sexta-feira, 3 de setembro de 2021

Sete de setembro, o Estado para uma nação. José Mauricio de Carvalho.

 



A geração pombalina começou a preparar a transição em Portugal da monarquia absoluta para uma monarquia representativa. Era o século XVIII e o iluminismo oferecia um novo olhar para o mundo. Emergia, naqueles dias, a confiança na capacidade da razão conhecer o mundo, escolher a justiça e organizar a política. Acreditava-se no progresso dos povos e melhoramento das sociedades pelo uso da inteligência e distanciamento dos radicalismos e fanatismos, com tripartição do poder estatal, liberdade religiosa e civil. Um poder absoluto e autoritário não parecia coisa aceitável para cidadãos daqueles dias.

Então pensavam os portugueses em dar um novo rumo a sua organização política, mas um fato mudou as prioridades no início do século XIX, a ameaça napoleônica. Então a segurança do Estado lusitano ganhou urgência e a família real veio para o Brasil, um lugar mais seguro para ser a sede da monarquia lusitana, longe das disputas políticas da Europa. E a vinda do rei mudou a vida na antiga colônia, surgiu a Biblioteca Nacional, o Jardim Botânico, fundaram-se as Escolas Superiores, criou-se a Imprensa Régia, houve a abertura dos portos ao comércio e muitas outras ações para solidificar o novo centro do Império Lusitano. Quando o rei retornou a Portugal doze anos depois da chegada, para apaziguar disputas internas, não sendo mais Napoleão Bonaparte uma ameaça, deixou para traz um povo com lideranças conscientes de sua singularidade e importância. Os habitantes do Reino já não mais concordariam em retornar a condição anterior à estada do rei.

Assim, quando Portugal tentou fazer as coisas retornarem ao que antes eram percebeu que não mais seria possível. O jovem imperador que Dom João VI deixara aqui foi sensível a esse sentimento autóctone e desejo de autonomia e liberdade. Então ele comandou o processo de independência política, com rápido êxito e poucas resistências. Afinal, era Pedro I o mesmo monarca de antes, herdeiro do trono português, apenas agora na frente de um Estado independente. As dificuldades para estabilizar o poder foram vencidas e surgiu o Império do Brasil.

O Império brasileiro nasceu com algumas contradições, tinha uma raiz liberal construída por Silvestre Pinheiro Ferreira e pela geração pombalina, mas continuava escravocrata, tinha um Imperador culto, mas um povo pouco estudado, ansiava pela liberdade religiosa, mas vivia sob o padroado. No entanto, manteve a estabilidade política e a força da inteligência de seu chefe: D. Pedro II, pelo menos na maior parte do tempo. Não era preciso provar a validade da ciência e de seus resultados, até os pouco estudados a reconheciam. Lutava o governo central para assegurar a unidade do Estado e a unidade dos brasileiros diante de revoltas regionais. A República, no final do século XIX, deu o passo que faltava no que se refere a separação entre Igreja e Estado e na confiança definitiva da ciência, mas perdeu a estabilidade institucional com as revoluções que protagonizou.

Nas últimas três décadas, finalmente, alcançamos uma razoável estabilidade política, o vigor das instituições da República cresceu e parecíamos manter outros consensos fundamentais ao Estado Moderno: investimento na universidade pública, confiança na ciência, separação Estado x Igreja, preservação dos direitos civis e humanos, preservação ambiental, estado de direito, independência entre poderes. Porém, de repente, o produto de décadas encontra-se sob suspeição. Que a festa da independência seja a reunião de uma pátria unida e respeitosa desses consensos que foram construídos durante anos de esforço e esclarecimento. Isso porque é antigo como o Evangelho (Mt. 12,25): "Todo reino dividido contra si mesmo será arruinado, e toda cidade ou casa dividida contra si mesma não subsistirá.” Que a festa do Brasil não seja um passo para trás na nossa história.


sexta-feira, 27 de agosto de 2021

A “ERA MERKEL” . Selvino Antonio Malfatti.

 



Angela Dorothea Merkel em 2021 deixará o governo da Alemanha. Emplacou quatro mandatos estando no poder desde 2005.

Já mereceu um livro. É de Paulo Valentino ( Marsílio) que escreveu sobre Merkel, a “Era Merkel” ( The Age of Merkel). A trajetória propriamente política nacional iniciou-se 1990 com a eleição para o Bundestag, o Parlamento da República Federal da Alemanha. 

Já no ano seguinte foi nomeada ministra da Mulher e da juventude, ocupando o cargo até 1994. Era a mais jovem ministra do chanceler Em 1991 foi nomeada ministra da Mulher e da Juventude, permanecendo até 1994. Era a mais jovem ministra do chanceler Helmut Kohl. Em seguida nomeada ministra do Meio Ambiente e da Segurança Nuclear, ocupando o cargo de 1994 até 1997. Em 1998 casou-se como professor universitário de química quântica, Joachim Sauer.

Em 1998 foi nomeada secretária geral da CDU. Após isso explode o escândalo envolvendo Kohl. Merkel publica uma carta denunciando o chanceler e insinuando numa carta aberta que “era hora dele abandonar a política”. Em 2000 Merkel foi eleita presidente da União Democrata Cristã, cargo este que a tornava virtual candidata a chanceler para 2005. No mesmo ano foi escolhida Pela coligação União Democrata Cristã / União Social Cristã para concorrer a chanceler. Em 22 de novembro vence as eleições com 397 votos favoráveis dentre os 611 do Parlamento.  Com isso, tornou-se a primeira mulher na chefia do governo da Alemanha e a primeira mulher chanceler provinda da Alemanha Oriental.

A partir desta data, 2005, Merkel foi eleita sucessivamente em 2009 (2ª), 2013 (3ª), 2018 (4ª), obtendo maioria relativa. A partir desta data avisou que não mais concorreria. Abaixo o resultado das últimas eleições de 2017 às quais Merkel concorreu.

1.    CDU/CSU (aliança de Merkel)

Votos:            15 315 576 

Deputados obtidos:            246 ,20.9%

 

2.    Partido Social-Democrata

Votos:            9 538 367 

Deputados obtidos:            153, 20.7%

 

3.    Alternativa para a Alemanha

Votos:            5 877 094 

Deputados obtidos:            94  , 12.64%

 

4.    Partido Democrático Liberal

votos: 4 997 178 

Deputados obtidos:            80, 10.75%

 

No sistema parlamentar como o da Alemanha, a coligação CDU/CSU (PARTIDO DEMOCRATA CRISTÃ E UNIÃO DEMOCRATA CRISTÃ) obtinha a maioria relativa dos votos e elegia a maioria dos deputados e, consequentemente, teria direito ao Chanceler (Primeiro Ministro na Alemanha).

Em 22 de novembro de 2005 a Dra. Merkel, graduada em física e especialista em química quântica, oriunda da República Democrática Alemã, seria empossada chanceler. Foram 16 anos e quatro mandatos no poder. Merkel construiu uma época e uma história para a Alemanha e Europa. Foram anos, entre datas importantes, a sequência do Morgenlagen. O expediente da manhã na chancelaria, os jantares, as noites de óperas, salas lotadas de líderes, só para citar Barack Obama no hotel Adlon e até mesmo pessoas comuns.

O autor Valentido frisa que não é um ensaio ou uma biografia. Ao contrário é um esforço para narrar: “...a temporada no poder de uma mulher, que se tornou adulta atrás da Cortina de Ferro, que com perseverança e tenacidade, adaptabilidade e dureza , discrição e coragem, marcaram um traço decisivo da história alemã e europeia como nenhum outro “.

Com certeza Merkel poderá sentar-se ao lado de Konrad  Adenauer e Willy Brandt os chanceleres da fundação da nova Alemanha e Helmut Kohl, o Chanceler da reunificação?

Principais eventos políticos nos governos de Merkel.

1.    Posicionou-se contra xenofobia

2.    Política de portas abertas à imigração - É a líder europeia que mais abriu fronteiras para os refugiados

3.    Extinção de usinas nucleares e programa de energia.

4.    Voto contra o casamento gay (fidelidade à aliança partidária)

5.    Fim do serviço militar obrigatório

6.    Foi eleita chanceler 4 vezes.

7.    Articulou a manutenção da União Europeia com a saída do Reino Unido

8.    Liderou a Europa nas decisões sobre a crise do euro.

sexta-feira, 20 de agosto de 2021

ARTE TOKEN OU “NON-FUNGIBLE TOKEN”. Selvino Antonio Malfatti.

 

(https://www.corriere.it/sette/attualita/21_luglio_22/domani-7-mercato-cripto-opere-nft-sono-vera-arte-ab3f3f36-eaa4-11eb-872f-99e4306190c7.shtml)

O que são, como são e quanto valem os Tokens? Antes de mais nada, alguns conceitos. Os tokens são registros criptográficos, isto é, codificados, presentes em um “livro”, formados por um conjunto de computadores, chamados de brockchain.

Os “Non-Fungible Token” são objetos digitais certificados, únicos e não reproduzíveis. Os defensores apresentam mais uma característica: inegociáveis. Então, o que são? 

São criptomoedas que não possuem parâmetros de valores. No entanto, no mercado valem bilhões, como o trabalho do artista americano Beeple, intitulado Unconditional staking de Skygolpe foi leiloado por $ 69,3 milhões, tornando-se o terceiro artista vivo mais bem pago do mundo. apresenta um volume de vendas estimado em 2,5 bilhões de dólares 

Os NFT representam uma verdadeira revolução na arte. Tudo indica que para os próximos anos será o tema quente no meio artístico e de valores. Calcula-se um volume de vendas estimado em 2,5 bilhões de dólares, sgerindo um mercado ainda não explorado e no qual os artistas podem interagir colocando seus trabalhos à venda  nas plataformas Blockchain.

O que o meio artístico tradicional não consegiu como parâmetros de valores artísticos os  NFT parecem estar próximos. No meio artístico tradicional o único objeto artístico a cima de qualquer valor continua sendo de Mona Lisa de Leonardo da Vinci, que serve de parâmetro para valorar outras obras de arte. Diz-se: vale um terço da Mona Lisa ou metade da Mona Lisa. Nunca igual ou superior. 

No mundo Non-Fungible Token não funciona assim. O artista Skygolpe, 34 anos, criou a obra de arte “7”, o retrato de uma índia da Amazônia se maquiando. É uma obra prima de arte exposta e negociável na plataforma SuperRare Blockchain. No mundo NEF foi tudo normal, no tradicional causou mal estar no meio artístico, financeiro e ambientalista.




sexta-feira, 13 de agosto de 2021

CÚPULA MUNDIAL DA CULTURA – ROMA 29 DE JULHO. Selvino Antonio Malfatti.

 

https://www.corriere.it/cultura/21_luglio_30/g20-roma-tutti-piu-poveri-senza-cultura-68b40dce-f100-11eb-9a1b-3cb32826c186.shtml

A epidemia COVID-19 indiretamente trouxe algumas coisas boas para a humanidade. Uma delas é a consciência que o sistema econômico pode ser de outro jeito. Antes, todos os dias era uma correria aos bancos, lojas, supermercados. Hoje um simples aplicativo deixa todo mundo em casa, podendo fazer tudo de forma “líquida” conforme diz Zygmunt Bauman. Tudo existe, mas é invisível. Pode-se comprar o visível no invisível. Mesmo o sistema de saúde pode funcionar online. Mas o que ninguém esperava era o peso da cultura. Disto se apercebeu o primeiro ministro da Itália, Mario Draghi, na inauguração da mesa redonda das delegações europeias da Cultura no Coliseu em Roma no dia 29 de julho. Justamente no local onde há alguns séculos foi o palco da anti-cultura, da inumanidade, da barbárie. Ali mesmo falou em colocar a cultura para sempre entre os grandes nós econômicos do planeta. E isto por que foi a primeira vez na história que os ministros do bloco G20 se reúnem para debater a cultura.

Até então era um mundo invisível e anônimo para a economia, mas que sem se aperceber dava lhe vida. Era como a Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo de Weber que o religioso estendia-se ao econômico.

A partir do “despertar” para o invisível os delegados firmaram uma firme decisão: dar apoio aos trabalhadores da cultura nos respectivos países, proteção aos bens culturais visíveis e espirituais, combate ao tráfico de obras de arte, colocar o setor como um vetor como principal força de crescimento econômico de cada país. E arremata o primeiro-ministro Draghi: “a redescoberta do passado é condição necessária para a criação do futuro ».

Repentinamente todos se deram conta da frieza de um mundo sem a cultura: sem ela não se vêm delegações passeando nas ruas, grupos apreciadores de obras de artes ou descobertas científicas nos museus, ouvintes em orquestras nos teatros, corais em cultos religiosos ou contemplando catedrais grandiosas. Navios chegando e partindo lotados de turistas, da mesma forma os aeroportos, estações de trens e rodoviárias. Os restaurantes e hotéis lotados, tudo isso era o mundo antes da pandemia. Agora o vazio e a  tristeza tomaram o lugar dos turistas nas ruas, nos hotéis, e locais de espetáculos. 

O que vinham fazer aqueles turistas? Comprar em shoppings ou lojas, negociar no mundo bancário e financeiro, investir? Evidentemente que este não era o primeiro objetivo. O primordial e primeiro, e só depois os outros, era a cultura: arte, música e literatura. O mundo econômico vinha somente em segundo lugar. O primeiro era a cultura.

O primeiro-ministro reivindicou mais: a proibição de grandes navios na frente da Igreja São Marcos em Veneza, além de incluir aquela cidade, apoiando a Diretora Geral da UNESCO, Andrey Azoulay, na lista do patrimônio em risco. Sobre as novas gerações afirma: “Devemos permitir que nossos jovens liberem suas energias e dinamismo e promovam o uso da tecnologia, por exemplo, na digitalização de arquivos e obras de arte, para que a Itália seja, ao mesmo tempo, uma guardiã de tesouros e um laboratório de ideias ; conservação não deve ser sinônimo de imobilidade ».


sexta-feira, 6 de agosto de 2021

Humanismo e dilemas contemporâneos. José Mauricio de Carvalho.


 

Humanismo historicamente caracterizou o movimento literário e filosófico que, no século XIV, dialogou com a antiga cultura clássica. Teve início na Itália e se espalhou pelo mundo ocidental, estando suas ideias na base do que ficou conhecido como modernidade. Depois dessa origem, o conceito se misturou a diferentes teorias modernas que genericamente tinham o homem no centro de suas preocupações. É claro que há uma base comum aos humanismos que surgiram desde então, e ela parece ser a intenção de entender o homem de forma ampla, tomando-o em suas várias dimensões e inserindo-o na natureza e/ou história, ou melhor, naquilo que Ortega y Gasset resumiu, contemporaneamente, com o nome de circunstância.

É evidente que, dado seu caráter geral, há muitas teorias filosóficas, sociológicas ou históricas que genericamente assumem, como pano de fundo, essa raiz humanista da renascença, mas é uma simplificação inadequada confundir o humanismo com qualquer delas. Um erro comum nestes dias de conservadorismo religioso e ultradireita política é recusar, por exemplo, como marxismo toda teoria que valoriza o esforço do homem para criar um mundo mais do seu jeito. O marxismo, embora integre o movimento moderno de valorização do esforço humano contra o primado medieval da fé, como teoria filosófica, social e econômica representa uma visão de homem, história, sociedade e economia que ficaram para trás no tempo. Teve sua importância na história das ideias pela crítica que significou ao idealismo hegeliano ao interpretar a história e a sociedade em função das necessidades materiais do homem. Nesse sentido, ampliou o significado da dimensão econômica do homem, realçando a vida prática e produtiva. Vivendo nos dias da estruturação da sociedade industrial, Karl Marx viu no proletariado a força da mudança histórica, compreendendo as explicações espirituais do mundo como produto das diferentes maneiras de produzir riqueza. A economia marxista vê o capitalismo como forma de produção econômica de transição, destinada a ser substituída pelo comunismo, em razão das contradições captadas pelo movimento dialético da história. Em síntese, foi um movimento datado, representa, no âmbito filosófico, uma crítica ao hegelianismo, contempla uma preocupação com o homem privilegiando suas necessidades materiais e foi superado pelo andar da história, apesar das contribuições que trouxe.

O humanismo encontra-se na base do marxismo e de muitas outras teorias modernas, ele reflete um modo ampliado de ver o homem. No entanto, não é sinônimo perfeito de nenhuma dessas teorias modernas ou renascentistas que embasa. Desse modo podemos dizer que surgiram na modernidade diferentes formas de humanismo, conforme foram combinados com outras ideias.

Interpretações divergentes e opostas do humanismo estão, na base do conflito atual do neoconservadorismo evangélico com outras criações modernas. As versões antagônicas do humanismo representam, em seus extremos, uma proposta de salvação do homem pela religião ou, ao contrário, uma dissolução da religião no processo histórico. O mundo moderno provocou, pelo foco no mundo, um eclipse de Deus, como mencionou Martin Buber, isto é, representou um esquecimento de Deus e de seu papel na vida humana.

As dificuldades contemporâneas de setores evangélicos é que eles negam, em nome de uma fé pura o valor do esforço e realizações humanas, apostando numa salvação fora do mundo. A face contrária desse movimento, representada pelas teses de Georg Hegel e radicalizadas por Karl Marx, considera a evolução histórica, a superação da espiritualidade religiosa e redução da capacidade espiritual do homem como objetivos culturais. O esforço da razão humana, em suas várias realizações, independente do vínculo com a fé, tornou-se foco de ataque de setores radicais evangélicos.

No entanto, sabemos que a realizações da razão como outras criações humanas não são contrárias a espiritualidade, sendo, algumas vezes, parte da evolução das ideias cristãs. Isso porque muitos aspectos da cultura, a ética filosófica por exemplo, foi profundamente influenciada pelo cristianismo, diga-se o mesmo dos direitos humanos e muitos aspectos da arte. E não apenas sabemos hoje que a espiritualidade religiosa representa um sentido importante para proteção da saúde mental, como boa parte dos cientistas mostram-se pessoas de fé. Isso mesmo a ciência limitando seu discurso ao entendimento do funcionamento do mundo e havendo aqueles que se limitam ao que a ciência reconhece. Resumindo, há uma compreensão da fé que nega o mundo, uma que se faz em diálogo com ele e uma visão de mundo à parte da fé. Em todas elas podem ou não existir ideias humanistas.

O singular de nossos dias foi a aproximação da ultradireita dos setores mais radicais do movimento evangélico. Os evangélicos recusando o humanismo absoluto em nome do primado da fé e a ultradireita recusando, as criações modernas que não se ajustam as suas teses, especialmente o marxismo. Enfim, a aproximação entre movimentos tão diferentes se explica porque o hegelianismo e marxismo representam o esforço humano de construção do mundo que contém os elementos recusados por ambos os grupos. Hegel e Marx foram tomados como exemplo do que ambos os grupos recusam. Daí a confusão que fazem muitos filiados da ultradireita que identificam nazismo com o comunismo, considerando-os de esquerda, sem perceber que as posições da ultradireita são essencialmente nazistas e formam, em nossos dias, um neonazismo. Esses políticos revelam desconhecimento histórico ao não saberem que essas duas formas de totalitarismo foram inimigas no século passado. A confusão se nutre por essa identificação de inimigos comuns presentes nas ideias modernas. Porém, falamos de movimentos diferentes, radicais evangélicos e ultradireita que se aproximaram por conta da recusa do que o idealismo hegeliano e marxismo representam: a recusa do esforço humano de um lado e do modo de produção econômica de outro.


 

sexta-feira, 30 de julho de 2021

A RECEITA DA FELICIDADE POR SÊNECA . Selvino Antonio Malfatti.


 


Na obra que aborda o tema da Felicidade, na “Biblioteca da Felicidade”, é apresentado o filósofo Lucio Anneo Seneca, mais conhecido como simplesmente SENECA. Viveu na corte dos imperadores Cláudio e Nero, sendo preceptor deste. Exerceu a função de questor e foi nomeador senador. Destacou-se como advogado, orador e filósofo, além de literato.

Foi um dos pensadores do passado que refletiram sobre a questão da felicidade. Acusado de participar de uma conspiração foi exilado na ilha de Córsega. Foi neste período que escreveu suas meditações filosóficas apreciadas ainda hoje. Uma das obras primas é sobre a felicidade.

Os vícios devem ser sempre combatidos, pois a eles anulam a liberdade. Quem acolhe as modas degradantes ou a hipocrisia mata sua própria liberdade. A reflexão deve buscar o sentido da existência que é viver com dignidade. Se conseguir isto terá a certeza de morrer em paz.

O homem, diante dos acontecimentos, deve permanecer imperturbável. Imiscuir-se na realidade, mas não se deixar dominar por ela. A ação dos demais não deve desviá-lo da rota por ele traçada.

Sêneca viveu não alienado, mas atuante dentro da corte romana. Via toda a sordidez do governo de Nero, mas procurava um lenitivo na meditação filosófica. Neste aspecto não seria demais compará-lo aos filósofos de antes e atuais como :Dante, Shakespeare, Kierkegaard, Heidegger, Rimbaud, Svevo, Sartre, Dino Campana, Moravia, Pasolini.

A característica mais marcante de Sêneca é sua ênfase no domínio das paixões. E Nesse sentido pode ser comparado aos modernos na defesa da liberdade pessoal. O que os atuais fizeram foi dar continuidade ao pensamento de Sêneca. Podemos compará-lo e mesmo coloca-lo entre: Locke, Rousseau, Tocqueville, Kant, Mises, Max Weber, entre outros.

Professou a filosofia do estoicismo, uma ideologia da República e Império Romano.

Esta filosofia originou-se da Grande Grécia. O fundador, Zenão de Citium, dirigiu a antiga escola aproximadamente no século IV a. C. Os mais renomados estóicos foram Zenão, Cleante e Crisipo. Entre os romanos destacaram-se Sêneca, Marco Aurélio, Possidônio e outros.

Conforme o estoicismo a sabedoria reside na liberdade. Para se chegar a ela, o homem necessitava livrar-se das paixões e das influências exteriores. Este ideal era uma exigência da reta razão. O homem é partícipe da lei natural e da lei interior (consciência). Estas o levam para o ideal da liberdade. Por isso, para se chegar a ele, deveria viver conforme o lema: “segue a natureza”.

Os estóicos consideravam-se cidadãos do mundo e pretendiam erigir um Estado Universal. A sociedade abrange todo o gênero humano. O próprio universo mitológico é incluído nessa visão cosmopolita. Marco Aurélio dizia que todos os homens são cidadãos da República de Zeus.

Embora o universo esteja continuamente em movimento, as sociedades em permanentes mudanças e os homens constantemente se deslocando de um lugar para outro, sempre permanece a natureza comum dos homens. Dizia Sêneca: “Mas nos seguem em toda parte as duas coisas mais belas: a natureza comum a todos e a virtude individual.”

sexta-feira, 23 de julho de 2021

ARMADILHAS DA MEMÓRIA. Selvino Antonio Malfatti

 

Este é o título que os colunistas do Corriere della Sera, DANIELE GATTI E TOMASO VECCHI, deram ao ensaio What is memory. (Daniele Gatti e Tomaso Vecchi nel libro Che cos’è la memoria, edito da Carocci; negli Stati Uniti è uscita la versione in inglese, Memory as Prediction, pubblicata da The Mit Press).

Se fores à Disneylândia e ao sair estás convicto que viu o Pernalonga, com certeza foi enganado pela memória. O personagem não é da Disney, mas da Warner Bros. A memória te pregou uma peça! Ela simula ver coisas que se viu, que se ouviu, que se sentiu e até mesmo mostrando o contrário do que realmente aconteceu, apagando o que se viu além de deturpar a tralidadde ou realçar o que não se viu.

A memória é passível de engano, por mais que relutemos em acreditar. Somos capazes de jurar que vimos algo, embora o local seja adequado. Não gostamos de admitir que a ferramenta que define nossa identidade e nos possibilita orientar, também nos enganar.

È clássico o experimento para provar.

Aos participantes contam a história de um ditador que por causa de sua crueldade levou seu país à ruína. Consta somente o essencial, com poucos detalhes, fácil de lembrar. À metade dos participantes foi dada a informação de que o ditador se chamava GERALD MARTIN enquanto à outra metade foi dito que era ADOLF HITLER. Uma semana depois os detalhes tiveram que ser lembrados. Para surpresa os participantes acrescentaram detalhes que inexistiam na história original, embora coerentes com seus próprios preconceitos. Disseram que Hitler odiava os judeus e os perseguia, o que historicamente é verdadeiro, mas na história original não constasse.

Quais as variáveis que podem alterar a exatidão da memória? O tempo de exposição, 10 segundos ou 20 segundos fazem muita diferença. Não é só isso. As emoções desempenham um papel fundamental. Um acontecimento carregado intensamente de emoção fará com que se lembre com mais ou menos facilidade. Se a narrativa tiver uma arma como ingrediente acionará fortemente sua emoção. O rosto do agressor, por exemplo, pode ser significativo para a memória ou não se lhe tenha causado medo ou não.

Se estes estudos forem transferidos para o campo do testemunho jurídico? Podem ser confiáveis ou não? Até que ponto uma testemunha merece crédito de suas lembranças? No caso de memórias autobiográficas a confiabilidade aumenta. Onde você estava, por exemplo, quando em 2014 a Alemanha derrotou o Brasil por 7X1? O tempo transcorrido entre um acontecimento e outro pode influir nos detalhes. Geralmente quanto mais tempo passado menos detalhes a memória lembrará.

Surge a pergunta: as emoções melhoram ou pioram a qualidade da memória? Os autores, GATTI E VECCHI, explicam que não podem ser adotados critérios unilaterais. Para tanto, é preciso aplicar a lei de LEI YERKES-DODSON (A lei de Yerkes-Dodson estabelece uma relação empírica entre excitação e desempenho.) Isso é um alerta neurofisiológico. Pode-se tomar como parâmetro o desempenho de alunos nas provas. Se eles estão muito excitados ou pouco o resultado é pior.  Portanto, o grau médio é o melhor resultado. Dizem os autores Gatti e Vecchi:

“Enquanto nos lembramos de quem fomos, sem saber, já estamos decidindo quem seremos amanhã”

 

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