sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

A insensibilidade moral de nossos dias. José Mauricio de Carvalho.






O sociólogo Zygmunt Bauman se esforçou para mostrar que as mudanças na sociedade decorrentes da globalização e das transformações na economia dela decorrente, alteraram a vida quotidiana e a rotina das pessoas. A própria mudança do sujeito em mercadoria que é parte desse processo contribuiu para isso. A forma de vida estimulada pela sociedade de consumidores provocou alterações profundas na rotina das pessoas e na vida de família. Toda uma preocupação em consumir substituiu o tempo do afeto e dos encontros por compras e presentes. O afeto passou a ser demonstrado com a oferta de presentes.
Entre as transformações mais significativas dessa sociedade de consumidores, onde a essência da vida ida são as compras, está a criação de um grupo de excluídos absolutos que quase não consomem. São os consumidores falhos ou aqueles que deixam de cumprir seu papel de compradores e se tornam plantas indesejadas do jardim social, ele o compara em Vida para o consumo. Esses indivíduos são como (BAUMAN, Vida para o consumo, 2008 b, p. 158): “ervas daninhas, feias porém vorazes, que nada acrescentam à harmoniosa beleza do jardim e deixam as plantas famintas ao sugarem e devorarem grandes partes de seus nutrientes.” Ser parte da sociedade significa cumprir seu papel como utilizador de bens sem consumir recursos do Estado para a manutenção de incapazes de comprar. Os pobres tornaram-se inúteis criaturas dessa sociedade que emergiu da globalização. Ela os marginalizou e lhes ofereceu a ilusão de que haveria um lugar onde eles poderiam ser felizes. Estamos diante de uma lógica recente, ainda que os pobres pudessem ter um papel de pequena relevância em outros tempos. Atualmente eles são (id., p. 160): “reclassificados como baixas colaterais do consumismo, os pobres são agora, e pela primeira vez na história registrada, pura e simplesmente uma amolação.”
Como são indesejáveis, desamparados e inúteis podem ser retirados dos lugares públicos e se possível enviados para além das fronteiras. O que se lhes passa não interessa. Se a insensibilidade moral cresce em nossos dias em todos os campos da vida social, são esses indivíduos os que estão em pior condição.
A dormência moral é sintoma grave de enfermidade social porque quando se avaliava o que foi feito pelos nazistas, nada parecia errado ou inadequado, mesmo para pessoas comuns que se consideravam boas e éticas. Isso foi assim porque (id., p. 162/3): “as vítimas de violência, que há muito tempo não eram consideradas membros da família humana, não deviam ser alvos de empatia e compaixão moral.” Assim, quando alguém é colocado fora da sociedade, ou perde sua humanidade, e é visto como ameaça a ela, esses indivíduos são empurrados para fora, sem culpa e sem constrangimento.
E o que é mesmo essa insensibilidade? O sociólogo aprofundou o assunto em Cegueira moral que se tratava de um tipo de (BAUMAN e DONSKIS, 2021 c, p. 20): “comportamento empedernido, desumano e implacável, ou apenas uma postura imperturbável e indiferente, assumida e manifesta em relação aos problemas e atribulações das pessoas.” Algo como o entorpecimento dos sentidos para o sofrimento que se passa ao lado, uma anestesia à dor do outro. Trata-se da incapacidade de notar que algo está ruim no meio social e que não percebemos que a situação está piorando.
O que o sociólogo considerou, portanto, como um entorpecimento moral era pois a ausência (id., p. 16): “de reação ao sofrimento de outra pessoa, quando nos recusamos a compreender os outros, quando somos insensíveis e evitamos o olhar ético silencioso.” Deixar um estranho sofrer ou morrer considerando isso adequado é a forma de maldade que surgiu em nossos dias. Nessa nova versão do capitalismo, o sucesso nos negócios, o crescimento do país se coloca acima das pessoas e de seu destino. E a dormência moral se mostra quando deixamos alguém sofrer ao nosso lado, alimentando amigos nas redes sociais, deixando de ouvir quem sofre ao nosso lado em nome de relações imaginárias, discriminando, por exemplo, o migrante convivendo com a injustiça e seu sofrimento. Conferir dignidade ao outro, esse é o desafio para enfrentar o mal que se espalha em nossos dias.
Portanto, a insensibilidade ao sofrimento alheio é resultado de eles serem apresentados como demônios que atormentam a alma (BAUMAN, 2008 b, p. 168): “sua guetização e criminalização, a severidade dos sofrimentos que lhes são ministrados e a crueldade geral do destino que lhes cabe são – em termos metafóricos – as principais formas de exorcizar os demônios interiores.” O sociólogo mostrou os problemas que o homem comum e geralmente tido como bom (BAUMAN e DONSKIS, 2021 c, p. 15): “cria para o outro, recusando-se a conceder-lhe individualidade, mistério, dignidade e uma linguagem sensível.” Isso naquele sentido já identificado por Hannah Arendt de que um banal burocrata pode fazer um grande mal quando é incapaz de refletir criticamente sobre o que faz. E, o que o sociólogo acrescenta, é que é um fenômeno amplo. Ele não foi algo específico da Alemanha nazista, pode acontecer em toda a parte. E há ainda outro tipo de mal, mais extenso e nefasto, quando ele é visto como ação não de um indivíduo propriamente, mas de uma comunidade ou subclasse.
Bauman mostrou, a partir dos estudos de Auletta, que a subclasse dos consumidores falhos não se identifica perfeitamente com a pobreza, há entre esse grupo pessoas cujo comportamento é anti-social, inclui a recusa de valores, etc. Assim, mesmo se a pobreza for combatida, esse subgrupo continuará existindo, mas a questão econômica parece ser o fator mais importante na formação dessa classe. Trata-se do fator mais importante no seu estabelecimento. Ao se esforçar para consumir e fugir do estigma, esse indivíduo acaba ainda mais pobre. Por isso, sem algum amparo que ajude essas pessoas mais pobres, elas considerarão seus direitos políticos inúteis. Assim, Bauman lê as mudanças sociais provocadas por aquilo que ficou conhecido como neo-liberalismo da era Thatcher e Regan como a eliminação das preocupações sociais do Estado. Isso passou a se assumido por diferentes governos que se seguiram a era Tatcher – Regan.
A negligência moral ao sofrimento do outro tornou-se, avaliou o sociólogo, uma marca de nossos dias, ela é alimentada pelo consumo de bens e é sufocada antes de se tornar incômoda. Um descaso alimentado pelo consumo irrefreado considerado um ato moral e adequado numa sociedade que vê nas lojas e shoppings o remédio para aplacar as dores morais.
Clara Lucia Delage Lemos
Misericórdia Senhor!
Ana Lucia Monteiro de Assis
Falou muito bem, Professor
Adelmo José da Silva
Parabéns, Mauricio!
Um artigo muito interessante e oportuno.
Bruno Cunha
Interessante observar como esse consumismo chegou às igrejas e subverteu a mensagem da religião. Estes mesmos, que entendem a religião como troca de mercadoria, padecem de completa "dormencia moral". Odeiam pobres, minorias, são indiferentes ao sofrimento alheio e aversos a tudo que é diferente.
Bruno Cunha
Bauman é uma das vozes mais lúcidas da filosofia moral e política do século XX - XXI.
Lygia Toledo
Em interessante linguagem poética, uma amostra dos males da globalização. O consumo desenfreado, o afeto relegado a presentes, os excluídos ou os "indesejáveis" do jardim social... As lamentáveis "ervas daninhas". Uma perfeita e triste análise sobre os pobres e uma triste realidade ilusionista!

sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

FUNDAMENTO FILOSÓFICO DO FEMINICÍDIO. Selvino Antonio Malfatti

 

     



O feminicídio é uma transgressão moral que agride a vida da mulher por ser mulher. Outras agressões têm motivos econômicos, de poder ou sexo, o feminicídio tem por alvo a mulher por ser mulher.[i]

Teve como primeira teorizadora Marcela Lagarde, antropóloga, que lançou seus fundamentos. Saffioti e Segato, abordam aspectos Histórico-culturais. De nossa parte, uma  fundamentação filosófica, com os pensadores Butler  e Beauvoir e Antonio Paim.

Filosoficamente o feminicídio é uma transgressão moral. Não é, porém, qualquer transgressão, mas uma transgressão moral radical, pois atinge ontologicamente o ser,  o próprio constitutivo primeiro do ser ético, a sua dignidade enquanto fundamento universal de valor. Não se trata de uma simples infração moral, mas de uma ruptura extrema com a possibilidade de convivência ética.

Se quisermos estabelecer uma analogia esta poderia ser a do pecado mortal na religião. Alguém em pecado mortal está excluído da graça e, portanto, fora da comunhão dos eleitos. Está morto. O perdão e a reparação são condições para a readmissão à vida

Na filosofia podemos afirmar com Kant que é a violação absoluta do imperativo categórico, pois o agressor deixa a mulher na condição de coisa ferindo mortalmente a própria natureza humana.

Na dimensão da existência Levinas entende o feminicídio como a sucumbência da ética enquanto responsabilidade pelo outro. É a negação do rosto da mulher, sua alteridade, pela eliminação.

Em Arend é a banalização extrema da violência: a eliminação de seu alter como algo normal, sem outro princípio que não seja sua vontade. É como um açougueiro que mata não pelo prazer, nem por vingança, nem por necessidade, mas ofício.

Por isso, filosoficamente, o feminicídio é compreendido como uma transgressão moral suprema: ele rompe com a estrutura ética que possibilita o mundo comum, destrói a alteridade e produz uma ferida ontológica no próprio conceito de humanidade.

Por sua vez, no pensamento luso-brasileiro há outra interpretação. É a busca do problema presente na filosofia de cada sociedade, país, nação. Conforme Antonio Paim, no Brasil e Braz Teixeira de Portugal, o problema consiste na cultura. Para tanto o Feminicídio é um problema cultural. Isto significa que se pode explicar o feminicídio através de um ethos cultural subjacente no pensar, agir e sentir da sociedade brasileira.  Como é o entendimento cultural do gênero no Brasil? O feminicídio é o resultado de uma cultura arraigada na sociedade.  Desde os tempos coloniais prevalece hegemônica a ideia da superioridade do gênero masculino sobre o feminino. Na família à mulher cabem as tarefas domésticas, criação e educação dos filhos. O mando político e econômico cabe ao marido. A mulher está subordinada ao marido, ao gênero masculino. Numa sociedade patriarca tal estrutura foi possível mantê-la porque a mulher estava subjugada, submissa. Quando a mulher consegue romper a estrutura patriarcal através da emancipação profissional, educacional e econômica há uma mudança cultural. Por si só foi bem recebida. Mas alguns setores resistiram à mudança. E do confronto das duas estruturas – a remanescente patriarcal e liberal - emerge o conflito. Para o estrato arcaico patriarcal a nova posição da mulher é inadmissível e  parte-se para eliminar mulheres que assumem o novo comportamento,  E o faz agredindo física e psicologicamente, por ser mulher. É o feminicídio. Evidentemente há outros fatores que corroboram para o fenômeno podendo ser citados a misoginia estrutural, falhas dos sistemas de proteção, violência doméstica, desigualdades socioeconômicas e impunidade históricas.

Enquanto o fenômeno for esporádico, aqui ou ali, a própria justiça consegue controlar. É como uma doença. Os casos isolados são controláveis pelos meios comuns. Quando, porém, se transforma em epidemia faz-se necessário mobilizar toda sociedade com seus recursos para combater. É o caso do feminicídio atual. Virou epidemia, como a COVID-19 e como tal deve ser enfrentada. um estado de guerra.  Reunir todas as forças da sociedade, desde a justiça até movimentos poupares. O combate ao feminicídio não pode se restringir a políticas penais ou de segurança. É necessária uma reconfiguração ontológica e ética da maneira como a sociedade compreende o feminino. Isso inclui educação para igualdade, desconstrução de estereótipos, fortalecimento das redes de proteção e responsabilização social e institucional. No âmbito institucional podem ser citadas: ações legislativas, políticas públicas e programas de proteção focados em combater a violência contra a mulher.


[i] Até o momento se entende feminicídio de uma ação de morte de homem sobre a mulher. Sabemos, no entanto, que a mesma ação ocorre com casais gays, que podem ser ou dois do gênero masculino ou dois do feminino. 


quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

Entre a esperança e a circunstância. José Mauricio de Carvalho





O ano de 26 já chegou. Todos os anos na época da virada, quando olhamos cada rosto, percebemos algo diferente nos olhares. De um lado, tudo o que se é, todas as limitações que estão na alma (sentimentos em geral) ou no corpo contrastam com os planos do espírito (pensamento) livres e esperançosos. E aí se revela uma distância entre essas dimensões do que se é e do que se projeta viver. Um misto de apreensão e alegria. Penso: no ano novo lidarei melhor com meus limites, os do corpo e também vou dialogar melhor com as dores da alma e com tudo aquilo que eu trouxe de meu passado. O espírito faz esses planos cheio de esperança.
E, nesse diálogo íntimo entre limites e sentido, encontra-se o eixo central de nossa existência. Trata-se de uma conversa íntima que se renova a cada passagem do ano. E isso porque a vida consiste em somar anos, uma conta de adição cuja soma diminui o tempo que resta para viver. Tempo para realizar, aprender, construir novas coisas, ressignificar e viver melhor. Ressignificar é atualizar o sentido, introduzindo nele uma leitura de mundo que o traga para mais perto da nossa compreensão atual das coisas. No entanto, essa conta de adição que termina em subtração mostra que a vida passa rápido e não teremos a eternidade para aprender a viver e olhar com mais generosidade nosso passado. Nesse sentido, trabalhamos na clínica para agilizar esses processos de aprendizagem e ressignificação. A vida pede paciência para entender e viver os processos, mas urgência para implementá-los.
E há uma grande relevância nessa aprendizagem, pois se passamos a ressignificar o que já passou podemos fazer isso várias vezes. Porque à medida que amadurecemos podemos olhar aquilo que nos machucou ou faltou com outros olhos. Assim, o desafio do amadurecimento nos coloca em permanente estado de reconstrução. A clínica é parte desse processo. Não apenas ajuda a ressignificar o passado, mas ressignificar de maneira contínua o passado, pois quanto mais maduros, mais íntegros nós somos, mais as coisas ficam diferentes do que nos pareceram no passado. A falta de um presente na infância pode ter sido uma grande frustração naqueles dias, um fato compreensível pela circunstância da família na meia idade e, na maturidade, uma lembrança de grande saudade dos tempos em que, mesmo na pobreza, a presença dos pais, o afeto dos irmãos, a força da juventude e a vitalidade da infância eram presentes da vida pouco conscientes. Tudo o que é essencial existia, mas só conseguimos ver o que mais conta com os olhos da experiência.
E, por imaturidade, esperamos demais para agradecer as pessoas que cuidaram de nós, esperamos muito para dar carinho aos que nos criaram e educaram. E as vezes fazemos o mesmo conosco, não nos mimamos com bons livros, não escutamos as canções que enchem nossa alma de alegria, estudamos menos do que queríamos e não alargamos o espírito, não usamos bem nossas experiências, não as utilizamos para alimentar a alma.
E também demoramos a enxergar aquelas coisas simples que Deus nos oferece e faz nossa vida ser boa. Somos desafiados a enxergar o que na vida mais vale, isso antes que a doença transforme em lembranças e culpa pelo não vivido, não rezado e não agradecido. Podemos usar essa compreensão para alimentar as orações de agradecimento por tudo o que nos foi dado e pelo que poderemos ser.
Enfim, o ano que entra é uma oportunidade renovada para nos tornarmos os protagonistas de nossa história e não os ajudantes de palco ou funcionários de bastidores do teatro de nossa existência.

sexta-feira, 26 de dezembro de 2025

1º DO ANO. Selvino Antonio Malfatti

 


1º do ano celebra-se o Dia da Confraternização Universal, embora não coincida necessariamente com o primeiro dia do ano para todos os povos e culturas. No calendário gregoriano, adotado majoritariamente no Ocidente, o primeiro dia do ano civil coincide com essa data simbólica de fraternidade. Contudo, para uma parcela significativa da humanidade, o início do ano ocorre em datas distintas, segundo calendários próprios, de natureza religiosa, astronômica ou cultural, razão pela qual não se identifica com o 1º de janeiro.

O Dia da Confraternização Universal, contudo, deve ser compreendida menos como uma data cronológica e mais como uma instituição simbólica. Sua consolidação ocorreu ao longo do século XX, especialmente a partir da proposta do papa Paulo VI, que, em 1967, instituiu o Dia Mundial da Paz, celebrado em 1º de janeiro, incentivando votos de fraternidade, justiça e solidariedade entre as nações. Posteriormente, a Organização das Nações Unidas (ONU) passou a reconhecer e difundir o 1º de janeiro como um dia dedicado à fraternidade entre os povos, integrando-o ao seu calendário simbólico de promoção da paz e dos direitos humanos.

Há, portanto, uma ligação profunda entre o Dia da Confraternização Universal e a Declaração Universal dos Direitos Humanos, proclamada pela ONU em 1948. Pode-se afirmar que a celebração de 1º de janeiro representa uma continuidade ética e simbólica dessa Declaração, reafirmando, a cada novo ciclo, o compromisso da humanidade com a dignidade da pessoa humana, a paz entre as nações e a fraternidade universal.[i]



[i] Dirigimo-nos a todos os homens de boa vontade, para os exortar a celebrar o « Dia da Paz », em todo o mundo, no primeiro dia do ano civil, 1 de Janeiro de 1968. Desejaríamos que depois, cada ano, esta celebração se viesse a repetir, como augúrio e promessa, no início do calendário que mede e traça o caminho da vida humana no tempo que seja a Paz, com o seu justo e benéfico equilíbrio, a dominar o processar-se da história no futuro. ( Papa Paulo VI


quarta-feira, 24 de dezembro de 2025

NATAL. José Mauricio de Carvalho e Selvino Antonio Malfatti.

 




De todas as festas da Igreja, igualmente importantes para o conhecimento do plano salvífico de Deus, o Natal é aquela que mais de perto toca o nosso coração. E o faz pela ternura e significado do que é comemorado. No natal Deus não se manifesta poderoso, altíssimo, cheio de força, glória e esplendor. Ele se apresenta como uma criança comum, cuja vida é já o milagre. Em cada criança que nasce, Deus oferece a oportunidade do seu Reino, como naquela criança de Belém (Gálatas, 4, 4-5): “quando chegou a plenitude do tempo, Deus enviou seu Filho, nascido de mulher, nascido debaixo da Lei, a fim de redimir os que estavam sob a Lei, para que recebêssemos a adoção de filhos.” E a descrição desse fato grandioso é singela (Lc. 2, 4-7): “Assim, José também foi da cidade de Nazaré da Galileia para a Judeia, para Belém, cidade de Davi, porque pertencia à casa e à linhagem de Davi. Ele foi a fim de alistar-se, com Maria , que lhe estava prometida em casamento e esperava um filho. Enquanto estavam lá, chegou o tempo de nascer o bebê, e ela deu à luz o seu primogênito. Envolveu-o em panos e o colocou numa manjedoura, porque não havia lugar para eles na hospedaria. 

FELIZ NATAL. 

Selvino Antonio Malfatti e José Mauricio de Carvalho.


quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

Natal, um convite para dialogar com Deus. José Mauricio de Carvalho

 



As festas mais importantes da cristandade são: o Natal, a Páscoa, Pentecostes e Corpus Christi. Elas são momentos fundamentais de um diálogo com Deus onde a Igreja considera: o plano maior do Pai para a humanidade e a encarnação do Filho, a morte e ressureição do Filho como plano salvífico do homem, a presença real do Espírito Santo de Deus e a permanência de Jesus no mundo como sacramento. São todas elas um convite que a Igreja faz para um diálogo pessoal com Deus, para meditar sobre seus planos, para descobrir nosso lugar único na construção de um mundo melhor e feito para irmãos. Jesus de Nazaré chamou o resultado desse diálogo de Reino de Deus. Esse Reino é uma forma de viver, não uma realidade física, mas um compromisso moral e de fé. O Reino está em toda parte onde houver o diálogo, o encontro com Deus e com os irmãos. Ele não vem com milagres, festas e barulhos, sua realidade é já o milagre e a recompensa. Esse Reino é regido por Deus, alimentado por sua presença. Podemos participar dele ou não.

De todas as festas da Igreja, igualmente importantes para o conhecimento do plano salvífico de Deus, o Natal é aquela que mais de perto toca o nosso coração. E o faz pela ternura e significado do que é comemorado. No natal Deus não se manifesta poderoso, altíssimo, cheio de força, glória e esplendor. Ele se apresenta como uma criança comum, cuja vida é já o milagre. Em cada criança que nasce, Deus oferece a oportunidade do seu Reino, como naquela criança de Belém (Gálatas, 4, 4-5): “quando chegou a plenitude do tempo, Deus enviou seu Filho, nascido de mulher, nascido debaixo da Lei, a fim de redimir os que estavam sob a Lei, para que recebêssemos a adoção de filhos.” E a descrição desse fato grandioso é singela (Lc. 2, 4-7): “Assim, José também foi da cidade de Nazaré da Galileia para a Judeia, para Belém, cidade de Davi, porque pertencia à casa e à linhagem de Davi. Ele foi a fim de alistar-se, com Maria, que lhe estava prometida em casamento e esperava um filho. Enquanto estavam lá, chegou o tempo de nascer o bebê, e ela deu à luz o seu primogênito. Envolveu-o em panos e o colocou numa manjedoura, porque não havia lugar para eles na hospedaria.”

A presença de Jesus no mundo instaura o Reino, porque a criança de Belém nos coloca, a cada ser humano diretamente, diante do dilema: ou o aceita ou o rejeita. E a resposta é existencial, não somente com palavras. Ele o explicou, trata-se de acolhê-lo com a vida, a fé e as obras. Trata-se de viver com amor na casa comum, com respeito à natureza que Deus nos ofereceu, em paz com os irmãos e, finalmente, com Ele próprio. Portanto, o natal, a singeleza da ocasião e a simplicidade da chegada da divina criança nos mostra efetivamente o sentido do Reino. Ele é espaço da fraternidade. Não há Reino quando o sofrimento dos mais simples não nos toca; não há Reino numa sociedade injusta e que nada faz para melhorá-la. Não há cristianismo em nada disso.

O sociólogo Zygmunt Bauman avaliava que sem religião a sociedade humana não encontraria meios de administrar o caos de suas relações e não conseguiria dar respostas adequadas a elas. O processo da destruição de Deus teria começado, segundo ele, na modernidade sólida. Porém, ao contrário do que ele avaliou, a modernidade não eliminou Deus, mas a confiança na razão e a esperança num mundo racional apenas o eclipsou, como melhor descreveu Martin Buber. O problema que enfrentamos hoje em dia é que o cidadão comum não se ocupa de questões profundas de qualquer natureza e nem reconhece suas próprias limitações para estabelecer relações pessoais significativas. Ele vive na imediatez, na busca do prazer, nas ocupações diárias de um trabalho esgotante e absorvente, na distração superficial dos momentos de descanso e está perdido na provisoriedade dos dias. Ele até admite uma religião e um Deus poderoso, mas isso não o livra do tédio, pois não constitui uma crença esclarecida e nem o conduz a um diálogo pessoal com Deus, como o filósofo Martin Buber sugere ser o fundamento da fé.

O homem comum de nossos dias, de modo geral, possui, quando tem, uma fé superficial (com teor moralizador) simplificadora da realidade e dicotomizada (nós os bons crentes e eles os maus), trata-se de uma crença descontextualizada, ideologizada, com um pano de fundo violento, radical, que é contrária aos ensinamentos da ciência que não confirma sua crença, com déficit moral (deseja o pior aos outros), possui medo do novo, do diferente, do estrangeiro, do estranho. Enfim, mais que ostentar uma fé que se abre ao transcendente, ele vive um conservadorismo adoecido de fundo religioso, que demanda um líder forte, um religioso radical que pense e lhes dê direção ou mesmo um líder político que o dirija no mesmo sentido (um guia, um Führer, um Duche), já que o indivíduo não tem capacidade de conversar com a realidade, de entendê-la. Ele não escuta quem entende e espera tornar-se protagonista do cenário.

Num tal cenário, desejo que a festa do natal ofereça a oportunidade, a cada pessoa de boa vontade, de aprofundar o sentido da cristandade e aprender a enxergar o que Deus espera de dele nesse mundo.

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