sexta-feira, 7 de março de 2014

UM PREÇO A PAGAR. Gustavo Muller




O que assistimos na manhã do dia 27 de fevereiro de 2014, a absolvição dos quadrilheiros do PT pelo crime de formação de quadrilha (o pleonasmo é proposital), é o preço a pagar pelo que ainda resta de Estado Democrático de Direito. Mas esse preço pode ser diferenciado. Para aqueles que têm uma adesão instrumental à democracia, o voto do ministro Celso de Mello, que no final de 2013 reconheceu o cabimento dos embargos infringentes, foi a afirmação desse Estado Democrático de Direito, ou simplesmente Estado de Direito, tal como era a Alemanha nazista. Já para aqueles que vêem  na democracia um valor em si, o reconhecimento dos embargos estava na contabilidade.

Contudo, o que se assistiu naquela manhã foi fruto das manobras legais, mas não legítimas, na composição do Tribunal. Esse mesmo tribunal composto majoritariamente por indicações de Lula e Dilma e que já havia sido acusado de “Tribunal de Exceção”. Ora, um juiz que até ontem foi advogado de um partido deveria ter se declarado impedido. Alguém que já havia emitido opiniões acerca do julgamento, uma vez nomeado ministro, também deveria ter se declarado impedido.

O que se tratou na Ação Penal 470 foi a corrupção institucional pela compra de apoio parlamentar. Tal constatação foi explicitada no voto insuspeito de Celso de Mello. Portanto, embora a absolvição desse “bando” não altere o resultado das penas já em fase de execução, ela é revestida de um simbolismo, pois qualifica essa gente como “criminosos comuns”, quando, na verdade (e aqui endosso a tese dos presos políticos), tratou-se, citando mais uma vez Celso de Mello, “de um crime contra a República praticado nos mais altos escalões do governo”.
Com efeito, nesses quase 12 anos de governo petista, a reforma “intelectual e moral” está sendo feita. Provavelmente, em vistas do cenário de hoje, Dilma será reeleita, e teremos de conviver ora com a imbecilidade, ora com o cinismo de quem diz que a reeleição será “a resposta à tentativa de golpe das elites”. Mas, na verdade, a reeleição ocorrerá pela inércia da oposição e pela equivocada percepção do bom desempenho econômico. Equivocada porque ainda não se percebeu que a estabilidade está sendo posta fora. Uma vez reeleita, o populismo econômico acabará. Surgirão novos “blocões” no afã de abocanhar o que restar nos cofres públicos. Os black blocs se multiplicarão. Virá a crise de governabilidade e, aí, talvez tenhamos de conduzir uma solução democrática para a crise de grupo que exauriu seu modelo, mas que terá de ter sobrevida para que o país encontre novos rumos.
Dezesseis anos não chega a ser o tempo de uma geração. Teremos espaço para preparar a geração futura. Esse é o preço a pagar.

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

A VIOLÊNCIA NO MUNDO. José Maurício de Carvalho.




Há poucos dias amanhecemos com a triste notícia de que 25 pessoas morreram na revolta popular, na Ucrânia, contra o governo do Presidente Viktor Yanukovich. Dos mortos 9 são policiais. Outras 241 pessoas foram hospitalizadas em estado grave, sendo 79 policiais e 5 jornalistas. Segundo agências internacionais, prefeituras de algumas cidades da Ucrânia foram tomadas no interior do país e, em Ternopil, até a delegacia de polícia foi ocupada pelos revoltosos. O pano de fundo do confronto é ressaca da Guerra Fria. De um lado, a população desejosa de aproximação com a Europa Ocidental, sonhando com uma vida melhor e aperfeiçoamento democrático das suas instituições, de outro a pressão do Governo Russo que teme perder o aliado histórico e apoio da maior e mais rica entre as antigas Repúblicas aliadas da Rússia no desfeito bloco Soviético. Entre os interesses conflitantes, tendo que administrar a pressão dos dois lados e sem saída simples, o governo do Presidente Yanukovich.
O nível do conflito mostra a perda de controle da situação, com clamores do Papa Francisco pelo fim da violência na Ucrânia, ameaça da ONU de tomar medidas contra o governo e ameaça da CE de também aplicar punições ao país. A maioria da população está em casa, assustada com o crescimento da violência: as escolas estão fechadas, a economia do país está parando. São muitas as cidades afetadas pelas revoltas.
Sem o mesmo clima de guerra, mas em situação de crescente tensão Venezuela e Tailândia enfrentam revoltas contra seus governos. Nos dois países não se sabe para onde pode rumar os acontecimentos, mas neste último há notícias da morte de cinco pessoas somente ontem dia 19 de fevereiro. As pessoas mortas estavam envolvidas nas revoltas contra o governo da primeira ministra da Tailândia Yngluck Shinawatra.
A referência a esses três países parece suficiente para ilustrar o que quero dizer, embora a violência não esteja restrita neles. Ela se alastra por todos os cantos do mundo, desde a Guerra no Mali até a situação de quase descontrole no Iraque, na aberta Guerra Civil da Síria e nos atentados terroristas no Paquistão. Todos esses episódios possuem em comum a revolta da população contra governos que não são liberais democracias, nem possuem tradição democrática. Por isto, a revolta popular se aproxima de verdadeira guerra civil, onde ainda não se tornou tal. Em todos os casos citados a população espera mudar governos, embora no Mali haja envolvimento do terrorismo religioso e disputas étnicas, deixando confuso o quadro político.
A imprensa inadvertidamente chama a esses atos de guerra civil ou de terrorismo explícito de manifestações, como se tratasse do mesmo fenômeno existente nas nações livres. Outro dia assisti um conhecido jornalista da Globo News dizer que cobrir manifestações está muito arriscado hoje em dia, sem se dar conta de que não está falando de manifestação, ou pelo menos, não daquela que defendemos como direito legítimo que a população tem, nos países de tradição liberal democrática, de manifestar sua opinião sobre os assuntos que envolvem o destino da sociedade.
Pior e mais confuso fica o quadro nacional quando altos representantes do governo brasileiro mencionam o direito legítimo às manifestações, para se referir aos atos de revolta e vandalismo, sustentados e organizados por radicais inimigos da democracia representativa, que se espalharam pelo país. Não importa a raiz ideológica: radicais de esquerda e direita são inimigos da democracia representativa e levarão o país ao caos para tomar, pela força, o governo. Nenhum destes grupos radicais serve à democracia conquistada com sangue e sacrifício pela geração que criou a Nova República. A Ditadura vencida iniciou, em 64, justamente quando o governo perdeu controle das chamadas manifestações sociais.
Na expectativa de não ver nosso país caminhar para os atos de violência que não fazem sentido num sistema democrático com liberdade de expressão e caminhos institucionais funcionando plenamente para a mudança dos governantes que não atendam a sociedade, faço distinção entre manifestações democráticas asseguradas em lei, dos atos de rebeldia e vandalismo, contrários à lei e a ordem que levaram recentemente a morte do jornalista da Rede Bandeirantes. Neles já está provada a participação de partidos políticos radicais de esquerda que aliciaram jovens pelas redes sociais e financiaram a baderna e o quebra-quebra, pois desejam destruir a estabilidade do país com a chamada pressão popular. Esses radicais, aproveitando-se do clima de insatisfação decorrente da redução do nível de desenvolvimento econômico e das fantasias criadas em volta da Copa do Mundo, querem instaurar o caos para se beneficiar dele.

Esperemos que as autoridades da República saibam não só defendê-la dos violentos como explicar as coisas à sociedade. O que são mesmo manifestações democráticas nos países livres?

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

O BRASIL DE MODELO. Selvino Antonio Malfatti.





O sociólogo italiano Domenico de Masi, autor do livro O Futuro Chegou sustenta a idéia de que o Brasil pode inspirar um novo modelo de sociedade. Acha ele que, após analisar 15 sociedades precedentes, encontrou a fórmula para ser feliz.
Constata que atualmente as pessoas estão muito confusas, já não distinguindo o certo do errado, o belo do feio, o falso do verdadeiro, o sacro do profano e mesmo o que é homem e o que é mulher. Em economia, por exemplo, não se distingue o que compete ao Estado e o que é de competência do mercado. Pensa que isto é devido ao fato de que pela primeira vez na história surge um tipo de sociedade sem projeto anterior. Para ele Roma nasceu de um projeto cristão, a sociedade árabe do Alcorão, a sociedade industrial do liberalismo. A atual surgiu espontaneamente.
Só para contribuir com o debate, penso que nossa sociedade não nasceu de um projeto justamente por que os propostos mostraram-se inviáveis, falsos. Foram propostos projetos de sociedades comunistas, mas fracassaram. Tentou-se implantar modelos nazistas, fascistas e positivistas mas não deram certo. Todos foram descartados. Em resumo, os modelos propostos foram o coletivistas mas, todos eles, foram rejeitados por incompatíveis. Daí que o modelo de sociedade atual não tem modelo.
Voltando ao raciocínio de De Masi, pensa ele que o Brasil pode dar uma significativa contribuição para uma sociedade mais feliz no futuro. Este país tem uma cultura peculiar que pode amalgamar os ingredientes para um futuro melhor. Entre eles podem ser citados a miscigenação e a mistura de culturas as mais diversas e que convivem pacificamente. Há cultura indígena, negra, branca e asiática, bem como as respectivas raças. Inclusive o tão criticado “jeitinho brasileiro” para ele tem aspectos positivos, como para dar flexibilidade diante à rigidez das normas. O Brasil, para ele, tem senso de vida, tem ritmo e música, as relações interpessoais têm beleza, é extrovertido, é sensual. Isto é positivo e pode ser imitado e com isto se introduz a felicidade na convivência social.
O grande problema é que o Brasil não assume sua própria cultura. Primeiramente passou 450 anos imitando a Europa e agora ultimamente só pensa nos Estados Unidos. Este é seu maior entrave: imitar os outros. Há uma tendência de “bostonizar” a economia, de “rocalizar” a arte e “inglesar” o língua. Isto destrói e descaracteriza a própria cultura.
Um dos aspectos que mais se destaca é da questão da “felicidade no trabalho”. Esta advém da autorrealização criativa, presente no trabalho que depende da mente e ausente no braçal. A felicidade advém quando o trabalhador atua com liberdade, tem mútua ajuda dos demais, a incerteza é reduzida, percebe a correlação entre o trabalho e a vida, o conflito é substituído pela cordialidade. Só então as probabilidades de um trabalho prazeroso aumentam.

Ora, para se atingir isso é preciso substituir o controle pelo incentivo. O primeiro impõe, escraviza, subjuga. O segundo valoriza, dialoga, liberta. Um trabalho livre e espontâneo faz as pessoas crescerem e por isso trabalham felizes. Há, porém, um enorme entrave para isso: o trabalho braçal. Enquanto houver necessidade deste, as pessoas que o exercem dificilmente serão felizes. Não é a mesma coisa um trabalho de complemento da automação (rotineiro e repetitivo) e a atividade de um designer, essencialmente criativo. O primeiro tem um lugar fixo e o cumprimento no horário pré-estabelecido. O segundo pode acontecer em qualquer lugar e qualquer tempo. Dificilmente alguém se sente feliz com o trabalho preso a um lugar e a um horário. Quando a máquina conseguir substituir esta atividade, então é possível abrir as portas da felicidade laboral também ao trabalhador braçal.

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

A MORTE DO JORNALISTA: UM FOGUETE NA DEMOCRACIA. José Maurício de Carvalho


Acaba de ser anunciada a morte do jornalista Santiago Ilídio Andrade, trabalhador premiado e funcionário da Rede Bandeirantes de Televisão. As entidades de classe que representam a profissão pressionam as autoridades para encontrar e punir os culpados. E têm razão na indignação contra os assassinos do jornalista que devem ser punidos como manda a lei.
Nenhuma sociedade civilizada pode conviver com o assassinato de seus membros. Todo cidadão honesto e trabalhador colabora no funcionamento da coletividade e os membros da sociedade não são isolados em sua liberdade. Embora únicos como pessoas são partes de entidades e integram grupos sociais que são afetados com sua presença. O grupo mais atingido, no caso, não foi o sindicado dos jornalistas com a perda do colega, ou a Rede Bandeirantes que ficou sem seu cinegrafista, mas a família do jornalista, destruída que foi de forma brutal. Na família Santiago Andrade não será substituído.
O jovem Fábio Raposo, identificado e preso, quer agora livrar-se da culpa, como se sua ação de distribuir rojões e participar do Black Bloc não tivesse sido fotografada e filmada.  Raposo, não estava ali por acaso, ele já foi identificado em outras manifestações igualmente violentas no Rio de Janeiro. Com o medo que é próprio nas cidades brasileiras seus vizinhos mostraram a marca que ele pintou no prédio (mais essa) em apologia às ações do Black Bloc. Cidadão pacífico? Manifestação democrática? Não há qualquer consistência na história que ele contou, não há manifestação cidadã no que ocorreu. O inesperado é a admiração que revela com o resultado do que fez porque, antes certo e confiante na impunidade, agora tem contra ele a imprensa brasileira a cobrar punição das autoridades.
O certo é que as manifestações que desde o ano passado alastraram-se pelo país, salvo exceções, não são pacíficas e não são democráticas como ocorrem nas sociedades livres. Nelas as manifestações são informadas às autoridades, têm hora para começar e terminar, são acompanhadas pela polícia que está ali para proteger os manifestantes e assegurar o seu direito de expressar livremente a opinião. Nada disso ocorre nos atos de baderna explícita e violência generalizada que aliás já provocou a morte de outras pessoas. Infelizmente não eram jornalistas e a morte delas não causou a mesma comoção. Elas se tornaram parte da estatística de violência que todos os dias assistimos consternados nos telejornais.
Isto não significa que não exista pessoas realmente interessadas em melhorar o país e que participaram de manifestações. Contudo, o cidadão bem intencionado já deve ter se dado conta de que apenas está funcionando como figurante e cortina de fumaça de atos orquestrados e combinados por grupos políticos radicais e violentos. Se realmente quer o bem do país tal cidadão já está pensando em outra forma de fazer chegar seu desagrado às autoridades.
O que conseguiram Fábio Raposo e seus colegas do Black Bloc foi tirar do foco o debate sobre o aumento das passagens. Não significa que o aumento não seja necessário, mas um governo sério deve informar as razões do aumento e ser capaz de explicá-lo em qualquer instância e cidadãos que usam o serviço coletivo precisam ser capazes de dialogar e entender os problemas. A imposição pela força do interesse de um grupo, qualquer que seja, ainda que aparentemente justo, não é próprio de sociedade democrática e muito menos consiste em manifestação cidadã.
Espera-se que a morte do jornalista sirva para que sociedade e o governo reflitam sobre o que está acontecendo no país, pois a violência não é ato de criação social, não é expressão legítima dos interesses de grupo, mas um ato de força que desafia o Estado. O que essas manifestações e a morte do jornalista estão mostrando é que além de funcionar mal: oferecer serviços ruins, infra-estrutura precária, as autoridades brasileiras não distinguem liberdade de expressão de imposição violenta de interesses. Não parece ser para deixar sair livremente os instintos agressivos e violentos que tanto se lutou pela democracia no país.

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

A liberdade e seus limites. José Maurício de Carvalho.




O homem é capaz de escolher e dar rumo a sua vida. E as escolhas dirigem a existência porque ele é capaz de planejar o futuro e de se responsabilizar pelas escolhas. As opções apontam, então, para um sentido. E como as escolhas são expressão da liberdade, podemos dizer que a história do homem é jornada de conquista da liberdade ou da construção do futuro, da liberdade das pessoas e da sociedade. Falamos de conquista porque nem a liberdade dos indivíduos teve sempre a mesma amplitude em todas as etapas da história e porque a liberdade dos grupos se subordina ao desenvolvimento tecnológico, científico, moral, social, religioso, econômico e jurídico. Por isso, ao pensar o que é a história humana, o filósofo alemão Georg Hegel a identificava como a evolução da liberdade da consciência e das normas.
Não interessa entrar aqui nos detalhes de sua meditação, apenas notar que ele tratou a liberdade como conquista de grupos e pessoas porque olhou o futuro como o triunfo deste projeto. Hegel observou o papel que a meditação filosófica teve entre os antigos gregos na construção da liberdade e, ainda, de que modo o cristianismo aprimorou a noção de liberdade íntima quando a liberdade política não teve como se expressar no Império Romano. Finalmente, o pensador alemão considerou a liberdade cidadã no que chama de mundo germânico, isto é, a parte da Europa que viveu o clima da reforma protestante (o antigo Império austro-húngaro, a Escandinávia, a Holanda e até a Grã-Bretanha).
A liberdade cidadã, notadamente depois da Revolução Francesa, colocou em pauta a chamada liberdade negativa, que foi assumida pelos liberais da primeira hora. E o que é a liberdade negativa? É o entendimento de que sou tanto mais livre quanto menos os outros interferem nas minhas decisões. Nesse caso a liberdade é fazer o que quero e como quero. Tanto faz se isto significa construir sem prestar contas às leis, o que é um desastre para a preservação das cidades históricas e sítios de valor arquitetônico, como não seguir as leis de trânsito e meter a faca em quem não gostar, como ocorreu esta semana em São Paulo. Esta noção de liberdade só pode vigorar pela completa imaturidade intelectual de quem desconhece os limites da moralidade, das leis e das necessidades que regem a convivência social. Pode-se, acrescentar, um Estado que funcione mal e não consiga ensinar aos cidadãos, nem aplicar as leis.
Assim, se a história humana é a conquista da liberdade, ela também é reflexão sobre seus limites já que a liberdade completa é só para Deus e incompatível com a vida em grupo, com leis morais e jurídicas. Basta lembrar que a noção de liberdade negativa é impossível porque significa a imposição da vontade individual sobre todo o grupo. Por outro lado, o que parece ser grande liberdade numa época (viajar até Paris para um índio da América pré-colombiana), pouco significa hoje em dia. Logo, o conceito de liberdade é inesgotável e depende do nível alcançado por uma sociedade ou pela razão. É o que ensinou Kant: nós podemos agir seguindo nossos impulsos, mas uma ação só é correta se atende ao um princípio racional que a oriente. Quando a razão não basta para conter os impulsos e desejos a lei estabelece o limite aceitável das ações.
Estamos vivendo hoje em dia um tempo crítico na história do país, talvez da humanidade, porque perdemos os limites impostos pela moralidade (pela razão) e pela lei. Por exemplo, a baderna e o vandalismo em nossas capitais, apresentadas sob o nome protesto legítimo diante de autoridades incompetentes que assistem bestializadas o que se passa. Outro exemplo, a banalidade e impunidade com que se mata, se furta, se descumpre as leis de trânsito, se desrespeita o direito dos outros.

A sociedade brasileira, e mundial, está atualmente desafia a repensar o sentido da liberdade para recolocá-la no nível que podemos vive-la em nosso tempo, pela obediência as normas de moralidade e leis democraticamente criadas e vigentes no Estado de Direito.

sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

A QUESTÃO DA TERRA NO BRASIL. Selvino Antonio Malfatti.



A propósito da celeuma em torno da devolução de terras pertencentes aos índios; dos quilombos aos habitados pelos negros; distribuição de latifúndios aos Sem-Terra, é bom lembrar algumas questões, independentes da posição ideológica.



Quando Cabral chegou ao Brasil não encontrou um sistema jurídico no qual se definissem direitos e deveres em relação à propriedade. Os índios não tinham propriedades, apenas territórios onde habitavam. Cada tribo ocupava uma determinada extensão de terras de onde tirava, via coleta, o necessário para alimentação. Dentro deste território também não havia propriedade privada. 
A coroa portuguesa, logo que tomou posse da terra, tratou de instituir um regime jurídico para este imenso território. Dividiu-o em capitanias e dentro delas começou a distribuição de sesmarias, isto é, propriedades privadas. Evidentemente, à revelia dos índios que não foram nem convidados e nem consultados. Foi um ato do poder político de forma autocrática, bastante comum naqueles tempos. Portanto, juridicamente o poder não confiscou a propriedade dos índios por que ela não existia. Ao contrário, implantou a propriedade.


Da mesma forma, os locais onde os negros se refugiavam ao fugir da escravidão, não constituíam uma propriedade, mas um território onde se libertavam. Por isso, também neste caso não havia propriedade e por isso não se pode dizer que atualmente o Estado “devolve” a propriedade ao descendestes dos negros, mas apenas reconhece o territórios onde residiam, dando-lhe foro de propriedade.




Já com os Sem-Terra ocorre uma reivindicação de uma propriedade já existente, portanto, diferente do caso dos índios e negros. Neste caso, o Estado desapropria um e transfere a propriedade para outro titular.  Aqui sim, há uma propriedade que passa de um sujeito para outro. Para melhor elucidar a questão trazemos um olhar de um estrangeiro, focando o questão dos Sem-Terra no Brasil.
O livro “Função Social da Propriedade e dos Latifúndios Ocupados”, do Professor Mário Losano, da Universidade Degli Studi di Milano, aborda a questão agrária brasileira, a qual envolve vários atores: políticos, juristas, latifundiários e Movimento dos Sem-Terra, negros e índios. Embora se restrinja aos Sem-Terra, as teses podem ser aplicadas aos outros atores. A problemática analisada pelo autor procura evidenciar os limites entre estereótipos e realidade das questões: está o Brasil cheio de latifúndios improdutivos? Os excluídos das periferias urbanas podem se tornar agricultores? A pequena propriedade campesina pode ser auto-suficiente? Quantos realmente são os sem-terra? Quantos são os latifúndios improdutivos? Faz sentido ocupar os latifúndios, mesmo os produtivos, e dividi-los em pequenas propriedades? Faz algum sentido a monocultura num país que luta contra a fome? Quanto custa ao Estado, e por extensão à sociedade, um processo de assentamento? É possível um modelo de reforma agrária para todo o Brasil? Pode continuar a Igreja católica alimentar um exército de sem-terras acenando-lhes para uma duvidosa “Terra Prometida”? Em vez de prometer “terra para todos” não seria melhor incentivar um convívio entre “agrobusiness” e uma agricultura familiar?
Para expor e discutir estes assuntos Losano divide o livro em cinco capítulos. Os dois primeiros, “Diário Seletivo de Dois Meses Normais” e “Política Agrária e Reforma Agrária” preparam a grande discussão que acontece no capítulo terceiro: “A Ocupação das Terras Improdutivas e o Movimento dos Sem-Terra”. Este é o capítulo central, pois discute os fundamentos filosófico-jurídicos que alimentam a ideologia dos Sem-Terra, dos latifundiários e do governo. O capítulo refaz com maestria a trajetória genética dos Sem- Terra: opção preferencial pelos pobres, teologia da libertação, Comunidade Eclesial de Base, Pastoral da Terra, Movimento dos Sem-Terra e Partido dos Trabalhadores. A fundamentação filosófica do Movimento dos Sem-Terra –MST- reside na tradicional Doutrina da Igreja católica do direito natural. Conforme esta doutrina a terra é de Deus e Este a deu a todos. A Doutrina da Igreja católica defende que o direito à terra é inerente à natureza humana por obra do Criador. Para os Sem-Terra este direito natural é reforçado pelo dispositivo constitucional afirmando que a terra tem uma função social e que as terras improdutivas são passíveis de desapropriação. Os latifundiários apegam-se ao “sagrado” direito de propriedade de conformidade com a filosofia liberal e argumentam que o dispositivo constitucional ainda não foi regulamentado. O governo, por sua vez, em voltas com a eficácia, necessita seguir os trâmites processuais para desapropriação e posterior assentamento. Em síntese: o Movimento dos Sem-Terra apóiam-se num argumento teológico; os ruralistas apegam-se ao jurídico e o governo age politicamente. Esta é a problemática com seus desencontros e conflitos e discutida pelo professor Losano. O Movimento dos Sem-Terra, estribado nestes dois suportes, um filosófico-religioso e outro filosófico-jurídico, lança-se à ocupação (na versão dos sem-terra) e invasão (na versão dos ruralistas) de terras supostamente improdutivas. Os ruralistas ingressam na justiça pedem a reintegração de posse. O Partido dos Trabalhadores –PT- que na origem do Movimento dos Sem-Terra foi o grande incentivador e mesmo financiador - atualmente é governo e diante disso opõe-se à ação dos Sem-terra. Este é um dilema tanto para o governo como para o Movimento dos Sem-Terra. Se pressionar o governo está deixando em apuros antigos e atuais companheiros, se o governo acua os Sem-Terra está rasgando bandeiras que o ajudou a eleger-se.


sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

Kierkegaard e o desafio de ser o que se é. José Maurício de Carvalho.















Kierkegaard foi um pensador dinamarquês que viveu quase toda a vida na primeira metade do século XIX. Nasceu em 1813 e morreu, ainda jovem, em 1855. Até cerca de exatos cem anos atrás, em 1914, nenhum livro de filosofia mencionava o pensador, dizia-nos Karl Jaspers no ensaio que lhe dedicou, em 1955. E o que ocorreu desde então? O quadro mudou radicalmente e ele passou não só a ser citado nos manuais de Filosofia, mas a ser apresentado como anunciador de um mundo novo, de um mundo que sucedia as teses otimistas e progressistas do idealismo alemão, notadamente de Georg Hegel.
Uma leitura inicial dos textos do filósofo nos coloca em contato com uma reflexão crítica sobre o cristianismo e seu significado na história dos homens. E para onde conduziu sua reflexão crítica do cristianismo? Para um desencanto com as interpretações religiosas do cristianismo feitas pelas Igrejas. O motivo da insatisfação é a distância que a doutrina está do homem concreto. Ele rejeita uma interpretação do cristianismo que pouco tem a dizer para quem está vivendo a vida rotineira com suas alegrias e dramas. Sim, porque a vida é um misto de drama e alegria, com peso diferente para homens e gerações, para uns com mais alegria, para outros com mais drama. Tal é o peso da história.
E por que o cristianismo anunciado lhe parecia distante da experiência do homem concreto? Por que focava o principal de sua atenção no futuro glorioso da humanidade, resultado da leitura romântica da história cultural da Europa. No entanto, essa visão deixava de lado a dor, a fome, as revoluções, as guerras, as doenças, o abandono, o sofrimento, enfim tudo o que parece estar mais próximo da experiência real de cada pessoa. E observe que o propósito de Kierkegaard com sua crítica não é propor uma nova Igreja, ou fazer uma reforma nas que existiam, menos ainda sugerir um programa político ou plano de governo. Kierkegaard estava longe de todos esses propósitos, saboreando a solidão existencial e sem vivenciar relações humanas muito íntimas. A imagem do juízo final, em que cada homem está entre tanta gente, mas se mantêm absolutamente só diante de Deus é a alegoria que ele usa para dizer de como vive e de que tipo de resposta procura. Ele fala para o homem, enquanto capaz de realizar a experiência da solidão verdadeira que é própria de nossa vida. É para essa solidão que ele busca resposta. E resposta para que? Para o que deveria verdadeiramente nos ocupar quando tomamos consciência de que nossa vida é única e ninguém pode vivê-la por nós.
Deixando de lado as preocupações religiosas do pensador e centrando a atenção no que está na raiz de suas preocupações filosóficas é que nos deparamos com questão que, ainda hoje, parece urgente e instigante. Se estamos verdadeiramente sós na experiência da existência, essa realidade nos coloca diante de uma questão a que a meditação diária nos deveria levar: o que significa ser eu mesmo? A simples colocação dessa pergunta torna a vida humana diferente e ela parece urgente e necessária ainda em nossos dias. A reflexão nos coloca diante do fato de que não teremos resposta para essa pergunta radical se esperamos que nossa vida seja conduzida de fora, se as decisões que temos que tomar tiverem que ser feitas por outrem. A vida pensada por Kierkegaard é aquela que cada um de nós experimenta na sinceridade íntima de ser o que se é.

Essa jornada interior de escolhas só pode ser guiada pela riqueza espiritual que conseguirmos reunir em nossa existência, as experiências de belo e bom que puderem orientar a vida, que para o jovem dinamarquês se encontrava na tradição cultural do ocidente.

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