, de fato, um pouco além dos 2016 cuja entrada vamos comemorar, mas isso importa pouco para o que destacamos, o olhar cíclico do tempo.
Para esse olhar cíclico, o solstício de Inverno (22 de dezembro no hemisfério norte) tomado como referência para o nascimento de Cristo e que era para muitos povos antigos símbolo do recomeço e do renascimento, significa uma nova era na história humana. A festa do solstício de inverno, desde os tempos da antiga Babilônia, também representava na consciência daqueles povos a ideia de que as coisas se renovam de tempos em tempos. Assim, quando comemoramos a entrada de 2016 estamos marcando um novo ciclo, um recomeço para nossas vidas. Essa ideia de renovação cumpre um papel psicológico importante num ser cuja experiência de viver é marcada pelos limites e pela dor das perdas. De fato, a nossa existência é transpassada pelo sofrimento, pela morte e pela culpa, realidades que fez os filósofos existencialistas falarem de um mundo quebrado para traduzir os limites e o fato de que as coisas em nossa existência não se encaixam bem. Na passagem para o ano de 2016 temos a oportunidade de lidar melhor com o que não conseguimos mudar e de mudar o que podemos para viver ainda melhor. Viver mais de acordo conosco, com nossas possibilidades, com aquilo que desejaríamos para nós, é saber a que se ater e a dedicar a vida.
Embora a ideia de renovação acompanhe a vida, pela possibilidade de refazer para melhor, as escolhas que temos que fazer, o próprio cristianismo que popularizou a ideia de renovação periódica do viver, também difundiu a ideia de tempo como um ir ao futuro. Este tempo por vir é o tempo em que o Senhor Jesus, que vive na Glória, estenderá seu Reino por toda a terra. E essa ideia de uma vida que no presente vive com os olhos no futuro é aquela que mais precisamos cultivar. Podemos sempre procurar ser melhor e recomeçar quando as coisas não vão bem, não é preciso datas especiais, temos o desafio de construir uma vida mais de acordo conosco, pois o que deve guiar nossa existência é um sentido de vida construído individualmente na meditação diária e, se possível, no autoconhecimento vindo da psicoterapia. Estar em paz conosco pelo caminho que escolhemos, superar as culpas pelo que não podemos mudar e não incorrer em novos erros é uma boa direção a seguir. Se conseguirmos tirar de nossa existência o melhor que ela pode dar, teremos um ano novo melhor do que aquele que passou e ajudaremos a sociedade a ser melhor do que foi. Esse é o desafio de viver quando olhamos a vida como um caminhar para o futuro, a vida é direção a um sentido. O modo de existir implica em não só saber enfrentar o que nos acontece com atitudes e valores que se formam na esfera da moralidade, mas também em ter um sentido de futuro pelo exercício consciente da liberdade.



quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

NATAL - NASCIMENTO DE JESUS.






https://letras.mus.br/andrea-bocelli/1610268/

                           Entrada da Igreja dos Anjos - Belém


Também José subiu da Galileia, da cidade de Nazaré, à Judeia, à Cidade de Davi, chamada Belém, porque era da casa e família de Davi,
para se alistar com a sua esposa Maria, que estava grávida.
Estando eles ali, completaram-se os dias dela.
E deu à luz seu filho primogênito, e, envolvendo-o em faixas, reclinou-o num presépio; porque não havia lugar para eles na hospedaria.
Havia nos arredores uns pastores, que vigiavam e guardavam seu rebanho nos campos durante as vigílias da noite.
Um anjo do Senhor apareceu-lhes e a glória do Senhor refulgiu ao redor deles, e tiveram grande temor.
O anjo disse-lhes: Não temais, eis que vos anuncio uma boa nova que será alegria para todo o povo:
hoje vos nasceu na Cidade de Davi um Salvador, que é o Cristo Senhor.
Isto vos servirá de sinal: achareis um recém-nascido envolto em faixas e posto numa manjedoura.
E subitamente ao anjo se juntou uma multidão do exército celeste, que louvava a Deus e dizia:
Glória a Deus no mais alto dos céus e na terra paz aos homens, objetos da benevolência {divina}. (Lucas 2:4-14)


sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

O SACRO EM RENÉ GIRARD. Selvino Antonio Malfatti.




René Girard nasceu em Avignon em 1823 e falece nos Estados Unidos em 2015.  Inicia sua carreira acadêmica como paleógrafo de inspiração medieval analisando a vida privada do século XV, em torno de 1923, num ambiente de Paris da Liberação. Logo, porém, muda-se para os Estados Unidos onde encontra acolhimento cultural como professor de literatura francesa e constitui uma família.
O arcabouço de seu pensamento reside na teoria do mimetismo, origem da violência. Esta faz um duplo trabalho: estrutura e desestrutura as sociedades. Por sua vez, esta dinâmica fundamenta o sentimento religioso mitológico.
A tese, que é pano de fundo de seu pensamento, é a descoberta do desejo mimético. É desejar o que o outro deseja de uma forma triangular entre o objeto do desejo, o outro desejoso e o sujeito desejoso. Há uma convergência de desejos e isto provoca a violência. Para superá-la é preciso encontrar uma “vítima”, um bode expiatório que assuma a culpa da violência de todos e assim abre caminho para a convivência pacífica. No entanto, este processo não se extingue, mas cada vez se renova e por isso sempre é necessário uma nova vítima para sacrificá-la em nome de todos.
De posse desse arcabouço teórico inicia a elaboração da gênese da religião, iniciando com a mitologia. Depara-se como ato inicial o ocultamento que disfarça a violência. O sacro absorve a violência através do sacrifício. Desta forma o “bode expiatório” imanta os desejos de violência, concentrado nele como único culpado e por isso possibilita a convivência. Temos então o mimetismo quando todos desejam a paz, cada um renunciando a violência, depositando-a no “bode expiatório” e o sacrificando.
Para Girard no novo testamento há uma nova forma de “vítima”. Aquele Jesus histórico se transmuda na vítima que assume a unanimidade da violência para depositá-la na sua pessoa e possibilitar viver em paz. Jesus não só substitui o bode expiatório como o neutraliza. A violência não é mais física, mas simbólica. Não há necessidade de um sacrifício cruento físico, mas de fé.
Girard se dá conta que de que o “Cordeiro de Deus”, vítima, emerge de sua passividade reguladora e o homem percebe a transformação da violência, o religioso a própria imanência e Deus a transcendência. O Jesus de Nazaré é a “vítima” perfeita e inocente que coloca a marca de uma história de responsabilidade. Diante disso o homem reencaminha a violência, o divino se torna imanente e junto com Deus atinge a transcendência.
Não por nada que o cristianismo é a única religião que previu seu próprio fim como está escrito no Apocalipse.  Neste a palavra de Deus é enérgica, repudia os erros e as culpas humanas as quais no fundo são violências. Na mesma proporção que persistimos nos erros a voz de Deus se torna mais forte, emersa da devastação da violência. Esta tem por fundamento nossas diferenças quando de fato a ênfase deveria ser na identidade. A diferença, na verdade, é o sacro corrompido, representado na figura de Satanás, causa de todos os males e de todos os extremismos. Este procura sempre o conforto e quem o segue em vez de buscar o melhor, opta pelo pior. 
É considerado o Darwin das ciências humanas.
Algumas obras:

Mensonge romantique et vérité romanesque (1961)
Dostoïevski : du double à l'unité (1963)
La Violence et le sacré (1972)
Critiques dans un souterrain (1976)
Des choses cachées depuis la fondation du monde (1978
Le Bouc émissaire (1982)
La Route antique des hommes pervers (1985)
Shakespeare : les feux de l'envie (1990)
Quand ces choses commenceront (1994)
Je vois Satan tomber comme l'éclair (1999)
Celui par qui le scandale arrive (2001)
La voix méconnue du réel: Une théorie des mythes archaïques et modernes
Le sacrifice (2003
Les origines de la culture (2004
Anorexie et désir mimétique (2008).
Mimesis and Theory: Essays on Literature and Criticism, 1953-2005.
La Conversion de l'art. (2008)




sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

Pessoa Humana, um caminho para a convergência humana no novo milênio. José Mauricio de Carvalho




Quando o ISIS (Islamic State of Iraq and ash-Sham) iniciou suas atividades em 2003, o novo milênio estava nascendo em meio a sonhos de paz, deixando para traz um século com duas Guerras Mundiais e o genocídio de seis milhões de judeus. E desde então as bombas do ISIS explodindo nas cidades ocidentais, os assassinatos e sequestros de pessoas de outra fé, as decapitações de ocidentais, tornaram o grupo temido e o século XXI um novo tempo de brutalidade. Não há novidade na brutalidade, o homem sempre foi um animal perigoso. O ISIS tem contribuído, com louvor, para manter viva a consciência dessa brutalidade, demonstrando com o uso da violência extrema e da irracionalidade completa a face mais perversa de nossa animalidade. E a disposição cega para a guerra e o sacrifício demonstrada por seus membros tem na raiz a interpretação radical da lei religiosa islâmica e o desconhecimento da noção de pessoa humana. E não parece que as ações do grupo consigam mais do que promover o medo e o pavor da maioria do povo da região. Diante dos atos criminosos dessa minoria fanática, as pessoas da região fogem apavoradas do regime de terror, lançando-se ao mar bravio em embarcações sem segurança. Preferem a morte no mar, os desafios de uma vida de miséria na Europa, colocam em risco a segurança de mulheres e filhos para não ter de suportar a tirania de uma vida na escravidão. É esse Deus e essa fé que oferecem aos homens e mulheres da região. É essa a vida que consideram seja boa.
 Sem reconhecer a dignidade da pessoa humana, eles tratam os homens como fieis e infiéis, ficando o segundo grupo subtraído de qualquer respeito humano. Aliás, a forma como aplicam a lei religiosa aos fieis também não revela respeito. Ao lado de interesses políticos  anacrônicos (implantar um califado), esses homens veiculam a imagem de um Deus rigoroso e perverso, que submete os fieis ao mais restrito controle, ministra punições severas ante o descumprimento das regras religiosas.
Além de não demonstrarem qualquer interesse por estudos teológicos que acenam para um Deus misericordioso, o diferencial do grupo é o completo desrespeito à condição humana. Essa realidade parece o aspecto mais importante que vivem, o completo desrespeito à dignidade humana que foi reconhecida nos direitos humanos e ainda antes na consciência ética do ocidente. Ações como as conduzidas pelo ISIS demonstram que eles estão fora do consenso que levou à criação dos direitos humanos, mas especialmente que desconhecem o caminho percorrido pela filosofia ocidental nos últimos quinhentos anos. E reforçam a consciência do que a ignorância e ausência de reflexão filosófica podem provocar. Sem Filosofia não se reconhece o valor do esforço para a perfeição, não se entende o sentido da liberdade com responsabilidade e que não se toca no essencial: a humanidade do outro pede para tratá-lo com o mesmo respeito com que desejaríamos ser tratados. A situação é ainda mais grave para quem diz ter uma fé que nos identifica como criaturas do mesmo Deus, qualquer que seja o nome pelo qual o cultuemos.
A brutalidade e a ignorância são contrárias à condição humana, humanidade significa dignidade ou valor. A realidade humana veiculada pelo cristianismo e difundida entre os povos europeus na Idade Média acabaram reconhecidos pela consciência humana como conquistas importantes. Pensadores como Kant e a maioria dos filósofos ocidentais reconheceram o caráter racional da moralidade cristã e do valor da pessoa.

O desconhecimento dessa tradição provoca um grande mal ao convívio humano no momento em que a humanidade caminha para construir relações globais na economia, desenvolve modos parecidos de vida e estabelece novos padrões de convivência. Nesse novo milênio nada parece mais valioso do que ensinar que a raiz da moralidade é o valor da pessoa humana. Só as bombas não acabarão com o ISIS é necessário mostrar porque eles merecem ser combatidos. Estamos diante de desafio de popularizar a Filosofia e a racionalidade já que temos lições diárias de para onde leva a ignorância e a irreflexão.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

Uma Década com a Chanceler Frau Angela Merkel. Selvino Antonio Malfatti.


Em 2005 toma posse pela primeira vez como chefe de governo, no cargo de chanceler – na Alemanha equivalente a primeiro ministro - a senhora Angela Merkel, tendo como legado nada mais e nada menos do que Konrad Adenauer. A partir de então, por dez anos consecutivos timoneia os rumos da política alemã com desdobramentos na Europa, no ocidente e outras partes do mundo. Neste primeiro decênio, em meio a crises de todo gênero ela conseguiu colocar uma Alemanha destroçada pela guerra como líder do Velho Continente.
Com efeito, após o fim da II Grande Guerra a Alemanha foi dividida em oriental e ocidental em 1949, porém, pouco a pouco, cada uma delas iniciou uma vida política própria. A oriental praticamente se tornou satélite da URSS, subordinando-se às decisões superiores de Moscou. A ocidental, paulatinamente, retoma a vida autônoma. Nesse contexto, o renascimento dos partidos políticos, na ocidental, ocorreu com as primeiras eleições administrativas em 1946, quando se apresentaram à disputa os democratas cristãos, os sociais democratas e os liberais, permanecendo esses por quase meio século na arena política. Na zona dominada pelos soviéticos, os sociais democratas e os comunistas são obrigados a se fundirem, dificultando a competição para os demais partidos, como os democratas cristãos.
Em 14 de agosto de 1949, realizam-se as eleições na República Federal da Alemanha que dão a vitória aos democratas cristãos sob a liderança de Konrad Adenauer, o qual, em setembro, forma o primeiro gabinete de centro-direita, com os liberais e outros partidos conservadores. Adenauer escolhe para ministro Ludwig Erhard que leva adiante uma proposta político-econômica da economia social de mercado.
Com o democrata cristão Adenauer no governo, no cargo de chanceler, e Erhard como ministro da economia, a Alemanha reingressa no concerto das nações democráticas ocidentais. A União Cristã Social – CDU e CSU – permaneceu hegemônica até 1966, quando se inaugura um governo de coalizão com os sociais democratas.
Do mesmo modo que em outros países da Europa, a partir da década de sessenta, começa o período de decréscimo em termos eleitorais dos democratas cristãos, embora com momentos de recuperação.  A queda maior, porém, ocorrerá a partir de 1998, com a vitória do partido social-democrático e de seu candidato Gerhard Schoeder. Finda então a era de Helmut Kohl, chanceler desde 1982.  E, em novembro de 1999, eclode o escândalo dos “fundos negros”, após a descoberta de uma colossal evasão fiscal. Parte teria ido parar na CDU, liderada por Helmut Kohl. O acontecimento colocou em xeque o próprio partido, deixando dúvidas sobre sua sobrevivência.

Naquela manhã de dois lustres atrás, quando Gerhard Schröder, que havia vencido as eleições dois meses antes, abriu o caixa-forte e entregou para Angela Merkel as chaves da chancelaria. Junto recebeu dois coisas: os presentes de Sílvio Berrlusconi ao seu predecessor e a reforma do trabalho feita por Schröder. Os presentes de Berlusconi tinham pouca importância, mas a reforma do mercado de trabalho foi sendo construído paulatinamente e com pertinácia por Frau Merkel. Como consequência a economia da Alemanha tornou-se uma potência mundial. A antiga garota trazida por Helmut Kohl, logo após a queda do Muro de Berlim, tinha duas qualidades essenciais para a política, aliás, previstas por Maquiavel: sorte (fortuna) e flexibilidade (virtù) com as quais pode resistir às investidas ao poder e tornar-se a líder mais longeva da União Europeia.
Ao mesmo tempo determinada, consegue manter o controle do sistema nervoso. É mais flexível que Schröder ou Helmut Schmidt. É provida de enorme capacidade física, apesar da condição de mulher, mas ao mesmo tempo afasta-se da prepotência, característica esta intolerável num mundo democrático.

Merkel foi forjada na crise. A de 2008 quando liderava um governo de grande coalizão com os sociais-democratas. A do euro e da Grécia em 2010 – 2011, como Chanceler de uma coalizão com os liberais. A de 2015 ainda com a Grécia de Tsipras e Ucrânia. A da massa de refugiados que chegavam à Alemanha, em torno de 850.000 em dez meses. Esta postura com os refugiados ao mesmo tempo lhe causou embaraços, mas também recebeu aplausos ao declarar que a constituição alemã garante aos refugiados de guerra, asilo político. Isto salvou a honra da Europa, mas criou divisões no governo e nos partidos de apoio. Tudo isso em meio a crises bancárias, caso OPEL da indústria automobilística, movimentos xenófobos, o escândalo da Volkswagen, viagens pelo mundo (347 fora das fronteiras), relações tensas com Obama e sobretudo com Putin. Mas ela, impávida, sempre clarividente e segura no que fazia conduzia a Alemanha que, do fundo do poço, chegou ao topo. 

sexta-feira, 27 de novembro de 2015

Novembro, tragédia em sangue e lama. José Maurício de Carvalho









As redes sociais e as mídias se ocuparam, nesses últimos dias, de nos afundar na lama de Mariana e de nos mergulhar no sangue dos parisienses. Duas tragédias com todos os componentes fundamentais: a capacidade da cena de provocar horror e a compaixão das vítimas. Assistimos, nesses dias, dois episódios que ceifaram vidas inocentes e ameaçaram outras tantas.
Do lado de cá do Atlântico, um mar de lama escoou de barragem mal fiscalizada, erguida para dar viabilidade econômica à exploração do minério de ferro e lucros exorbitantes a empresas globais preocupadas simplesmente em enriquecer; do outro lado, os tiros e as bombas lançados sobre jovens inocentes que se divertiam no final de semana. A justificativa da perversidade é o pecado da cidade condenado pelo fundamentalismo religioso. De comum aos dois episódios a quebra da tranquilidade e da felicidade que acompanha o homem em seus dias. A felicidade de estar em paz com a família numa pequena aldeia do interior do Estado das Minas, ou a de participar de um evento cultural numa das mais lindas cidades do mundo. Cada qual vivendo sua cota de felicidade, tocando a vida como lhe parecia melhor, cada homem com suas escolhas e caminho para a felicidade. Todos a perderam, ninguém a conservou, pois é próprio da tragédia a fugacidade da felicidade e a destruição do que não é estável; a vida mesma. Nos dois casos, inocentes estavam na linha do desastre e pagaram com a vida e bens, a negligência de uns e a violência bárbara de outros.
Houve quem enxergasse na especulação dos comerciantes de Valadares, que aumentaram o preço da água, um elemento surrealista no meio da tragédia. Explorar quem passa por uma tragédia é algo inimaginável mesmo para a plástica inteligência dos filósofos gregos. Enquanto a solidariedade se ampliava em Paris, a exploração da tragédia marcaria o lado de cá. No entanto, parece que a reação comum, ou humana, foi mesmo a solidariedade de lá e de cá. Solidariedade dos moradores que acolhiam pessoas perdidas e sem saber para onde ir na capital da França, dos motoristas de taxi da cidade luz que levavam os cidadãos sem cobrar a corrida e aqui de voluntários que com seu trabalho e doações encheram os ginásios de Mariana de donativos e solidariedade humana, em magnífica demonstração de apoio.
Essas tragédias nasceram não da quebra da ordem divina do mundo como um dia pensaram os antigos gregos, mas da negligência e imprudência de uns e da ignorância e brutalidade de outros. Nos dois casos foi o homem quem promoveu a desgraça, espalhou a dor, deu livre curso à perfídia. Foi a ação humana que alcançou a vida de inocentes e rompeu a ordem precária do mundo, ecológica aqui, política lá. Nos dois casos a mesma sensação amarga de que o desastre poderia ter sido evitado com algum cuidado.

Das tragédias uma única coisa se salvou, a solidariedade diante do desespero. A solidariedade capaz de mudar, pelo respeito à dignidade humana o aspecto terrível do que nos acontece. Da vida constata-se que certo são as incertezas que nos alcançam em qualquer parte e a qualquer tempo. Fica sempre um desafio depois da tragédia, superar o absurdo e o horrível que ela provoca e tentar impedir, parece que sem sucesso, que um novo desastre se repita. O que talvez possa resultar do cuidado é redução do número de tragédias que acompanham a história do homem. Alguma com certeza virá, em algum dia, quando menos estivermos esperando.

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