A vida contemporânea como todas as épocas de mudança e
transição exige grande esforço de compreensão e atualização. Entendê-la sim,
mas sabendo distinguir aquilo que chega como possibilidade e oportunidade, do
que parece menos adequado e razoável. Alguns filósofos passaram a denominar
esses dias do umbral de um novo tempo que se seguiu à pós-modernidade. O conceito de pós-moderno é complexo, ele
migrou da Arte para a Filosofia e ganhou forma no desconstrutivismo de Jacques
Derrida e nas teses de Gianni Vattimo e Pier Aldo Rovatti. Esses pensadores, na
síntese de Bauman (BAUMAN e BORDONI, Estado de crise. Rio de Janeiro: Zahar,
2016 b, p. 108): “são profundamente influenciados tanto por Nietzsche quanto
por Heidegger.” Eles constroem um pensamento (id., p. 109): “autorreferente,
provocador, intuitivo, obscuro, crítico, criativo e ferozmente crítico.” Ele
refere-se ao que começou na Europa, mas alcançou o resto do mundo.
Parece que tanto a modernidade, como a pós-modernidade,
ficou para trás e já começamos algo novo e indefinido. Não se trata de um
detalhe semântico, mas de novos aspectos da cultura. Assim, o que se chamou
pós-moderno é a porta de entrada de um novo tempo que ainda não temos uma
palavra exata para descrevê-lo. Estamos assistindo a muitas e profundas
mudanças no universo cultural, uma das piores é a tentativa de transformar o
cristianismo num apêndice do capitalismo e fazer a mensagem de Jesus parecer
ser um caminho de prosperidade financeira e não uma trilha de crescimento
espiritual.
Isso não significa que o crescimento pessoal prescinda de
um suporte material, nem que não seja desejável ter boas condições de vida. Ter
uma vida segura e confortável não é mal. Não se trata de fazer a defesa da
pobreza como em outras épocas. Não é esse o problema, o que estraga tudo é
transformar o que é meio em fim. Ter condições materiais adequadas é a base
para uma vida que pode ou não me levar a Deus. Não é garantia da presença de
Deus na vida e nem é um prêmio pela fé. Pessoas de diferentes classes podem chegar
a Deus se fizerem a trajetória de fé e amor que leva a Ele. No entanto, a
advertência de Jesus é extremamente atual, quem se apega ao que é meio está
distante do Reino de Deus. É pelo amor que se vai a Deus, pelo amor a Deus e ao
próximo. Pela caridade com o mais pobre, pelo amparo do mais fraco, pelo
cuidado verdadeiro com o pequeno, pelo respeito com todos.
Um dos capítulos mais tristes desses nossos dias é a
emergência de um falso cristianismo. O uso da mensagem de Jesus carregada de
ódio, com motivação política, usado para defender a riqueza, as armas, a
violência, a discriminação do pobre, do estrangeiro e do diferente. Enfim tudo
o que não está em Jesus e nem vem de Deus.
O primeiro fruto do verdadeiro cristianismo é o amor ao
próximo. Isso já está no decálogo de Moisés, o amor a Deus no primeiro
mandamento é a base para todos os outros nove. Os mandamentos foram à raiz da
mensagem com Jesus, como na síntese de Mateus (22, 37-39): Respondeu Jesus:
" Ame o Senhor, o seu Deus de todo o seu coração, de toda a sua alma e de
todo o seu entendimento'. Este é o primeiro e maior mandamento. E o segundo é
semelhante a ele: 'Ame o seu próximo como a si mesmo.” Portanto, todo aquele
que abandona o segundo mandamento, não segue o primeiro, pois a Trindade é constituída
de pessoas, como é o mundo que habitamos. E a Pessoa é o maior valor dentre
todas as coisas.
Havia muitas regras, costumes, tradições no Primeiro
Testamento, usadas para se purificar e manter-se limpo. Rituais
complicadíssimos, que foram criados principalmente como norma de higiene para
um povo que vivia no deserto, mas que era apenas o instrumento para o que
verdadeiramente importa, amar a vida e respeitá-la.
Essa foi a linda transição íntima de ressignificação da
fé que fez Paulo de Tarso tornar-se cristão. Ele entendeu que todas as regras,
todas as exigências, todas as leis perdem o sentido quando se tornam fim, pois
o fim é Jesus e suas palavras, aquelas que não passarão. Paulo as resumiu (Cor.
1, 13): “ainda que eu falasse a língua dos homens e dos anjos, se não tivesse
amor seria como o metal que soa e o címbalo que tine.” E segue-se nessa carta
aos Coríntios, a versão paulina do Sermão da Montanha. Pois só seremos de fato
terrivelmente evangélicos se a nossa relação com os outros os ajudarem a serem
melhores pessoas e nos esforçarmos também para o ser. Por isso todo meu
respeito ao Pe. Júlio Lancelotti e a todos os que fazem do amor a razão da
vida. Pois tudo o que na vida vale a pena e tem verdadeiro significado é, em
sua raiz, amor. Amor em todas as suas formas, aos pais, aos filhos, ao esposo e
a esposa e ao próximo em geral.
Nenhum comentário:
Postar um comentário