No
prefácio que Bauman escreveu para Legisladores e Intérpretes (2010 d) há
uma explicação importante sobre a evolução do seu conceito fundamental. Para se
referir a nossos dias ele usou, durante algum tempo, a expressão
pós-modernidade e aos poucos ajustou o termo para modernidade líquida. Não
rejeitou o primeiro conceito inicial, mas reconheceu sua insuficiência. Ambos
são sinônimos de dias atuais e traduzem a ideia de que estamos num tempo
diverso do que vivemos até algumas décadas. Porém, assinalar apenas essa
diferenciação oferece pouca informação sobre o que está surgindo no mundo. O
que a aurora desses novos dias já deixa ver?
O
problema do conceito pós-modernidade é que ele contempla um aspecto puramente
negativo, ele marca a diferença dos novos dias, mas não diz nada além disso. O
conceito (BAUMAN, 2010 d, p. 11): “nos dizia profusamente que a realidade atual
já não era, mas oferecia pouca informação sobre o que estava em seu lugar.” O
que ele esperava traduzir era o seguinte (ibidem): “a era da modernidade
terminou e estamos, por assim dizer, já no lado oposto, ou pelo menos perto de
entrar nele.” E havia uma outra questão não contemplada. Se já se estava numa
outra época, ainda nela restavam elementos da modernidade, não era um tempo
completamente oposto ao deixado para trás. Pensar numa oposição absoluta (ibidem):
“parecia inaceitável e errado, porque, até onde se sabia, éramos modernos por
completo; na verdade, mais modernos que nunca; ou seja, voltamos a lâmina
afiada da faca modernizadora contra a própria modernidade.” Mesmo sendo uma
outra era, havia também um pouco de modernidade, compulsivamente modernos eram
os novos dias.
A
modernidade sólida, o tempo deixado para trás, além de estabilizar as
instituições propunha-se a estruturar fundamentos, padrões e rotinas para que a
duração e a segurança fossem alcançadas reduzindo as instabilidades
existenciais, que naturalmente permanecem além do planejamento humano. Bauman
passou a definir como liquida a nova modernidade, que era diversa da antiga
porque nela o que estava em curso era o contrário do que prevaleceu antes. O
modelo utilizado para representar as estruturas que se consolidaram na
modernidade sólida como forma de controle e disciplina é o projeto panóptico.
Bauman mencionou os trabalhos de Michel Foucault que identificou o papel social
dessas instituições. Esse modelo apresenta unidades sólidas, com prédios
enormes, espaços vigiados, chefias verticais, uma estrutura cara, pois ela
(id., p. 17): “requer presença, e engajamento, pelo menos uma confrontação e um
cabo-de-guerra permanentes.”
Então
se solidificar era o objetivo anterior (id., p. 13): “a perpétua conversão em
líquido ou estado permanente de liquidez, é o paradigma para alcançar e
compreender os tempos mais recentes – esses tempos em que novas vidas estão
sendo escritas.” O processo de desarranjo migrou da vida econômica para a
social-política e daí para a pessoal. A desintegração dos laços sociais e
pessoais pode parecer um efeito colateral e imprevisto das mudanças econômicas,
mas não são. Quanto mais leves, fluídas, escorregadias, evasivas e fugidias são
as relações pessoais, melhor o ambiente para a globalização. Ela se beneficia
da ausência de barreiras e fronteiras fortes, inclusive nas relações pessoais.
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