sexta-feira, 8 de maio de 2026

A MIRA DO PODER FERIDO: FEMINICÍDIO. Selvino Antonio Malfatti

 


Num ambiente cultural configurado sociologicamente pela supremacia do homem sobre a mulher pelo qual nem tudo o que permitido ao homem é também à mulher, repentinamente, a mulher imbuída de outro pensar tenta agir de forma autônoma permitindo-se fazer tudo o que o homem faz configura-se um conflito explícito e aberto de confronto. Se ao homem tacitamente é permitido manter relacionamentos sexuais com outras mulheres além da esposa ou namorada, uma mulher resolve agir da mesma forma, isto é, ter ralações sexuais além do marido ou namorado, necessariamente haverá reações conflituosas entre ambos. Neste caso ocorre uma quebra de comportamento atribuído. E persistindo, o homem pode invocar seu poder e agredir ou mesmo matar sua companheira. Não se trata de defender nem condenar o homem ou a mulher, apenas explicar para entender.
O feminicídio, nesse contexto, não pode ser reduzido a atos isolados ou a reações individuais descontroladas. Trata-se de um fenômeno inserido em uma estrutura social mais ampla, na qual persistem desigualdades de gênero profundamente enraizadas. Mesmo em sociedades que avançaram juridicamente na promoção da igualdade, permanecem práticas simbólicas e culturais que naturalizam a superioridade masculina e a subordinação feminina. Assim, a violência extrema contra a mulher revela não apenas conflitos interpessoais, mas a permanência de uma lógica estrutural de dominação que se manifesta quando os papéis tradicionais são questionados.
Com efeito, Dürkheim explica que a vida social se mantém através de normas coletivas, ao homem maior permissividade sexual e à mulher controle e expectativa de fidelidade. São os papéis de gênero institucionalizados. Se caso a mulher agir fora dos padrões há uma quebra de expectativa social socialmente estruturada.
Já Pierre Bourdieu baseia-se sobre o conceito de dominação masculina, construída ao longo da história. Este agir criou um habitus, isto é, disposições internalizadas. O homem se sente mais livre e a mulher internaliza limites. No momento em que a mulher rompe com os padrões, o homem sente a perda de posição, gerando o conflito que pode levar à violência que pretende reafirmar a hierarquia tradicional.
Por sua vez Michel Foucault baseia-se sobre a princípio de que a sexualidade é regulada socialmente pelo qual o corpo feminino é historicamente mais controlado que o masculino. Disso resulta que ao homem é aceito socialmente mais liberdade enquanto
que a mulher aceita-se a vigilância e sanções. Se a mulher rompe o dispositivo do controle social desencadeia-se o conflito com uma reação reparadora.
Já Simone de Beauvoir denunciava que a mulher foi construída culturalmente como “outro” com liberdade vigiada e controlada. Na mesma linha Judith Butler denuncia que o gênero é um resultado social repetido. Quando alguém ousa romper desestabiliza o sistema e gera o conflito, por que não é apenas uma ação individual isolada, mas a subversão da estrutura simbólica toda.
Por fim a linha marxista pela qual as mudanças geram conflitos. Quando grupos subordinados, no caso as mulheres, pretendem ampliar alargar sua esfera de autonomia dão origem a tensões com grupos que detém privilégios, no caso os homens. A perda de controle gera a violência na tentativa de voltar ao que era e restaurar a autoridade, controle e o poder masculino ameaçado.
Em síntese, não se quer justificar, apenas explicar e tornar inteligível o fenômeno do feminicídio
É importante, contudo, evitar uma leitura simplista que estabeleça uma relação direta entre a emancipação feminina e o aumento da violência. A ampliação da autonomia das mulheres não cria o feminicídio, mas pode tornar mais visíveis tensões já presentes em estruturas sociais historicamente desiguais. Nesse sentido, o conflito não nasce da liberdade em si, mas da permanência de padrões culturais que não acompanharam, no mesmo ritmo, as transformações sociais. A violência, portanto, não deve ser compreendida como consequência da mudança, mas como expressão de uma ordem que resiste a ela.
O feminicídio, nesse contexto, não pode ser reduzido a atos isolados ou a reações individuais descontroladas. Trata-se de um fenômeno inserido em uma estrutura social mais ampla, na qual persistem desigualdades de gênero profundamente enraizadas. Mesmo em sociedades que avançaram juridicamente na promoção da igualdade, permanecem práticas simbólicas e culturais que naturalizam a superioridade masculina e a subordinação feminina. Assim, a violência extrema contra a mulher revela não apenas conflitos interpessoais, mas a permanência de uma lógica estrutural de dominação que se manifesta quando os papéis tradicionais são questionados.
À luz da tradição da Escola de Frankfurt, é possível aprofundar essa análise ao compreender a violência não apenas como ato individual, mas como produto de formas
de dominação social mais amplas. Autores como Theodor Adorno e Max Horkheimer evidenciam que a sociedade moderna, embora marcada por avanços racionais, mantém estruturas de poder que reproduzem desigualdades e formas sutis de opressão. A chamada racionalidade instrumental — orientada pelo controle, pela eficiência e pela dominação — pode contribuir para a objetificação do outro, reduzindo-o à condição de meio. Nesse cenário, a mulher, historicamente colocada em posição de subordinação, torna-se alvo privilegiado dessa lógica. Quando essa ordem é contestada, a reação violenta pode emergir como tentativa de restabelecimento de um controle ameaçado, revelando a persistência de traços autoritários nas relações sociais.
Neste contexto não se pode deixar de levar em conta o Movimento Estudantil de 68 que estabeleceu algumas linhas de comportamento social que exacerbaram as relações entre os gêneros. Podem ser destacados: contestação das estruturas de autoridade, moral dita burguesa, e os papéis socias vigentes. Este movimento extrapolou o campo político e alcançou o cultural como um todo na medida que defendia a liberdade individual (cada um sabe o que é melhor para si), igualdade de gênero (fim da hierarquia entre homem e mulher) e emancipação às normas consideradas opressivas. O lema “proibido proibir” resume a filosofia deste movimento e que tornou mais sensíveis as relações entre gêneros. O movimentou aguçou a questão da igualdade, autonomia e reconhecimento social da
mulher.
À luz das abordagens sociológicas e da teoria crítica, o feminicídio revela-se não como um fenômeno isolado ou meramente individual, mas como expressão de estruturas históricas de dominação de gênero ainda presentes na sociedade contemporânea. A ruptura dos papéis tradicionais, impulsionada pelos avanços na autonomia feminina, não constitui a causa da violência, mas evidencia tensões latentes em uma ordem social que resiste à transformação. Nesse sentido, a violência extrema contra a mulher deve ser compreendida como tentativa de reafirmação de hierarquias simbólicas e materiais ameaçadas, articulando dimensões culturais, normativas e de poder. A contribuição da Escola de Frankfurt permite aprofundar essa análise ao evidenciar como formas de racionalidade e dominação se reproduzem nas relações sociais, tornando o feminicídio uma manifestação crítica das contradições da modernidade e um desafio ético central para a construção de uma sociedade verdadeiramente igualitária.
 

2 comentários:

  1. Beleza, de explicação, perfeito.

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  2. A violência começa no dia a dia, problemas, tensões, falta de diálogo, crises, desgaste da relação.

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