sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

PLANEJAMENTO URBANO, UMA NECESSIDADE PARA A ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA. José Maurício de Carvalho.



O país continua se desenvolvendo apesar da crise financeira mundial que já se arrasta há alguns anos e hoje afeta principalmente a Europa. O ritmo diminuiu, mas não entramos na estagnação que afeta outras nações do mundo. Infelizmente nosso desenvolvimento está longe de nos colocar próximos das sociedades mais avançadas do mundo e a simples redução do ritmo do crescimento traz as coisas para mais perto da realidade. Isto não significa também que somos submergentes como começaram a dizer há algumas semanas economistas e jornalistas de países mais adiantados. A atual avaliação é tão irreal como foi a anterior, apenas indica que eles conhecem pouco o país, tanto seus problemas como suas virtudes e potencialidades.
O desenvolvimento do Brasil afeta a vida de todos os seus habitantes, mas as cidades de porte médio, em especial as que se encontram em torno a cem mil habitantes são aquelas que sentem com maior impacto o processo atual. E os estudos de geografia humana mostram que o desenvolvimento está mesmo mais concentrado nesse tipo de cidade que estão recebendo produtos e serviços até pouco tempo fora do seu universo: hospitais especializados, universidades, pequenos shoppings, bons restaurantes, espetáculos  teatrais, condomínios fechados, centro de convenção, etc. Estas cidades são também aquelas que passam por um crescimento demográfico mais acentuado do que de outras áreas do país. Grandes Metrópoles e cidades pequenas, por exemplo, de modo geral não estão passando por um crescimento urbano tão acelerado como o que ocorre nas cidades mencionadas.
Esta situação afeta cidades por todo país de norte a sul. No país são centenas de cidades nesta situação. O desafio de continuar crescendo garantindo a atual qualidade de vida exige a urgente implementação de medidas de planejamento urbano em todas elas.
O que o corre nestas cidades é que cresce sem planejamento, a circulação de veículos se aproxima do congestionamento total, o transporte público é ruim. A preservação da área histórica está cada dia mais difícil, não há projeto de novos parques, praças ou jardins, nem preocupação com áreas permeáveis, nem arborização, nenhum cuidado com a volumetria das ruas e regiões, sem se falar em zoneamento urbano, tratamento de esgoto, qualidade da água oferecida à população. Geralmente o pouco cuidado que existe se concentra na área histórica por conta do trabalho voluntário dos membros dos Conselhos Municipais de Preservação do Patrimônio Cultural. Contudo, ações planejadas não podem se limitar à área histórica da cidade.
No final deste ano escolhemos os políticos que dirigirão a cidade nos próximos anos e este foi o desafio mais importante e urgente que enfrentamos. Todos nós escutamos o que eles tinham para oferecer, analisamos seus planos de governo. Agora vejamos o que eles farão. Não basta asfaltar uma rua aqui, fazer um passeio acolá, ou realizar pequenas obras pontualmente, tudo sem planejamento, sem cuidado especial com a área histórica, sem pensar o crescimento das outras áreas, enfim, sem zoneamento urbano e plano diretor. Planejar é verdadeiramente progresso e não, como sempre ouvi dizer, derrubar casas antigas, asfaltar sem estudo do impacto nas áreas históricas, construir edifícios sem nenhuma estrutura urbana para acolhê-los.  Estes desafios atuais das cidades precisam ser enfrentados por prefeitos e vereadores preparados para viver no século XXI. Caso contrário, em poucos anos enfrentaremos problemas que nunca tivemos ou que não precisaríamos ter e de correção muito difícil, se os governantes não tiverem determinação e competência de seguir os ditames da administração pública.

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

POR QUE O NATAL É LIBERDADE? Selvino Antonio Malfatti





O ser humano normal quer ser bom, justo, verdadeiro e amável. Mas, apesar de querer ser isto, a toda hora escorrega e se porta exatamente ao contrário. Isto causa tristeza e decepção. Por que este dilema de querer ser algo que realiza, dá alegria, enobrece e, ao invés, enveredar para algo que diminui, dá tristeza e empobrece?
Existem várias explicações ou teorias. Uma delas a qual poderíamos denominá-la de natural apóia-se na presença simultânea no ser humano da racionalidade - que quer o bem – e a animalidade - que segue o caminho dos instintos. Como razão, o ser humano conhece o bem e com a mesma razão pode desvirtuar os instintos dando origem ao mal. Disto nasce o dilema de querer o bem e fazer o mal.
A segunda, a sobrenatural, é aquela que dá uma explicação envolvendo uma divindade ou um ser a cima do homem. Alguns teólogos cristãos, entre eles Santo Agostinho, apresentam uma explicação sobrenatural do fenômeno da dicotomia entre querer o bem, mas escolher o mal. Explicam eles.
Somos criaturas imperfeitas, pois Deus não podia criar outro Deus. Por isso fomos criados limitados e conseguintemente nem sempre sabemos o que é o bem, o certo, o verdadeiro, o justo. Ele nos criou à sua imagem e semelhança, isto é, livres e racionais, mas limitados na razão e na liberdade. Portanto, nem sempre entendemos corretamente e muito menos usamos a liberdade para o bem.
Deus que nos criou, colocou em nós a vontade para o bem, mas como não somos iguais a Ele, de podermos querer só o bem, em nós há também uma força que nos imanta para o mal. Isto aconteceu com todas as criaturas racionais que ele criou: os anjos e os homens. Só que os anjos tiveram só uma oportunidade de querer o bem ou o mal. A escolha era para sempre. Os que quiseram o mal se tornaram Demônios e eternamente só quererão o mal. Os que quiseram o bem são Anjos e eternamente só quererão o bem. E isto irá acontecer ao homem também. Após a morte cada ser humano ou optará pelo bem e sempre será bom ou optará para o mal e então nunca mais vai querer o bem. Não é Deus que nos condena para o bem ou para o mal, mas somos nós que faremos a escolha.
Na primeira escolha o homem falhou e sua consciência ficou avariada, isto é, nem sempre consegue discernir claramente o bem ou o mal. Então, para que o homem pudesse ver com mais nitidez, Deus ajudou: mandou seu filho Jesus Cristo. Ele veio para ser o exemplo de escolha do bem. Diversas vezes na vida dele apresentou-se a oportunidade de fazer o mal, mas ele deu as costas e optou para o bem. Por isso se apresentou como modelo de liberdade, isto é, não ser enganado pelo mal. Por que ser livre é estar livre do mal.
A questão fundamental está em podermos ser livres. Se conseguirmos dominar a nós mesmos, podemos fazer o que quisermos. Quando há algo que nos domina, não somos livres e por isso não podemos fazer o bem. O Natal, a vinda do Messias, nos ensina como agir para sermos livres.
Se formos livres podemos:
- amar a nós mesmos, nos admirar, não nos considerarmos um traste. Ter orgulho de nós. Sermos felizes.
- amar nossa esposa, esposo ou namorada, namorado. Sermos realizados, felizes.
- amar nossos pais, filhos, irmãos. Sentir a emoção de ser família.
- amar a comunidade, o grupo, a escola, o bairro, a igreja, a vizinhança. Sentir segurança no seu seio.
- poder olhar-nos nos olhos e sorrir, abraçar, beijar.
Por isso, o Natal nos ajuda a tirarmos as algemas que amarram e soltarmo-nos, ficarmos livres e só querermos o bem.

F E L I Z  N A T A L  


                                        




sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Os valores e a imprensa. José Maurício de Carvalho




Continuando a alternância de postagens, o professor José Maurício de Carvalho aborda uma questão já levantada neste espaço: o dinheiro pode comprar tudo?

Os valores e a imprensa

Os conflitos entre Israelenses e Palestinos da faixa de Gaza (irmãos que se matam), a lembrança das Guerras do Iraque e Afeganistão, os atentados terroristas em Nova York, Londres e Madrid, além da violência que hoje em dia povoa o noticiário sobre São Paulo, todos são episódios que nos colocam diante da quebra da moralidade. Há quem argumente sem surpresa: o homem se mata desde que está na terra. E isto é verdade, a moralidade é conquista íntima e não coisa da natureza. Contudo, em outros tempos, não se tinha tanta consciência de que a vida humana é nosso maior valor. Também não era claro que ideias divergentes sobre Deus não justificam matar ninguém. E para este reconhecimento contribuiu não só os dois milênios de cristianismo e outro tanto de tempo das religiões presentes entre os homens, mas os dois mil e seiscentos anos de Filosofia. Todo este reconhecimento converge para a dignidade humana consolidada na Carta dos Direitos Humanos, em outros documentos da ONU e nas filosofias do Direito que embasam as Cartas Constitucionais da maioria dos povos.
Além da violência um outro episódio recente jogou pó de mico na mídia: a venda da virgindade, pela internet, por uma jovem catarinense (reportagem da Veja de número 47/2012). O assunto colocou em evidência a incomoda questão da venda de tudo, num mundo que mergulhou, desde o último século, no materialismo e hedonismo angustiado. Enfim, de repente a imprensa ficou tocada com a prostituição, embora milhões de jovens se vendam diariamente. Até agora o fato preocupava pouco. Mulheres vendem seus corpos há tanto tempo, apesar do fato ferir a humanidade delas, como os filósofos ensinam desde a antiga Grécia. Cristo, que não era filósofo, protagonizou um encontro maravilhoso com uma prostituta, salvando-a de morrer apedrejada, mas orientou-a a não continuar a vender o corpo. Muitas vezes é a miséria que leva as mulheres à prostituição e no caso não faz sentido falar de desumanidade, pois é a sobrevivência que está em jogo, a própria e a da família.
Dar-se conta, como novidade, de que nem tudo em nossa existência pode ser colocado à venda é deparar-se com uma questão tão velha como a humanidade. Entretanto se isto chama atenção agora este é um bom momento para voltar ao assunto. Popularizou-se o dito que tempo é dinheiro, mas só é no mercado. Tempo é o tecido de nossas vidas, é do que dispomos para amar e construir o sentido de nossa existência.
Não custa recordar que, como ensinou Max Weber em A ética protestante e o espírito do capitalismo, o capitalismo floresceu associado à uma visão religiosa de mundo. Portanto, marxistas de plantão, nada de culpar o sistema e desviar a atenção das escolhas. A justificativa para o trabalho árduo e quotidiano não era, no início dos tempos modernos, o enriquecimento, mas completar a criação divina. E se o enriquecimento vinha ele era indício de salvação. Porém se o dinheiro levasse ao luxo suntuário ou luxuria o sujeito estava embarcado na primeira classe para o inferno.
Há muitas coisas que o dinheiro não compra: a dignidade, a honestidade, a amizade, a veracidade e outros valores fundamentais para a vida social. O dinheiro pode levar à indignidade, inverdade ou a desonestidade, pois muitos valores não são assegurados pelo dinheiro. O dinheiro não assegura, por exemplo, o respeito e a amizade, só a bajulação. O respeito nasce na consciência. Quem precisa do dinheiro para respeitar o outro não reconheceu nele dignidade e mostra sua própria vileza.  A riqueza é um tipo de valor, ajuda a melhorar a vida, mas não guia todas as relações entre os homens, pelo menos não quando pensamos eticamente. E a moral não é descartável, mas o que firma o tecido social. Mesmo que alguém pague um médico para fazer um procedimento delicado ou ao psicólogo para tirá-lo da lama existencial o que garante, em última instância, que o profissional dará o melhor de si é a sua consciência moral. 

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

NATAL E FÉ. Selvino Antônio Malfatti


                                                 

 Alegoria da , por L.S. Carmona

Pouco a pouco o clima natalino vai tomando conta dos cenários. Inicia com as chamadas comerciais, com a ornamentação, com a música, TV, rádios, jornais revistas. Expande-se e envolve todo o ambiente e quando se vê se está dentro do Natal.
Não é deste Natal, porém, que queremos falar, mas do outro, daquele da Fé. Esta entendida como uma aceitação de outra dimensão da realidade. Pela fé se acredita no sobrenatural. É a mensagem deixada por Bento XVI em Porta Fidei - por ocasião do anúncio do Ano da Féconvidando o mundo para ingressar na fé proclamada pelo Cristianismo.                   
Há diversos modos de chegar à fé e também de perdê-la. A primeira forma de fé é aquela que se instala nas pessoas ao natural. Quando se dá conta faz parte da vida. Ela penetra na alma através do leite materno, do ambiente familiar e social. Esta fé não se adquire, nasce-se com ela. É uma fé sem ruptura, pacífica. As decorrências e conseqüências seguem um fluxo normal dentro do meio que se vive. É uma fé de Santo Tomás, de São Francisco, de Santa Clara e de Santa Ana.
A outra se origina do conflito. Há um passado que precisa ser sepultado para poder dar espaço a ela. Esta fé nasce da violência consigo mesmo e com o meio. A partir da opção pela fé passa-se a queimar os antigos deuses e adorar o que se queimou no passado. É uma fé de São Paulo e de Santo Agostinho.
Há então duas direções na relação entre fé e razão: uma que parte da fé para a razão e outra da razão para a fé. Geralmente quando se chega à fé pelo segundo caminho, ao da razão para a fé, esta não se a perde jamais. O primeiro caminho, o da fé para a razão, é aquele que mais leva a perda da fé. Pelo segundo, a razão sente-se insatisfeita, inquieta, frustrada pelas respostas às questões existenciais. Pela primeira, a razão se sente quase traída pelas soluções propostas pela fé. A razão que busca a fé dificilmente voltará atrás, mas a fé que busca a razão às vezes retrocede e se torna descrente ou ao menos sente mais dificuldade para conciliar razão e fé.
A fé é a transposição da incerteza do fenômeno para a certeza da verdade. A razão é a dúvida da certeza perante o fenômeno. A fé faz a passagem daquilo que é apenas uma hipótese, uma aparência, um indício para uma certeza. A razão se nega a atravessar o mundo do fenômeno e acatar a certeza. A certeza para a razão nunca existe a não ser a certeza da incerteza. A fé faz a passagem e após ela encontra a razão. A razão não encontra a fé, mas esta encontra a razão. A fé é uma antinomia da razão, mas a razão não o é da fé.
Feita a transposição da razão para a fé, tudo se torna mais fácil. A mente parece iluminar-se e a razão passa a perscrutar com infinita liberdade as magnas questões da ciência. A discussão atual, por exemplo, sobre a origem do universo através do Big Bang foi antevista por Santo Agostinho há quase dois mil anos: a ausência de tempo e espaço antes da criação. Tudo era nada e Deus não fazia nada e não, como diziam os céticos, preparava o inferno para os descrentes, como alguns queriam brincar com questões tão sérias. Se a fé precede a razão cronologicamente, a razão, posteriormente, fundamente cientificamente a fé. E enquanto houver fé, haverá sempre esperança de caridade.
O Natal é um ato de fé, quer entendamos e cremos, quer cremos e entendamos, numa nova relação entre Deus e o homem. 

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

RELIGIÃO E DIGNIDADE HUMANA.José Maurício de Carvalho















Como anunciamos, a partir de agora teremos a colaboração do Professor José Maurício de Carvalho que leciona na Universidade Federal de São João del-Rei. É graduado em Psicologia, Filosofia e Pedagogia. Na pós-graduação possui especialização, mestrado e Doutorado. Concluiu estágio de Pós-doutorado na Universidade Nova de Lisboa e na Universidade federal do Rio de Janeiro. É membro do Instituto de Filosofia Luso-brasileira, com sede em Lisboa. Atua também como consultor de diversas revistas científicas. Destaca-se como professor de filosofia, ética e cultura. Segue o artigo.


"RELIGIÃO E DIGNIDADE HUMANA
A semana começou com notícias duras para a humanidade: acirrou a crise econômica na Europa, o Paquistão testou com sucesso um míssil capaz de levar ogivas nucleares, aumentou o desmatamento da Mata Atlântica na costa brasileira, ocorreu novo massacre de crianças e mulheres na revolta popular contra o governo da Síria e houve intoxicação criminosa de jovens estudantes afegãs. A última notícia choca tanto pela novidade, quanto pela justificativa.
Grupos radicais islâmicos que não aceitam a educação da mulher e sua dignidade promoveram o atentado que quase levou a morte 150 jovens. Socorridas às pressas e levadas ao hospital, elas estão em tratamento, mas ainda não há notícias das seqüelas físicas e psíquicas do atentado covarde. Estes grupos encontram justificativa na interpretação limitada do livro sagrado, para considerar a mulher um ser inferior, devendo permanecer sem educação, reclusa em casa e coberta por um manto da cabeça aos pés. 
Os americanos que invadiram o país depois do atentado de 11 de setembro, em luta contra o terrorismo religioso, abriram as escolas para a mulher e levaram para lá o padrão de vida ocidental, rejeitado imediatamente pelos radicais religiosos. O que vemos ali desde então? Um país que já foi sede de brilhante civilização influenciada pela Grécia e Índia, tornou-se, em nosso tempo, território de atraso e barbarismo. Para isto contribuiu o interesse da Guerra Fria, quando os russos, com o propósito de aumentar sua área de influência, invadiram o país em 1979. Naqueles dias, os americanos apoiaram os grupos de radicais religiosos que se fortaleceram com o apoio e enfrentaram os russos. Durante doze anos uma guerra brutal teve por palco as belas planícies e muitas montanhas do país. A guerra durou até que as tropas soviéticas deixaram o país em 1989, quando, por conta da deterioração do regime comunista, esgotou-se o modelo imperialista da Antiga União Soviética. Os grupos de radicais religiosos que haviam lutado para expulsar os russos encontravam-se então bem armados para expandir o que acreditam seja o projeto de Deus para a humanidade. E foi assim que a pobre população, nos dois sentidos, viu-se dominada por fanáticos armados e os americanos provaram o resultado de suas políticas pragmáticas.
Não sabemos se o novo governo que ali se formou na última década terá força para enfrentar tais grupos radicais ou se com a saída dos americanos eles voltarão a controlar o país. O pior do episódio das jovens contaminadas é a justificação religiosa do atentado, mostrando o desastre que significa a religião ser é usada para escravizar a humanidade. O ocidente também não teve dias de elevação espiritual durante a Idade Média quando vigorou a intolerância religiosa, a perseguição aos judeus, à condenação das bruxas, as fogueiras, a inquisição.
Felizmente, a combinação da filosofia grega com o cristianismo e o código civil romano permitiu o reconhecimento da dignidade humana, favoreceu a tolerância, erradicou a perseguição religiosa e deu origem a movimentos pacíficos e ao retorno à pregação de Cristo. Estamos ainda muito longe da elevação humana pretendida por Jesus de Nazaré: igualdade em dignidade de homens e mulheres, fim da escravidão do homem pela religião, estímulo ao amor fraterno entre as pessoas, tolerância entre os homens, espiritualização crescente, etc. No entanto, parece um despropósito a religião contribuir para obstaculizar a elevação espiritual do homem.
O atentado contra as jovens é um alerta à consciência religiosa no sentido de que o que há de mais sagrado na mensagem religiosa é o  respeito humano, é o cuidado com as pessoas, é a educação que eleva seus interesses, educa seu egoísmo natural e fortalece a fé. A religião, como diálogo com Deus, se aceita e admitida, é convite de elevação espiritual e não instrumento de dominação. É o que a consciência moral aponta como diretriz nos dias que vivemos." 

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

A VIRGINDADE PODE ESTAR À VENDA? Selvino Antonio Malfatti.





A propósito da celeuma provocada pela catarinense Ingrid Migliorini que colocou em leilão a própria virgindade suscitaram várias considerações desde legais até éticas. A pergunta radical que se pode fazer é a seguinte? Pode alguém vender a própria virgindade? A resposta: pode, mas não deve. Não só a virgindade como qualquer parte do corpo. Com certeza a pessoa tem o poder físico, mas não o moral. Por quê?
Existem duas vertentes que embasam este pensamento. Uma delas, atualmente é defendida pelo pensador português Eduardo Abranches do Soveral. Pensa ele que através da História e nos meios culturais mais diversos emergiram um conjunto de valores que são alicerce da civilização e mesmo o sustentáculo da sobrevivência da humanidade. Estes valores não são propriedade exclusiva de um povo, mas estão disseminados entre todos eles e como tal propriedade da humanidade. Estão presentes entre muçulmanos, hindus, judeus, cristãos.
Diz ele que não somos nem deuses nem animais, nem absolutamente perfeitos nem absolutamente imperfeitos. Somos humanos, por que somos limitados pela cultura que nos cerca: a comunidade, as circunstâncias, os objetos culturais, os vivos e os mortos. Daí a questão: como posso definir minha autodeterminação em tais circunstâncias? Como posso balizar minha ação?
Continua Soveral. Os elementos constitutivos essenciais do agir humano emergem dentro da história: homens concretos, situados num contexto cultural no seio de uma linguagem que também é histórica e cultural. Embora racionalmente se possa admitir que uma ética universal pudesse ser fruto de um pensador genial, concretamente isto não ocorre. A moral seria individual, histórica e até mesmo relativa. A reflexão sobre a moralidade nos leva à ética que possui princípios universais, válidos não só para o “hic et nunc”, mas supra temporal e supra histórico.
Cada homem se reconhece que não é puro espírito, trans lúcido e absoluto. No entanto, constata um impulso incontido de autodeterminação. Como conciliar este paradoxo: não ser algo e querer ser este algo? Diante disso os pensadores chegaram à conclusão - e Soveral entre eles - de que a vontade de autodeterminação deva estar relacionada com um absoluto que possua a plena autodeterminação. É pelo absoluto ao qual o homem está relacionado que o desejo de autodeterminação encontra seu fundamento. Com isso se pode explicar o elo entre o perene e o transitório. Pela razão o homem consegue iluminar e mesmo entender a atividade de um sujeito absoluto presente na história. Então desde o momento que o homem reflete os objetos culturais está se debruçando sobre dados sensíveis e a partir deles busca o transcendente. A ética se refere à estrutura transcendental da ação humana, embora buscada numa cultura dada, concreta e histórica, está relacionada a um Ente que encarna o absoluto presente no transitório.
A outra vertente, também concorda com a historicidade dos modelos morais, mas procura outro fundamento ético. Esta vertente considera os valores como um fruto da comunidade e não podem ser desobedecidos porque não são valores privados, mas públicos. São frutos do consenso da comunidade e já se desprenderam do indivíduo e se tornaram coletivos. É defensor desta vertente o pensador brasileiro Antonio Paim. É o que o filósofo Michael Sandel no livro “O que o Dinheiro não Compra”, afirma a propósito da venda da virgindade por parte de Migliorini. Ambos concordam que há uma esfera a cima do monetário, do econômico. O dinheiro é um valor e a dignidade é outro. Esta não tem preço.
Diz Paim que a ética consensual nasceu historicamente na Inglaterra devido principalmente a proliferação de várias morais individuais, mormente as religiosas. Para contornar a dificuldade, quando se chocavam, nasceu na sociedade um conjunto de princípios de comportamentos éticos a cima das morais individuais, consensualmente aceitos. Nesse sentido a ética não tem seu ponto de apoio no absoluto, mas na comunidade.
Quer adotemos um, quer abracemos outro, sempre se depara com uma ética que estabelece comportamentos universais.
Por isso, pela moral individual Migliorini pode vender a virgindade, mas pela ética do absoluto ou do consensual, não. 

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

O “CINQUENTA TONS DE CINZA”. Selvino Antonio Malfatti.





O cenário do romance de E. L. James passa-se em meio a chicotes, açoites, bolas, laptop e iPod. O “Dominador” Christian e a “Submissa” Anastásia entregam-se completamente aos prazeres do sexo. Ele, prisioneiro dos complexos infantis e juvenis, porta-se como Hórus. Ela, ora aprovada, ora desaprovada pelo interior e pelo inconsciente, é Vênus. Ambos mantêm um relacionamento sexual tenso e prazeroso. Em qualquer ambiente encontram motivos para novas experiências. No escritório, quarto, cozinha, restaurante, corredores, mas principalmente na Sala Vermelha da Dor o impulso sobrepõe-se às suas vontades e eles o satisfazem. Basta se entreolharem para mergulharem de corpo e alma nesta volúpia. E o fazem sem culpa nem remorsos.
Nestes momentos para eles o mundo ao redor se tornar etéreo e se deixam levar ao abismo pela voracidade. Às vezes tudo é lento, espontâneo. Outras, sofreguidão da abstinência. Um vácuo para ser preenchido com o tudo. Puro cosmos de deleite, ânsia do belo, do nada, infinito e eterno cabendo num átomo de segundo. Esfuzia-se a alma diante do esvaecimento do corpo. Aos borbotões jorra o prazer esquecido do sofrimento. É a morte que vive, revive, transfigura-se. Cada membro do corpo pode sentir e tocar a felicidade total. A alma se entrega ao inefável. Morre a lógica, vence a natureza. Os princípios se calam. Os sistemas se esfumam nas contradições. As teorias agonizam perante o viver da vida. Tudo rebrota e floresce. O universo se abraça à felicidade de provar o inalcançável. Quer-se escuridão porque a luz pode findar num segundo aquele momento desejado e repelido. O prazer desceu na esteira do raio e transformou-se em leito desnudo. Como é doce aquele morrer porque é por ele que se sente a vida palpitar no gemido do sofrimento gozoso. Por que não queria? Por que proibia? Quem proibia devia ser alguém ciumento por que queria guardar só para si toda a beleza da bondade. Que importa o castigo se a felicidade supera todo o sofrimento? Por que não fazer o mal se ele é tão doce à alma? A deusa fica vazia e repleta, ofegante, em repouso. Ela possui tudo e quereria não ter nada. Esta é a morte mais inebriante dos vinhos para a alma.
A mente está vazia de medo. Quer apenas aquele momento, único, esperado e amedrontador. A deusa queria e não queria. Hórus queria. O corpo consente e a alma deseja. Quem diz que carne é fraca? Ela convence a alma que não queria. Os dois, vitoriosos, se congratulam e festejam a vitória sobre a proibição. A provação passou. Agora é a hora da recompensa e do regozijo.
Por que se chama de queda esta suprema vitória da natureza? A taça espumante e transbordante chegou aos lábios sôfregos. Sorvida, entrou pelas moléculas do corpo fazendo-as estremecerem. Os instintos satisfeitos aquietaram a alma inquieta. Ela precisa de um lugar para repousar. Sua quietude está no corpo que carrega como um casulo. Em vão se debate na busca de fantasias. A felicidade está com ela, basta dá-la. A natureza não deixou longe o que a alma e o corpo precisam. Depositou neles. Basta apanhá-los. A alma inquieta procurando onde repousar e encontrou a paz no corpo. Mas isto é efêmero. Por que o efêmero não se torna eterno?  
Vênus ou Hórus, quem sobrepujará? O amor ou o sexo?


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