sexta-feira, 4 de setembro de 2015

IGUALDADE OU A ELIMINAÇÃO DA POBREZA? Selvino Antonio Malfatti





Chegar ao patamar da igualdade não significa a eliminação da pobreza. Podemos ser iguais e ao mesmo tempo todos pobres. Nem eliminar a pobreza quer dizer chegar à igualdade. Pode uma sociedade livrar-se da pobreza sem tornar-se igualitária.

Com certeza devemos nos preocupar com a desigualdade, mas antes de tudo devemos nos preocupar om nós mesmos. O verdadeiro nó da questão é a pobreza. E ai de nós se não enxergarmos isso!

Quem nos mostra este caminho é o filósofo Harry G. Frankfurt, professor de filosofia da universidade de Princeton, em seu livro “On Iniquality”. Ele nos orienta a concentrar-se mais sobre a eliminação do pobreza do que a redução da desigualdade entre ricos e pobres. Por quê? Porque a pobreza é uma condição dolorosa, que causa danos ao ser humano, enquanto a desigualdade por si só é inócua. A situação de subalterno pode ser suficientemente boa para garantir uma vida satisfeita. Alguém pode não ter uma renda de executivo, mas se sente satisfeito com salário de professor universitário. É melhor conseguir uma posição social economicamente satisfatória do que ser ou sentir-se igual e insatisfeito. Pouco importa que outros ocupem posições superiores se individualmente houver satisfação.

Há diversos tipos de desigualdades. Países nos quais quase todos são pobres porque os recursos são escassos. Estes recursos podem ser naturais, como meio geográfico ou culturais, como atraso científico e tecnológico. Pode ainda haver recursos que beneficiam somente uma pequena parcela da população, como sói acontecer nos países produtores de petróleo, ou mesmo recursos ilícitos como no narcotráfico. Nesses há significativa desigualdade entre uma mínima minoria e a grande maioria. A pobreza é predominante. A distribuição da riqueza não existe de modo que a pobreza é praticamente igualitária, pois quase todos são pobres, todos incapazes de produzirem e todos insatisfeitos. A desigualdade implica que haja uns com mais, outros com menos. A pobreza é um estado de subumanidade. 

Pode haver uma minoria pobre ou rica enquanto a maioria está em situação satisfatória. O objetivo então é concentrar-se sobre esta minoria pobre e trazê-la para o patamar de satisfação. (And... the last of the list!)

No entanto, há ideologias – como do socialismo - que teimam na igualdade desprezando a questão da pobreza. Talvez porque a perspectiva mostre enganosamente que é mais fácil se atingir a igualdade e automaticamente se eliminaria a pobreza. No entanto, como dissemos, é uma miragem porque a igualdade não dá nenhuma garantia de eliminação da pobreza.

No liberalismo clássico se vê a desigualdade como positiva, pois ela estimularia os esforços no sentido de aplainar as diferenças socioeconômicas. A ambição – vício individual – pode se tornar um agente de mudanças ao estimular os indivíduos para o progresso – virtude pública. Por isso, há racionalidade no pensar liberal, enquanto que a concepção socialista racionalmente é utópica, à medida que quer atingir um objetivo através de um meio que não dá garantias. O liberalismo também quer a igualdade como objetivo ideal e não através da plaina. O objetivo é a igualdade como ideal e a meta imediata é a pobreza. Se a igualdade vier, tanto melhor, mas se não vier, paciência. 

Garantir que todos tenham o suficiente para viver sem se preocupar se tem mais ou menos que os demais é uma orientação político-ideológica que não está assentada no liberalismo clássico, e muito menos num liberalismo também clássico. Poderíamos defini-lo um liberalismo mitigado: mantém a liberdade econômica de mercado e ao mesmo tempo aciona o Estado para corrigir as distorções que este mercado pode provocar. O modelo estaria próximo do Estado de Bem Estar Social de John Maynard Keynes.

Mas quem conseguiu atualmente conciliar melhor a desigualdade com eliminação da pobreza?
Parece que é a Escandinávia. Ali existe fraca desigualdade e praticamente pobreza nula.



sexta-feira, 28 de agosto de 2015

O aparato do Estado corrigindo os caminhos da burocracia. José Mauricio de Carvalho - Professor do IPTN Tancredo Neves





Este triste momento da história pátria é a marca de nosso tempo, tempo de corrupção e de crise econômica. Ele tem altos funcionários da República e políticos envolvidos em atos de corrupção de grandes proporções. Todos os dias os meios de comunicação mostram novas fases da operação lava jato, que assustam o cidadão comum. Felizmente igualmente mostram o aparelho do Estado punindo aqueles que se afastaram dos procedimentos esperados dos seus funcionários. Esta realidade do Estado Moderno de que nos falava Max Weber nos seus Ensaios de Sociologia (Rio de Janeiro: Guanabara, 1981) é muito curiosa, ela mostra como o funcionário de carreira cria um interesse por colegas e pela carreira, que, às vezes para o mal se desvia no corporativismo, mas geralmente promove as correções necessárias nos órgãos públicos. Por isso, a sociedade moderna percebe que não pode prescindir de uma boa máquina administrativa: necessita de bons policiais, professores, médicos, juízes, fiscais, administradores públicos e um aparato de suporte para o trabalho deles. De gente boa e comprometida com seu trabalho, embora a experiência mostre que todos precisam permanecer sob a vigilância de chefias que se controlam.
Além de sabermos que o homem é suscetível de corrupção e que ela aparece em todos os lugares e tempos da história humana, parece fundamental, para seu atual enfrentamento, além da excelência na profissionalização do setor público, o desenvolvimento do sistema econômico e educacional para reduzir a diferença social. Esse fato consolidará a substituição do privilégio pela competência, tanto na seleção para o serviço público, como nas atividades econômicas em geral. A valorização da competência e a formação cidadã comprometem os membros da sociedade com o funcionamento e seu futuro. Estamos aprendendo, com vergonha e dor, que esse é um caminho que precisaremos trilhar. E a mudança começa necessariamente pelo esforço de cada um para bem cumprir suas tarefas e respeitar as regras sociais, mas inclui a substituição da mentalidade patrimonial por uma forma legal de administrar a coisa pública. O problema, como venho insistindo transcende os Partidos e atuais dirigentes, embora quem errou deva ser punido conforme a lei. Simples assim.
Uma forma de administração patrimonial é, como ensina Weber, resultante de formas de dominação tradicional como ocorria nos antigos califados que ocuparam a Península Ibérica durante boa parte da Idade Média. A história mostra que Portugal e Espanha tiveram que incorporar práticas patrimoniais para enfrentar exércitos poderosos do Califa cuja vida e morte dos soldados estavam nas mãos dos Senhores. Se foram eficientes no enfrentamento do invasor, a sobrevivência do modelo prejudicou o desenvolvimento da mentalidade moderna na formatação desses Estados, modelo que se transferiu para as colônias. E como é a administração patrimonial? Ela é arbitrária (não há um sistema de leis impessoais), o administrador não se submete a regras de controle de sua autoridade, disso resultando ausência de supervisão do trabalho dos dirigentes. A forma de acesso aos cargos é por amizade ou parentesco com os dirigentes e os demais contratados são empregados pessoais dos dirigentes (no Brasil de hoje companheiros de Partido), os assuntos públicos são tratados em encontros pessoais e resolvidos diretamente, sem documentos oficiais. Enfim, é uma forma de administrar que não combina com o Estado Moderno, mas pode sobreviver dentro dele, como parece ocorrer entre nós.
No nosso caso, infelizmente, o patrimonialismo somou-se à sobrevivência da moral contrarreformista, com sua implicância com a riqueza e o enriquecimento pessoal e o desastre do idealismo jurídico como está em Caminhos de moral moderna, a experiência luso-brasileira (Belo Horizonte: Itatiaia, 1995).
Assim, apesar da tradição patrimonial e a falta de formação cidadã, se a polícia e justiça atuarem agora como parte de uma administração legal, como prevalece nos Estados Modernos, diminuirá consideravelmente os efeitos da corrupção. Fica o restante e maior desafio para a formação moral dos cidadãos e sua preparação para viver na República. Para isso será necessário organizar a escola, melhorar as relações familiares e sociais de modo geral. Também será ótimo se as Igrejas ensinarem que a vida mais próxima de Deus implica em solidarizar-se com o destino dos outros homens, começando pelos mais próximos que habitam nosso país.
De alguma forma a existência do homem passa pelo bem viver, por encontrar uma razão para a vida num mundo em crise pela desconfiança das utopias e do progresso automático. Estamos mergulhados na falta de crenças de que falava Ortega y Gasset para explicar os momentos de crise e não superamos a era da massas que ele descreve em A rebelião das massas. Enfim, vivemos num mundo que precisa descobrir novas razões para bem viver e num país que precisa encontrar rapidamente os caminhos da racionalidade administrativa, da superação do patrimonialismo e da formação cidadã.

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

A PROBLEMÁTICA DOS PERÍODOS CULTURAIS NA ATUALIDADE. Selvino Antonio Malfatti.





A civilização Ocidental sempre teve momentos ou períodos que marcaram determinadas épocas. Estes períodos possuem um conjunto de características que individualiza a época tornando-a distinta da outra, isto é, sui generis. É por assim dizer, uma metamorfose cultural, em oposição à metamorfose do poeta Ovídio do período da cultura romana. Ele mesmo já identificava eras culturais como a idade do ouro, idade da prata, idade do bronze e idade do ferro. A denominação atual tem outros nomes como: a época de Péricles de Atenas, o helenismo, período romano, o cristianismo medieval, o renascimento, o modernidade, o romantismo (belle époque), o moderno e o pós-moderno.  Agora já ingressamos em outra época cultural: o pós-pós-moderno.
Cada período tem um centro, uma ideia-mãe, um eixo que imanta as demais dimensões.  Por isso, nestes períodos, praticamente todos os aspectos são influenciados. Se analisarmos o período romântico, constatamos que a literatura, a pintura, escultura, a política e até mesmo a religião são românticos. Vejamos, por exemplo, alguns aspectos do período. François René de Chateaubriand escreveu “Le Génie du Christianisme”, obra de cunho romântico para defender a religião católica contra os ataques dos revolucionários franceses. Os revolucionários franceses, por sua vez, embasaram suas ideias em princípios românticos, como igualdade, fraternidade e liberdade. Os cientistas sociais enfatizavam a situação miserável dos pobres e a saída apontada era a distribuição dos bens retirados dos mais abastados.
A passagem de uma época cultural para outra se dá imperceptivelmente. O novo período não se desmembra do outro, apenas toma outra forma tornando-o distinto em relação ao anterior. É como a metamorfose de determinados insetos e mesmo a mutação das espécies.
A transição do pós-moderno para outra fase cultural,  ainda não recebeu denominação definitiva, sendo apenas designado por pós-pós-moderno. Como poderíamos descrever o novo período ? O que constatamos? Velocidade na comunicação, globalização das informações, robótica na produção de bens, era digital,conquista espacial, produção geneticamente modificada, valores (monetários) virtuais, valores (axiológicos) materiais, religião de extremos (radicalismos de uns e ceticismo de outros) são alguns dos componentes do pós-pós-modernismo.
Os períodos culturais são sempre menos duradouros, mais rápidos, podendo emendar algumas gerações. Quando teria iniciado o pós-pós- moderno? Os sociólogos pensam que o pós moderno tenha iniciado em 1979 e seu término ocorrera em 2004, dando início então o pós-pós-moderno. Atualmente, por exemplo, já convivem no mínimo três gerações culturais: a moderna, a pós- moderna e agora a pós-pós- moderna. Diz Daniela Coli, no jornal italiano Corriere della sera (10/0/2015), descrevendo o suceder de momentos culturais:

Nel 1979 Lyotard teorizza la fine dei grandi racconti come l’illuminismo, l’idealismo e il marxismo, perché né il progresso scientifico e tecnico, come prevedeva l’illuminismo, né la progressiva spiritualizzazione dell’uomo immaginata da Hegel, hanno prodotto una nuova umanità, come dimostra p.e. l’Olocausto. Né c’è riuscito il marxismo, un mix di illuminismo e hegelismo rovesciato, che ha prodotto una delle rivoluzioni più sanguinarie della storia e un regime più tirannico di quello degli zar. Per Rorty Dio è morto e i filosofi lo hanno rimpiazzato con romanzi metafisici spacciati per veri e razionali. Un critico della modernità come Strauss, non riteneva però riducibile la filosofia moderna alle metanarrazioni settecentesche e ottocentesche. “ Condorcet e perfino Comte – scrisse a Löwith il 15 agosto 1946 – non volevano rimpiazzare la cristianità: essi volevano sostituire il nonsense con un ordine intellegibile. Ma questo lo volevano anche Descartes e Hobbes. Soltanto quando la querelle fu in sostanza risolta, vi fu introdotta la religione e la cristianità, e questa successiva interpretazione del movimento moderno dominò l’ingenuo e insopportabilmente sentimentale secolo decimonono”.

No entanto, nem todos concordam como é o caso de Carlo Bordoni, no mesmo jornal de 2 de agosto, dizendo que o pós-moderno pode não estar morto, apenas apenas moribundo.

Não admira, portanto, que haja tantas incertezas no mundo atual. As pessoas se sentem perdidas culturalmente. Os referenciais já não são os mesmos para todas as pessoas da mesma sociedade. As novas gerações assimilam rapidamente os avanços culturais e as mais antigas vão ficando para trás. Crianças operam com desenvoltura computadores de última geração enquanto há idosos que nem conseguem sacar dinheiro em caixas de auto-atendimento. 


sexta-feira, 14 de agosto de 2015

Considerações sobre os pais. José Mauricio de Carvalho




O domingo que passou, devido à comemoração do dia dos pais, assistiu se multiplicarem nas redes sociais os cumprimentos aos pais. Também se viu agradecimentos tímidos, lembranças saudosas, mas quase nada sobre o sentido e valor da paternidade. E, em meio às mensagens e às mudanças nas famílias de hoje, terminei o dia pensando na importância do pai enquanto referência de afeto, segurança, dos valores morais e da esperança. Pouca novidade, Freud já associara a formação da estrutura moral à educação paterna. Por outro lado, Freud insistiu pouco na importância que tem as referências paternas na construção da vida singular, que é o modo próprio da vida humana.
O homem, apesar da racionalidade, é um animal. Como tal precisa aprender a viver com seus instintos e a realizar seus desejos como é possível numa sociedade civilizada. Neste sentido, a presença do pai junto aos filhos, especialmente enquanto ainda são pequenos, é referência imprescindível de orientação existencial. Ainda quando os filhos se rebelam, e frequentemente o fazem para experimentar trajetória própria, é o pai que eles têm em vista. E é este pai que eles aprenderão a imitar e respeitar à medida que seguem sua própria via existencial, mesmo quando seguem por caminho diferente. Mesmo envolvido na difícil tarefa de levar adiante a existência singular, mesmo criando cada geração seu estilo de viver, é o pai que cada um terá como referência quando a vida trouxer as crises. É a lembrança paterna, sobretudo da infância, o espaço onde cada qual encontra os elementos para seguir adiante e fazer diferente do pai, mas como o pai. E quanto mais velhos ficamos, mais reconhecemos o valor e o significado desta presença.
Quando o pai consegue ser presença de afeto e segurança, o que ele ensina não simplesmente reproduz os valores sociais, mas é orientação segura para vida, baliza do que é bom e do que não é. Neste nosso tempo de violência, irresponsabilidade e gozo ansioso, quanta gente pode dizer que teve um pai como referência? Quantos jovens que hoje enchem as casas de correções, quando destes que já não cabem em nossas cadeias estariam lá se tivessem tido, ao seu lado, principalmente na infância, um pai. Não importa a classe social, nem é preciso ser perfeito, mas é necessário ser alguém que ama e orienta. Quantos desses jovens perdidos não o seriam se tivessem tido um pai. Apenas um pai que eles também pudessem amar e de quem não se envergonhassem.
Ninguém pode deixar de cuidar da própria vida, de fazer diariamente suas escolhas. E não há como subtrair-se à responsabilidade pessoal nas escolhas do dia a dia, no campo pessoal ou profissional, no universo político ou religioso. A vida de cada um é essencialmente sua edificação, mas na hora de escolher, o que o pai ensinou ou deixou de fazê-lo, mostrará seu peso.
O que foi dito acima mostra que cada pessoa é responsável pelo rumo que der a seus dias. Em última instância é o indivíduo mesmo o grande agente de sua vida. No entanto, o que este dia dos pais sugere é que criar com trabalho e amor deixa a marca da presença paterna na vida singular. E não estamos falando ao longo deste texto do pai biológico, mas do que é presença. Não somos o primeiro homem, dizia Ortega y Gasset para explicar que aprendemos uma língua, ciência, costumes e crenças que já existem. Se tudo isso estará presente em nossas escolhas futuras como ele diz, também aprendemos a coragem, a perseverança, a experiência do amor e os valores na condução da vida pela convivência com o pai.
O dia dos pais passou, que ele possa, além dos cumprimentos da ocasião, ser oportunidade de reflexão sobre o compromisso de ser pai. Que ele aumente a consciência da responsabilidade com os filhos e com o futuro dos homens e do país. Se não formos melhores pais, não contribuiremos muito com o futuro da humanidade. Pois sem limitar os instintos, superar o egoísmo primitivo, não é possível a aceitação do outro, o reconhecimento de sua liberdade. Não se aprende a amar e a ir adiante das situações sem superar as limitações do egoísmo infantil.



sexta-feira, 7 de agosto de 2015

DIA DOS PAIS. Selvino Antonio Malfatti




















Em várias partes do mundo há um dia consagrado aos pais. A data não é unânime em todo mundo. Portugal celebra em 19 de março (Dia de São José – pai adotivo de Jesus), nos Estados Unidos, Inglaterra e numerosos países a celebram em junho pois foi este mês que foi celebrado pela primeira vez nos Estados Unidos em homenagem a um pai na data de seu nascimento.
A data comemorativa tem dois suportes valorativos: um, lembra a figura paterna no seio da família de concepção religiosa -geralmente cristã - e outra presta uma homenagem aos antepassados (grandfather ). No caso de família com sentido religioso, atualmente não é mais totalmente confessional, mas cultural. Da mesma forma, a ideia de "homenagem aos antepassados" também é cultural. No caso brasileiro, a data de agosto foi uma homenagem a São Joaquim, sacerdote na religião judaica. Ele era pai de Maria e avô de Jesus, pela religião cristã, cuja festa é celebrada em agosto. Por isso, poder-se-ia dizer hipoteticamente que a data obedeceu a critérios bi-confessionais: judaísmo e cristianismo.
A fundamentação cultural judaico-cristã evoca a figura paterna do próprio Deus, considerado um Pai. Na verdade o que se quer é apresentar um modelo axiológico no qual todos os pais pudessem se espelhar, como próprio Deus–Pai seria.  Quais as qualidades destacadas:
1.       Presença. O significado não quer dizer apenas uma presença física (embora seja também), mas viver junto com a família. Lembra acompanhar, participar, compartilhar, transmitir confiança e segurança. Evidentemente que isto pode ser mais espiritual que físico. Embora seja difícil e até mesmo extenuante após um dia de duro trabalho é preciso conversar. Se o ambiente estiver pesado, comece com uma observação de humor. A partir da primeira resposta o diálogo fluirá naturalmente.
2.       Afeição. Um pai presente desperta na família uma afeto mútuo entre os membros. O respeito à dignidade de cada um irá refletir-se em cadeia entre si. O pedir licença, desculpar-se, ser exemplo, fará com que os demais membros, principalmente as crianças, façam o mesmo. A interação afetiva proporcionada pelo pai começa ser a regra geral dentro da família. Ser modelo de bom pai, homem íntegro, cidadão exemplar. Suas ações são mais poderosas que suas palavras.
3.       Autoridade. Não é a o mesmo que poder. A autoridade tem legitimidade, o poder a força. O pai exerce na família uma autoridade legítima, isto é, obtém o consentimento dos demais devido a concordância na justiça de suas exigências, pois ele  mesmo se submete a elas.
4.       Limitação. Com afeição e autoridade, estabelecer limites que se desdobram desde o físico, entrando pelo econômico, lazer, moral, sexo e mesmo espiritual. O mundo não é uma galáxia infinda dando a qualquer a ser desfrutá-lo ao seu bel prazer. Ao contrário, é um Éden a ser preservado.
5.       Promessa. A promessa aponta para uma meta, um ideal a ser alcançado. Acenar e prometer devem ficar também dentro de suas próprias limitações. Despertar expectativas e não realizá-las causam muitos prejuízos psicológicos mais do que se nunca tivessem sido vislumbradas. O prometer e o cumprir devem andar de mãos dadas. Só assim é pai pode se apresentar como promessa de que agindo assim alcançarás o prometido.
6.        Religião. Como na maior parte das vezes o conceito de pai está associado ao culturalismo judaico-cristão, mas não necessariamente, perguntamo-nos o que é ser um pai neste contexto?  Deixemos responder um pai cristão. Trata-se do professor e filósofo português  Eduardo Abranches do Soveral. Um pai cristão que assim publicamente se declara, conforme ele, deve ter sempre presente:
a)      A Dignidade da pessoa humana. Cada homem é uma pessoa e não um indivíduo. Possui uma dignidade conferida pelo próprio criador e uma natureza assumida pela própria divindade. 
b)      A fraternidade dos homens. Os homens são irmãos por serem filhos do mesmo Pai, que é Deus. Esta fraternidade é a origem de sua liberdade e igualdade relativamente de uns para com os outros.
c)       Caridade pessoal. A caridade é de coração para coração e não para com os homens em sentido universal. A caridade começa com os mais próximos – pais, irmãos, vizinhos, companheiros de trabalho etc. – e depois estende aos demais. Isso tem sentido como um Corpo Místico de Cristo. Sempre na situação concreta e não geral. Cada um seja um Cristo na situação concreta. “És professor? Sê Cristo como professor. És aluno? Sê Cristo como aluno. empregado? Sê Cristo como empregado”.
ÉS PAI? SÊ CRISTO COMO PAI.





    

sexta-feira, 31 de julho de 2015

Contando uma linda história. José Mauricio de Carvalho





A mais maravilhosa história da humanidade foi protagonizada há mais de dois mil anos por um jovem carpinteiro da cidade de Nazaré em Israel. Depois de ensinar alguns anos o caminho para Deus, assumiu com sua morte, as consequências de suas escolhas e ensinamentos. E assumiu com força inabalável. Ele percebeu, a certa altura da vida, que as autoridades religiosas judias não aceitavam sua mensagem, nem sua presença e caminhou serenamente para o destino trágico que a missão o conduzia. O Batismo no Jordão transformara o jovem carpinteiro em um novo homem e o levou à entregar a vida em sacríficio supremo. Foi a última forma que encontrou de combater o mal. Ao fazê-lo revelou aos homens a vontade de Deus e respondeu com o perdão a injustiça, a mentira e o julgamento fraudulento de que foi vítima. Viveu humildemente e morreu sublimemente: morreu por seus amados (Jo 15,13).
O jovem carpinteiro saiu do Batismo no Jordão elevado à condição de Rabino, mudou sua forma de viver com uma ética que abria os caminhos até Deus.  Seus últimos dias neste mundo foram relatados nos Evangelhos: a recepção com ramos em Jerusalém, a última ceia, a condenação, o testemunho de coerência diante dos juízes, a morte na cruz. Foi-lhe dada a forma desumana de executar escravos e inimigos perigosos de Roma. E a tudo suportou sem desespero, procurando a presença de Deus na sentença da cruz. Passou seus últimos momentos com o coração cheio de angústia, mas determinado a levar ao final sua missão. E com esta escolha libertou-se da angustia existencial e deu à sua vida um sentido maior, o de salvar os homens da maldade. Morreu, foi sepultado, e quando todos esperavam o fim da história começou a aparecer a seus discípulos e a pessoas que o conheceram. O absurdo dos fatos adquiriu, então, um sentido libertador. Apareceu de outro modo, com um novo corpo, mas ainda assim possível de ser reconhecido pelos discípulos. Ressurgindo renovou todas as coisas.
A linda história do Filho de Deus que viveu entre os homens, morreu ressuscitou e apareceu a muitas pessoas, mudou a história da humanidade. Primeiro trouxe valores desconhecidos: o amor até aos inimigos, a igualdade de todos os homens diante de Deus, a dignidade da pessoa humana, a liberdade de fazer escolhas e a responsabilidade necessária por elas. A tais valores soma-se a esperança de renovação do mundo e de uma nova vida que há de vir para todo homem depois de cumprida a jornada na terra.
Esta história já contada tantas vezes e com muitas variações é encenada na cidade de São João del-Rei durante a Semana Santa, mantendo-se um ritual que se repete, quase sem alterações, há dois séculos. Assim, a história do carpinteiro que era Deus ganhou, com a tradição, uma forma igualmente extraordinária de ser apresentada aos homens. A cerimônia foi recentemente filmada por Toninho Ávila e comentada pelo Pe. Ramiro José. Este último explicou o significado litúrgico dos fatos narrados: a presença viva de Cristo no ritual. Além dos eventos da Semana Santa gravaram também a via sacra realizada na Catedral de São João del-Rei, que é um outro modo de retratar os últimos momentos da vida de Jesus. Tudo isto pode ser adquirido por qualquer pessoa hoje em dia. Pode ser guardado como registro deste bem cultural imaterial, celebração que enriquece o casario dos séculos XVIII e XIX e que é o adorno desta celebração. Uma iniciativa interessante dos organizadores do vídeo. Ao assistir as filmagens comentadas nos vemos diante do desafio de reviver os últimos momentos do Senhor e reconstruir, para além da forma narrativa, o sentido de sua Presença em nossos dias.


sexta-feira, 24 de julho de 2015

A ALEMANHA, O CONTRAPONTO DA GRÉCIA. Selvino Antonio Malfatti




É opinião corrente entre os gregos e até mesmo recorrente de que a desgraça da Grécia está relacionada ao sucesso da Alemanha. Com efeito, dizem: roubaram-nos a língua, a filosofia, a ciência, a arte, a matemática e nos deixaram na miséria. Vejamos o contexto.
No momento a Grécia tem como líder político Alexis Tsipras- socialista e a Alemanha  Angela Markel - conservador, ambos herdeiros de um passado distinto que se reflete no presente.  O professor Ricardo Vélez Rodríguez, em "Menos Platão e mais Aristóteles", neste espaço, sugeriu que a Grécia está nesta situação porque não se adaptou às instituições políticas dos países da zona do euro e não tem mecanismos opara desembarcar e ao contrário, a Alemanha não só assimilou como foi protagonista do euro europeu. Aproveitando o tranco concordo, mas acrescento que isso aconteceu também no sentido dicotômico de idealismo versus realismo. A Alemanha condimentou sua política econômica com mais Aristóteles - realismo, enquanto a Grécia fez o inverso, priorizou Platão - idealismo. Por onde começamos?

Penso que uma data significativa para ambos pode ser o fim da II Guerra Mundial. A Grécia, libertada da ocupação nazista, alinha-se com os aliados e por isso sai vencedora; a Alemanha, causadora da guerra, a perdedora. A primeira, ainda durante o período bélico mundial, envolve-se numa guerra civil de cunho ideológico-político - socialista versus conservador – conflito que continuará após o término da conflagração mundial.
A Alemanha assina uma rendição incondicional e a guerra chega ao final. Já antes do término, os líderes aliados discutem o que fazer com a economia alemã. A decisão a que chegaram foi de destruir a indústria alemã e transformar o país numa economia agrícola. Era o Plano Morgenthau. Só após o fim da guerra este Plano foi mitigado. Assim mesmo, a Alemanha até 1947 definhava economicamente. Um dos problemas era o modelo econômico de mercado adotado pelos Estados Unidos, Inglaterra e França de um lado e o modelo estatizante da União Soviética. Ambos excluíam-se mutuamente. A solução encontrada foi dividir a Alemanha: uma parte ficaria com a Rússia e aí poderia implantar o seu modelo econômico e outra ficou com os demais aliados e que passariam a adotar o seu modelo.
Outra medida dos aliados foi de controlar a economia alemã através de salários e preços congelados e com isso controlariam a economia funcionando. Era aquilo que chamavam de inflação reprimida. O resultado era o pior possível. A oferta e demanda se autoeliminavam. Os preços deixavam de refletir o valor do dinheiro. Consequência: queda na produção, e em decorrência: escassez. Voltou-se tudo a estaca zero: economia de escambo em vez de monetária. As empresas passaram a trocar aquilo que produziam por aquilo que necessitavam. O efeito dominó não demorou. Os empregados também queriam ser pagos em mercadorias. E eles mesmos passaram a praticar o escambo, isto é, trocavam mercadorias que tinham por aquelas que necessitavam. Os trabalhadores não tinham mais incentivo para trabalhar e mesmo ganhar dinheiro. Queriam somente mercadorias. Como era necessário ter emprego para ter direito às papeletas de racionamento, conseguiam emprego, mas somente iam trabalhar duas ou três vezes semanais. O resto do tempo era dedicado a bicos e trocas. Esta situação econômica levou o país a quase total paralisia, chegando ao ápice em 1948.
A virada ocorre com Ludwig Erhard ao ser nomeado Diretor da Administração Econômica Bizonal propondo um plano econômico de reforma monetária junto com uma completa abolição dos controles sobre a economia. Os aliados receberam com ceticismo e desconfiança a reforma. Mas pouco a pouco o mercado negro desapareceu, os preços se estabilizaram, as mercadorias apareceram, os trabalhadores sentiram vontade de trabalhar e ganhar dinheiro e o povo sentiu vontade de comprar. Já em 1948, a Alemanha cresceu 143% e nas décadas seguintes uma das maiores taxas de crescimento do mundo.
E o que aconteceu com a economia da Alemanha oriental? Praticamente se tornou satélite da URSS, sem autonomia, subordinando-se às decisões superiores de Moscou, enquanto a ocidental, paulatinamente, retoma a vida autônoma. Nesse contexto, o renascimento dos partidos políticos, na ocidental, ocorreu com as primeiras eleições administrativas em 1946, quando se apresentaram  à disputa os democratas cristãos, os sociais democratas e os liberais, permanecendo esses grupos por quase meio século na arena política. Na zona dominada pelos soviéticos, os sociais democratas e os comunistas são obrigados a se fundirem, dificultando a competição para os demais partidos, como os democratas cristãos.
Em 14 de agosto de 1949, realizam-se as eleições na República Federal da Alemanha que dão a vitória aos democratas cristãos sob a liderança de Konrad Adenauer, o qual, em setembro, forma o primeiro gabinete de centro-direita, com os liberais e outros partidos conservadores. Adenauer escolhe para ministro Ludwig Erhard que leva adiante uma proposta político-econômica de economia social de mercado. Há que se frisar que a economia social de mercado não se identifica com o liberalismo econômico e nem com socialismo. A proposta é originária de ideias político-econômicas da própria Alemanha. A economia social de mercado pode ser entendida como uma combinação de liberdade de mercado com a eficiência proveniente da competência, bem como a garantia de uma existência digna para os setores menos favorecidos da sociedade.
O sucesso do plano foi secundado por alguns fatores que não dependeram diretamente do ministro Erhard. Entre eles, pode-se destacar que a situação catastrófica em que se encontrava a Alemanha não era da responsabilidade de nenhum partido recém-constituído. Em segundo, havia um ambiente cultural propício para a operacionalização de novas ideias econômicas, desenvolvidas durante o período nazista, com o objetivo de reorganizar a Alemanha após o fim da guerra.
Com o democrata cristão Adenauer no governo, no cargo de chanceler, e Erhard como ministro da economia, a Alemanha reingressa no concerto das nações democráticas ocidentais. A União Cristã Social – CDU e CSU – permanece hegemônica até 1966, quando se inaugura um governo de coalizão com os sociais democratas.
A trajetória político-econômica da Alemanha foi de trabalho, poupança, austeridade, não gastar mais que se ganha, um programa conservador? Se isto é conservadorismo, então, esta foi a ideologia que levou a Alemanha a uma das nações mais ricas da Europa. Deem-lhe o nome que quiserem, mas que a receita não é só boa, como ótima. Por outro lado, a Grécia insiste em implantar um modelo de distribuição de benesses, emprego, redução da jornada de trabalho, incentivo ao consumo, facilidade de crédito. È um programa progressista? Se isto for progressismo então esta ideologia levou a Grécia à pobreza.  A Alemanha adota uma visão aristotélica, isto é, realista enquanto a Grécia fixa-se numa mentalidade platônica ou idealista.
Aí está posto o paradoxo - aparência de falsidade - mas verdadeiro: o realismo de Aristóteles, leva ao progresso, e o idealismo de Platão, à estagnação. Então, por que a Grécia não adota também mais Aristóteles e menos Platão?




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