sexta-feira, 11 de agosto de 2023

A VERGONHA DA NUDEZ. Selvino Antonio Malfatti

 

Eu me pergunto: por que supor a resposta na pergunta que quer buscar a resposta? Ao se fazer uma pergunta que já se tem a resposta não se busca a verdade, mas se impõe como verdade uma suposição. Trago como exemplo a origem do pecado no paraíso. O diálogo pressupõe a resposta no final do diálogo entre Adão, Eva e a Serpente. Antes Adão e Eva estavam nus e conviviam sem precisar de pudor. Tudo era espontâneo. Não precisavam de nada, nem de folhas nem de peles. Sempre passavam perto da árvore proibida sem curiosidade. Tudo continuaria como de costume até que a “serpente” lhes desperta a curiosidade.

- Por que não comem do fruto desta árvore?

Sabiam da consequência: conheceriam o mal. O bem eles já o conheciam, o mal, não. Se conheciam o bem por que buscariam o bem do mal. Comeram o fruto. Caíram em si. Estavam nus.

- Como é que nunca vimos que estávamos nus? Perguntavam-se.  

A nudez pressupôs o pecado. Sem ele poderiam andar nus, sem pecado. Ela é o doce do pecado. 

É que na doçura da prova da queda vai junto o abrolho do prazer. O veneno perpassa o corpo até atingir a alma. Por isso, após a felicidade do pecado sobrevém a prostração do arrependimento. Aquela sensação de morte que começa nos pés e atinge o coração faz a alma exclamar pelo “De Profundis”. A miséria invade cada membro da alma fazendo o coração gemer e confessar que se é todo pecado, já foi gerado no pecado. Que desejo de ter as mãos limpas e o coração puro! Que desejo de poder, mas nem que fosse por um instante, voltar atrás no tempo e saltar aquele momento anterior. “De Profundis, clamavi ad te, Domine!” O veneno da serpente ofusca os olhos, embaça a mente, invade de torpor todo o corpo. Ele inocula a razão através da felicidade do coração. No último banco da igreja se ajoelha, enfia a cabeça entre as mãos, enche os olhos de lágrimas e tenta buscar a Deus. Nada encontra senão um dedo apontando o caminho da porta. A impureza, a vaidade, o orgulho, a ganância são terra jogada sobre o caixão do cadáver. Pasto para os vermes festejarem, estrume para porcos chafurdarem, putrefação para os corvos cheirarem.

Pecado é um corpo conspurcado pelo esperma da luxúria, coração apunhalado pela dor, razão demente tateando perdida. Pecado é o vômito da gula, o arroto da soberba, o escarro da ira. É a mais profunda desolação e abandono. Abandono de si mesmo e de Deus. Tudo se transformou em nada e o nada é tudo o que se pode contar. Por isso, “De Profundis, clamavi ad te, Domine!”  

Por que escolher o mal se podia escolher o bem? Por que o mal se tornou um  bem? O mal acontece porque o bem é visto como menor em que o mal. O pecado atinge o pecador, mutila-o, corrompe esfrangalhando o corpo e a alma. Será o pecado que dilacera o homem ou sua natureza mutilada que o conduz ao pecado? Pode o homem não pecar. Se pode, por que peca? A questão não é porque é livre, mas por que opta pelo pecado, para a corrupção. O mal e o pecado devem ser melhores que aquilo que se diz bem e virtude. Por isso não se pode não pecar. Poderia, por acaso, subsistir este mundo sem o pecado? A ânsia pelo pecado é sua própria recompensa enquanto sua concretização é o próprio castigo. A dialética não esmorece no castigo, mas na recompensa e por isso se volta a procurar o pecado. Recompensa e castigo complementam-se e tornam o homem. Ele é feliz com o que não tem, mas quer ter. E infeliz com o que consegue, mas não queria tê-lo. O desejo de felicidade leva à corrupção de sua natureza, e a vontade de fugir do mal é o degrau para a perfeição. 


sábado, 5 de agosto de 2023

RECEPÇÃO DO PAPA EM LISBOA. Selvino Antonio Malatti

 



 O discurso do papa na abertura Jornada Mundial da Juventude 2023 revela duas características: a familiaridade do papa com a cultura portuguesa e um discurso fundamentado nesta cultura.

Logo de início do discurso é citado Luís Vaz de Camões “«Aqui… onde a terra se acaba e o mar começa». Diz o Papa, que em parte é verdade, pois Portugal é o início e fim dos continentes. Por isso faz sentido a canção: “Portugal tem cheiro de flores e de mar”.

Portugal  apresenta-se ao mundo como a enseada da paz mundial. Se a palavra “Europa” significa a “boa rota” Portugal certamente é a proa da nave. As águas do oceano lembram a origem da vida: de crianças que nunca nasceram e de idosos que sem esperança aspiram por uma morte digna.

Há muita esperança quando vemos uma cidade como Lisboa que acolhe os jovens cheios de fé no futuro que escolhem a paz e a fraternidade em vez de gritar palavras de ódio. Diz o Papa vejo as palavras de Fernando Pessoa a brilhar no alto desta cidade dizendo: “Navegar é preciso”. O objetivo é chegar ao porto onde estão sendo construídos  estaleiros que constroem a esperança: “o ambiente, o futuro, a fraternidade”.

Primeiramente o ambiente: Os oceanos já estão dando sinais. A sujeira atirada neles já vem à tona. Como poderemos dar esperança aos jovens se não preservamos a vida?

O segundo estaleiro de obras é o futuro. Como poderemos prometer um futuro melhor aos jovens se não lhe proporcionados emprego, progresso, paz e bem estar?

E o terceiro, a esperança. Como prometer um futuro melhor? Como acenar com mundo econômico sem exploração, preocupado no bem estar de todos, educação universal, convivência pacífica de gerações – jovens e idosos? Isto não vai ao encontro da saudade?

O que dá sentido ao encontro é a busca. Quando mais andamos maior será a alegria de achar. Dizia Saramago: “é preciso andar muito, para se alcançar o que está perto.”

Quero deixar incentivo aos jovens que congregados na «Missão País», que querem viver a fraternidade através do bem estar ao próximo.

 

DETALHES DO PROGRAMA DA VISITA DO PAPA A PORTUGAL.

Dia 2 de agosto

11h15 – O Papa será recebido no Palácio de Belém para uma visita de cortesia ao Presidente da República Marcelo Rebelo de Sousa, que, numa nota no site da Presidência, fez saber que “estará presente nos mais significativos eventos da presença do Papa Francisco em Portugal e da Jornada Mundial da Juventude”.

12h15 – Será feito o primeiro discurso em Portugal depois de um encontro com as autoridades, sociedade civil e corpo diplomático.

16h45 – O Papa tem encontro marcado com o primeiro-ministro António Costa.

17h30 – Vésperas com os bispos, sacerdotes, diáconos, consagrados e consagradas, seminaristas e agentes pastorais, no Mosteiro dos Jerónimos.

Dia 3 de agosto

9h00 – Está marcado um encontro com jovens universitários na Universidade Católica.

10h40 – O Papa vai encontrar-se com jovens de Scholas Occurrentes, em Cascais.

17h45 – O sumo Pontífice presidirá à cerimónia de acolhimento dos participantes da JMJ no Parque Eduardo VII.

Dia 4 de agosto

9h00 – Está prevista a confissão de alguns jovens da JMJ, na Praça do Império.

9h45 – Logo a seguir, o Papa vai ao Centro Paroquial da Serafina para um encontro com os representantes de alguns centros de assistência socio-caritativa.

12h00 – Haverá um almoço com jovens.

18h00 – Está marcada a via-sacra com jovens, de novo no Parque Eduardo VII.

Dia 5 de agosto

8h00 – O Papa parte para Fátima, numa viagem que será feita de helicóptero. A chegada a Fátima está prevista para as 8h50.

9h30 – Haverá recitação do terço com os jovens doentes na Capelinha das Aparições.

 

11h00 – O Papa ruma de novo a Lisboa.

18h00 – Há um encontro agendado com membros da Companhia de Jesus, no Colégio de São João de Brito.

20h45 – Vigília com jovens, no Parque Tejo

Dia 6 de agosto

9h00 – O Papa vai celebrar a Santa Missa para o dia Mundial da Juventude, no Parque Tejo.

16h30 – O sumo Pontífice tem encontro marcado com voluntários da JMJ no Passeio Maritimo de Algés.

17h50 – Acontecerá uma cerimónia de despedida na Base Aérea de Figo Maduro.

18h15 – O Papa Francisco regressa a Roma, onde deverá chegar às 22h15.



sexta-feira, 28 de julho de 2023

MARC AUGÈ - OS ESPAÇOS DOS NÃO LUGARES. Selvino Antonio Malfatti.

 



Não podemos residir num espaço porque precisamos de um lugar para residir. Se estivermos no espaço então precisamos de um  lugar para ser individualizados e não permanecer num não lugar.

O antropólogo Marc Augè nasceu em Poitiers em 1935 e viveu 87 anos. As principais obras são: O Gênio do Paganismo, uma resposta a Chateaubriand autor do Gênio do Cristianismo e As Três Palavras que mudaram o mundo: Deus não existe. Como antropólogo realizou pesquisas na América e África e como antropólogo dirigiu École des Hautes Études en Sciences Sociales em Paris.

O homem é um animal que se relaciona pelos símbolos. Estas relações se dão no espaço e tempo em lugares que concretizam o contato. Sem contato o espaço e tempo são vazios, isto é, não lugares. Os não lugares são espaços criados artificialmente para suprirem a necessidade de troca entre unidades sem identidade pessoal. Há, por exemplo, mil pessoas no shopping, trezentas pessoas no saguão, quinhentas no metrô. Nenhuma tem identidade pessoal. É o resultado da sobremodernidade, globalização, a superação da pós-modernidade.

A sobremodernidade tem três características. Primeiramente é uma superabundância de eventos. E tal é a explosão que os historiadores não conseguem mais assimilar e a interpretação lhes escorregam do pensamento. E em segundo lugar, a sobremoderrnidade é superabundância espacial que possibilita deslocar-se para todo lado, como marcar a onipresença de imagens de todo mundo. Isto é possível pela televisão. E uma terceira  característica é a individualização das referências, ou o desejo de cada um de ser o genuíno intérprete sem necessitar de auxílio de terceiros.

Nesse sentido demonstram a necessidade de serem reconhecidos dentro de um mundo de solidão. Pela comunicação o indivíduo consegue individualizar-se e neste momento consegue criar um não lugar dentro do espaço e assim sai da solidão. É o que acontece com os jovens que nas redes, típicos não lugares, é reconhecido como outro. E aqui surge o paradoxo: o não lugar é o espaço e tempo de cada um.

Para Augé, o bistrô é um tipo por excelência de lugar. Nele as pessoas praticam relacionamentos autênticos e vivem com alegria. Isto por que nossa sobremodernidade criam uma divisão de classes diferentes do que eram nas sociedades tradicionais

Agora temos uma classe de poderosos, que se furtam às leis nacionais; consumidores, herdeiros da extinta classe média; os excluídos, que nem esperança lhes está ao alcance. Para tanto buscam compensação na evasão, um furtar-se a si mesmos.

 

TRECHO ORIGINAL DE MARC AUGÈ:

Diferença entre simbólico e o imaginário

Há diferença sim, mas não posso fazer uma exegese de Lacan e Levi Strauss – o que seria muito difícil, mas emprego a palavra simbólico, no sentido empregado por LéviStrauss. É bem isto, um sistema de relação: o primeiro é a linguagem que implica indivíduos em si mesmos. Acho que classicamente, já se observava que a etnologia estuda as relações, portanto: o simbólico – seu sentido. Algumas vezes, refiro-me ao “sentido” – sentido social do fato nas quais estas relações são pensadas pelos seus termos. O imaginário é o produto da imaginação. Pode ser coisa como os contos, imagens. A relação imaginária às coisas é uma relação individual. Tenho uma relação imaginária com o que imagino ou tenho uma relação imaginária com a imagem. Se vejo os indivíduos na televisão que me contam coisas – tenho com eles uma relação imaginária – no sentido que é uma relação que não se aplica ao outro. Pode haver outros que estabeleçam esta relação, mas esta não se estabelece como particular. É diferente, se vemos uma peça de teatro, que pertence ao nosso patrimônio comum, uma tragédia grega, por exemplo, ou quando compartilhamos uma peça de música, há uma convergência de imaginação em direção a algo comum que nos diz qualquer coisa. Há um elo entre os que compartilham este momento. Em contrapartida, quando este elo é rompido não há mais que uma relação individual às coisas. O que me parece importante é a relação entre o imaginário individual e o imaginário coletivo e entre o imaginário coletivo e o simbólico. O “imaginário” simbólico é a relação explícita entre uns e outros e o imaginário coletivo é o produto de uma imaginação partilhada, o mito, por exemplo. E depois o imaginário individual – o que é de cada um que pode ser fechado naindividualidade.

Sobre Don Juan

Don Juan é um personagem, um herói pelo qual sempre tive simpatia. Principalmente pelo Don Juan de Molière, porque ele busca as coisas, ele refuta os valores estabelecidos. Ele tem um gesto, que não se explica nos termos do cinismo. É amor à humanidade. Ele parece prefigurar o século XVIII. Tudo aquilo que eu amaria crer: a liberdade do indivíduo, a solidariedade, e, para evocar a divisa revolucionaria, a fraternidade. Fundamentalmente, uma certa igualdade face à morte. É um personagem que me fascina por sua relação ao tempo. Porque, bem entendido, ele é infiel, mas ele é fiel a si próprio, no sentido de que aquilo que o atrai é o novo. De uma certa maneira, podemos imaginar que ele experimenta, sempre, a mesma coisa – é o que ele chama o “charme das inclinações nascentes” – quando se apaixona. É uma espécie de vacilo, de frêmito, de sair de si próprio. Se pensarmos em termos deste começo, é um homem que nunca renuncia. Cada vez que ele repete, ele recomeça. É a ilusão de recomeçar. Neste sentido, ele é verdadeiramente um mito. É um mito moderno? Sim, acredito ser um mito do indivíduo, no século XVIII. O que ele teria a ver com a supermodernidade ou a época atual: nós poderíamos relacioná-lo ao consumidor compulsivo, mas penso – isto me desagradaria, pois tenho simpatia por ele – esta é uma interpretação possível. Creio que, se Don Juan de Molière vivesse hoje, ele não tomaria as coisas seriamente. Ele seria o sacrilégio. Ele é sempre o sacrilégio, D. Juan. Portanto, diante do culto do consumo, diante das evidências que nos acenam ao longo do tempo, através da mídia, creio que ele não seria este homem do consumo. Eu imaginaria o D. Juan de hoje, mas ele teria – eu não sei o que ele faria – ele encontraria um meio de democratizar o que estamos habituados. Ele procuraria o verdadeiro rito, o rito que pode inaugurar, verdadeiramente, abrir as coisas. Porque D. Juan não é o homem da repetição simplesmente. Ele não recua jamais. Ele seria um suicida, desesperado – nós o podemos direcionar para muitas coisas, já que é um personagem de teatro. Ele não teria medo de enfrentar o que não crê.

(http://www.intercom.org.br/papers/nacionais/2007/resumos/R1560-2.pdf)

sexta-feira, 21 de julho de 2023

OS SINAIS DA IGREJA. Selvino Antonio Malfatti

 

 



A Igreja católica terá aumento de seu corpo eletivo. Será a nomeação oficial dos 21 novos cardeais no Consistório de 30 de setembro deste ano. 

A reposição de novas lideranças é uma medida de praxe de qualquer instituição.Toda organização que pretende subsistir no tempo deverá ter duas  preocupações básicas: garantir lideranças que deem continuidade às atuais e dotar de regras necessárias para sua continuidade externa e coesão interna.

Isto ficou claro com as novas medidas adotadas pelo Papa Francisco. Para garantir novas lideranças tomou a iniciativa de nomear 20 cardeais de uma só vez e as novas regras veem sendo implantadas aos poucos ao longo de seu pontificado. Estes novos cardeais lhe garantirão eleger seu substituto que lhe darão continuidade às reformas implantadas que se caracterizam por um progressismo conservador. O aspecto conservador seria o núcleo duro da doutrina, a essência: os dogmas. Neles ninguém toca. O progressismo seria aspectos não essenciais, mutáveis, sem atingir a doutrina. O complemento dos dogmas pode ser modificado, mas a essência não.  O Creio em Deus Pai é a síntese da Doutrina. Os mandamentos da Igreja seria um exemplo da não essência da fé.  Demos um exemplo de essência e secundário: sim à participação das mulheres na Igreja, mas não no sacramento: não abolição do celibato, mas sim padres casados; não ao divórcio, mas sim à tolerância às segundas núpcias; não ao aborto da criança, mas sim à vida da mãe; não ao sacramento da eucaristia para mulheres, mas sim à liturgia.

A nomeação repentina dos novos cardeais suscitaram algumas especulações políticas. Enumeremos algumas:

1.1Renúncia próxima de Francisco – O papa não quer deixar os católicos pegos de surpresa novamente, isto é, um conclave extra temporal sem orientação política.

2.  2.Rumos da Igreja para o futuro. Mais reformas, ou nada de reformas e concentração na missão missionária? Liturgia?

3.O papel dos jovens. Como assimilá-los? Cedendo mais? O que negociar e o que não?

4.4. Como assimilar os novos continentes? Ásia e África? Que forma tomará o catolicismo nesses países?

5 5.Mudança na ênfase política? Quando os primeiros cristãos perceberam que era inútil insistir com o judaísmo os apóstolos deixaram de dar ênfase neste povo e se voltaram para os gregos e depois romanos? Deixará a Igreja a Europa em segundo plano e concentrar-se á na América, África e Ásia e Austrália?

Seria útil saber a origem dos novos cardeais? Por que foi escolhido alguém de um país e não de outro. De um continente e não de outro? Seria apenas para cooptar a população e dar maior representatividade?

Atualmente o Colégio Cardinalício é composto por: 222 cardeais, dos quais 121 eleitores (com menos de oitenta anos) e 101 não eleitores.

 CONTINENTES

África

16

13,22%

América

35

28,92

Ásia

21

17,36

Europa

46

38,02%

Oceania

 03

2,48

                                                                                                          100%

LISTA DOS FUTUROS CARDEAIS:

Bispo François-Xavier Bustillo (Ajaccio, França)

Bispo Américo Manuel Alves Aguiar (Lisboa, Portugal)

Padre Luis Pascual (Buenos Aires, Argentina)

Arcebispo Robert Prevost (americano - Vaticano)

Arcebispo Claudio Gugerotti (italiano - Vaticano)

Arcebispo Víctor Fernández (argentino - Vaticano)

Arcebispo Emil Tscherrig (suíço - Vaticano)

Arcebispo Christophe Pierre (francês - Vaticano)

Arcebispo Pierbattista Pizzaballa (italiano em Jerusalém)

Arcebispo Stephen Brislin (Cidade do Cabo, África do Sul)

Arcebispo Ángel Rossi (Córdoba, Argentina)

Arcebispo Luis Aparicio (Bogotá, Colômbia)

Arcebispo Grzegorz Ryś (Lódz, Polônia)

Arcebispo Stephen Mulla (Juba, Sudão do Sul)

Arcebispo José Cano, (Madri, Espanha)

Arcebispo Protase Rugambwa (Tabora, Tanzânia)

Bispo Sebastian Francis (Penang, Malásia)

Bispo Stephen Chow Sau-Yan (Hong Kong, China)

Padre Ángel Fernández Artime (espanhol - Congregação Salesiana)

Arcebispo Agostino Marchetto (Vaticano)

Arcebispo Diego Rafael Padrón Sánchez (Cumaná, Venezuela)

Os brasileirosLeonardo Steiner e Paulo Cezar Costa


TUDO ISSO INDICA SINAIS DA IGREJA DO FUTURO  atendendo ao chamado do mestre antes de partir:

 “Ide por todo o mundo e pregai o Evangelho a toda criatura.!"

sexta-feira, 14 de julho de 2023

Viktor Frankl e a espiritualidade. José Mauricio de Carvalho

 



O mau uso dos ensinamentos de Jesus de Nazaré, transformados em trampolim político ou simplesmente pervertidos para enriquecer empresas que se apresentam como suas seguidoras, deu origem ao que um juiz da Suprema Corte nomeou de cristianismo do mal. Naquela ocasião mostrei que não há e nem haverá um tal cristianismo, mas existe a deturpação da mensagem de Cristo usada para o mal. E essas empresas que fazem isso acabaram não só deturpando a mensagem libertadora e sagrada do Filho de Deus, como provocam o adoecimento e a neurose de muita gente. Há casos em que essas empresas contribuem para aumentar a culpa ao focar no pecado e punições do Altíssimo e, assim, levar à depressão e multiplicar a baixa estima entre seus infelizes seguidores. Todas as ameaças colocadas a serviço do aumento de receitas da empresa, estimulada enlouquecidamente por quem deveria dar de graça o que de graça receberam. A frase “de graça recebestes, de graça dai” (Mt 10,8) mostra que o Filho de Deus não aprova a comercialização dos seus ensinamentos, embora pareça legítimo ao pregador ganhar uma retribuição por seu trabalho e o templo obter os recursos para sua manutenção. Porém isso está longe de autorizar o enriquecimento dessas instituições.

Se o mau uso dos ensinamentos evangélicos produzem neurose e baixa-estima, além de patrocinarem projetos políticos anticristãos, a mensagem religiosa que aponta para o alto e se mantém fiel aos ensinamentos de Jesus, não apenas oferece a porta de entrada para o Reino de Deus, mas ajuda o fiel a ter uma vida mais significativa e valiosa. Com base no diálogo com Deus, ele enfrenta com mais efetividade e confiança as adversidades naturais da vida e recupera-se mais facilmente dos problemas emocionais. Esses assuntos se tornaram objeto de estudo de uma linha de pesquisa psicológica que ganhou força e reconhecimento em Faculdades de Medicina mundo afora com a linha de pesquisa religião/espiritualidade e saúde. Próximo de nós, o melhor representante desses estudos é o NUPES da UFJF, dirigido pelo Dr. Alexander Moreira-Almeida que reúne a sua volta um talentoso corpo de pesquisadores.

No livro Viktor Frankl e a psiquiatria (Porto Alegre, MKS, 2019, 338 p.) e ainda mais em Viktor Frankl e o inconsciente (Porto Alegre, MKS, 2021, 348 p.) chamamos atenção para a importância de uma vida com sentido e do papel que a religião e a espiritualidade possuem como fator gerador de saúde mental, bem como para os desvios e razões para a negligência da transcendência na psiquiatria ocidental, devido a influência do positivismo e do materialismo nas Faculdades de Medicina. Os dois livros examinam os ensinamentos do filósofo e psiquiatra Viktor Frankl, um dos notáveis representantes da psicologia fenomenológica, cujo diferencial foi a revisão da psicanálise e a abertura ao transcendente estimulada pelos estudos que fez de Martin Buber.

É interessante a forma como essa linha de investigação psiquiátrica examina, com crescente interesse e isenção, os efeitos positivos da Religião/Espiritualidade na saúde mental. Esse assunto ganha diariamente novos estudos como mostrou recentemente H. G. Koenig no artigo Religião, espiritualidade e saúde: a pesquisa e as implicações clínicas. Ali ele diz que (KOENIG, H.G. Religion, Spirituality, and Health: The Research and Clinical Implications. ISRN Psychiatry. 2012 b; 2012: 278730. Published online 2012 Dec. 16.): “Na primeira edição do Handbook [27], identificou 110 estudos publicados antes do ano 2000 e 344 estudos publicados entre 2000 e 2010, totalizando 454 estudos. Entre esses relatórios estão descrições de como religião e espiritualidade ajudaram as pessoas a lidar com uma ampla gama de doenças e/ou uma variedade de situações estressantes.” 

E na cuidada síntese que H.G. Koenig produziu está demonstrado não só o aumento dos estudos sobre o assunto, mas a comprovada influência sobre a saúde mental de uma fé religiosa esclarecida. E quem diz isso são os atuais e cuidadosos estudos de medicina que foram antecipados por Viktor Frankl em seus trabalhos sobre a logoterapia. E os estudos resumidos por Koenig comprovam aquilo que filósofos como Karl Jaspers escreveram (Os mestres da humanidade, Coimbra, Almedina, 2003, p. 139): “Jesus demonstrou a libertação da angustia existencial no assumir da cruz.” E a quem ele se dirigia com seus maravilhosos ensinamentos (id., p. 136): “a qualquer pessoa que encontrasse. Todos lhe convinham. O importante era proporcionar a iluminação interior, através da qual crente vê e ama.” Assim, iluminados, eles abriam as portas do Reino de Deus.

sexta-feira, 7 de julho de 2023

O LEGADO DE ALAIN TOURAINE. Selvino Antonio Malfatti .

 


 


 

Em 9 de junho deste, apagou-se para este mundo o sociólogo francês Alain Touraine. Mas o legado que deixou foi enorme.

Um olhar sobre o mundo atual constatam-se diversos movimentos sociais reivindicatórios. Estes movimentos são caracterizados pela forma pacífica que atuam. Abrigam pessoas de todas as categorias sociais, status, classes, estratos. Não se pode dizer que haja um racha social dividindo pessoas, grupos ou populações. A participação nesses movimentos é livre tanto para entrar como para sair. Podemos citar movimento das mulheres para as igualdade com os homens e parte do mundo árabe, os movimentos de protestos contra a reforma na aposentadoria na França, movimentos políticos em diversos países da América do Sul pela democracia, movimentos feministas como LGBT, movimentos religiosos, movimentos negros, movimentos políticos conservadores e progressistas, movimentos pró-ambiente e outros.

Isto é possível atualmente devido em parte a Alain Tourraine, sociólogo francês.  Em Touraine os conflitos de classe e acordos políticos constituem o fermento da ação social.Para ele, a América Latina possui um problema sócio-político comum: Estado, Sociedade e Sistema político estão misturados, devido ao nacional-populismo. Os líderes políticos latino-americanos, no afã de afastar as rupturas impostas pelo modelo desenvolvimentista importador, rupturas que poderiam provocar desagregações no modelo tradicional, encetaram uma ação de controle coletivo. Para tanto, os políticos lançam mão do Estado para impor sua autoridade.Com certeza a importação de tecnologia e capitais externos criaria novos atores políticos, ou outra elite, a qual competiria com a que mantém o "status quo", ameaçando seus privilégios e mesmo sua legitimidade política. A modernização do país necessitaria de novos líderes, que estivessem familiarizados com a nova tecnologia e mesmo ambiente sócio-político mais amplo, senão global. Ora, isto colidiria de imediato com a classe política tradicional. O apelo se faz, então, no sentido de que as classes menores favorecidas e a que mais sofre com as importações, se defendam da proletarização. A elite política tradicional demagogicamente assume a defesa dos indefesos, da cultura popular, das tradições da nação. Mas para chegar a tal desiderato é preciso canalizar a força do Estado em prol da causa. Daí que o sistema político é moldado instrumentalmente para conseguir seu objetivo, qual seja, construir uma fachada popular para evitar o controle popular. O controle que a sociedade deveria manter sobre a classe política, é transformado em apoio popular. E como a classe política é a timoneira do Estado, a confusão está concretizada. A forma de burlar o controle é feita pelo apelo direto ao povo, driblando as formas de representação. Para a tarefa discursiva de convencimento, são chamados os intelectuais, os quais não só emprestam sua sabedoria, como se locupletam também das benesses do Estado. Após o domínio do Estado, a classe política organiza as instituições de conformidade com seus interesses. Todo o conjunto institucional pauta-se pela defesa dos interesses ditos nacionais. Num sistema desses, o conflito é visto com ojeriza, uma verdadeira anomalia. Os conflitos de classe não fazem sentido em tal sistema. Aos conflitos são contrapostos valores nacionais, os quais neutralizam os conflitos.

Por isso a ação é no sentido de visar à integração da coletividade nacional, de identificar povo e poder constituído. Nesse sentido são antioligárquicos, antielitistas e igualitários. A classe política, em regimes nacional-populistas, não se preocupa com o desenvolvimento, embora o discurso o proclame, nem com a superação das estruturas arcaicas, embora se proclame de progressista.

 

Em síntese, conforme Touraine, um regime nacional-popular caracteriza-se por um Estado guardião da nacionalidade, contra a invasão bens e cultura estrangeira; por instrumentos políticos e sociais de controle social; pela promoção da cultura nacional e popular.

sábado, 1 de julho de 2023

O lugar de nossa habitação, uma área no coração da terra. José Mauricio de Carvalho

 





A habitação é onde moramos, pode ser uma casa, uma cidade, um espaço ou mesmo nossas memórias. Uma cidade como Guarani, com seu vale onde corre o Rio Pomba e suas montanhas cobertas de verde, uma região como a da mata nas Minas Gerais, os costumes que nossos avós plantaram em nossos corações e formam nossa segunda pele. Habitamos tudo isso.

Pensadores contemporâneos identificaram dificuldades nesse nosso habitar o mundo. Edmund Husserl, criador da fenomenologia, entendeu que boa parte de nossas dificuldades atuais têm raízes na forma de pensar da ciência moderna que, por sua relevância cultural, alimentou uma visão materialista de natureza e favoreceu um critério naturalista de verdade. Isso devido ao impacto trazido pela noção de verdade das ciências da natureza e ao sucesso que elas têm no controle e manuseio do mundo. Por isso, Husserl concluiu que muitas de nossas dificuldades tiveram origem na matematização das mentalidades, ocorrida em meio a tentativa do homem moderno de descrever a natureza e a verdade matematizando a realidade.

A ciência moderna não é ruim e nem causa crises, ela é nossa força e a melhor arma na construção de nossa habitação. Porém, a dificuldade identificada por Husserl está nos comportamentos à volta dela como: a generalização do critério de verdade quantificável e a sensação de que podemos fazer tudo aquilo que a técnica permite. Essas atitudes são guias morais e foram desenvolvidas a partir de uma metafísica positivista. Essas atitudes sim, criaram dificuldades.

Todo esse imbróglio está em reconhecer o valor e a importância da preservação ambiental que o nosso jus filósofo Miguel Reale denominou invariante axiológica. O embaraço não é pequeno porque sabemos que a vida e as atividades humanas demandam o uso dos bens naturais.

O homem só cria cultura quando altera e se aproveita da Natureza. Estamos descobrindo, em meio a dificuldades, que as alterações no mundo natural não podem destruir o equilíbrio natural, isto é, têm limites nele. Temos que nos distanciar da visão positivista que via a natureza como um animal a ser submetido e explorado ao limite.

Precisamos deixar para trás a visão romântica da Natureza, imaginando que ela funciona para ser boa. A natureza não atende a requisitos morais, nem favorece deliberadamente os projetos humanos. No entanto, certas condições naturais ajudam a manter a vida no planeta e é esse equilíbrio o valor a ser cuidado, modificá-lo dificulta e depois inviabiliza a vida.

Até algumas décadas essa não era uma questão relevante, nesses últimos tempos tornou-se. Para que rios como o Pomba continuem correndo, para que matas cresçam verdes, para que a chuva alimente a terra e faça brotar a semente em nossas fazendas, não podemos continuar indefinidamente ampliando fronteiras agrícolas, derrubando florestas, destruindo ecossistemas e matando animais. Se a ciência ampliou o espaço de atuação do homem e a técnica aumentou nossa capacidade de mudar e aproveitar o mundo, ela agora mostra os limites de nossa habitação. Não se pode ir passar a boiada por cima de tudo simplesmente, por que a desregulamentação e a destruição ambiental nos levarão rapidamente a uma situação insustentável. Os resultados da ação desmedida do homem já aparecem nos eventos climáticos extremos, o preço que pagaremos, muito rapidamente, depende de nosso juízo para lidar com esses assuntos.


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