sexta-feira, 10 de julho de 2015

Evangelii Gaudium, a Igreja do Papa Francisco.José Mauricio de Carvalho - UFSJ





O Papa Francisco resumiu os desafios da Igreja de nosso tempo na Exortação Apostólica Evangelii Gaudium. No documento o Pontífice toca num aspecto sensível e atual: a necessidade de uma nova presença da Instituição no mundo. O nosso tempo, com seus desafios, pede uma atuação singular da Igreja. Embora dirigida a todos os cristãos, a exortação do Papa Francisco dirige-se principalmente ao clero, estimulado a adotar uma atitude que o Pontífice denomina missionária. Poderíamos traduzir Igreja Missionária como aquela que vive no espírito acolhedor e amoroso do Fundador. Simples assim, o Papa quer uma Igreja que se entusiasme na singela alegria de anunciar o Senhor. Uma Instituição que saiba separar o que é essencial na sua missão dos acessórios incorporados ao longo de sua história.
O essencial da exortação do Papa Francisco encontra-se no início do documento: aqueles que se deixam tocar por Jesus "são libertados do pecado, da tristeza, do vazio interior, do isolamento. Com Jesus Cristo, renasce sem cessar a alegria" (p. 3). E essa maravilhosa relação pessoal de sentido em razão do encontro com Cristo, no entendimento do Papa, a resposta para o sofrimento dos homens de hoje. Esta Igreja está desafiada anunciar a "doce alegria do amor de Deus" (p. 4).
A alegria do anúncio vem da fidelidade ao Evangelho. Se o convite para anunciar o Senhor for deixado de lado em nome de outras doutrinas e procedimentos a Igreja se afasta do essencial. Escreve o Papa: "Se tal convite não refulge com vigor e fascínio, o edifício moral da Igreja corre o risco de se tornar um castelo de cartas, sendo este o nosso pior perigo: é que, então, não estaremos propriamente a anunciar o Evangelho, mas algumas acentuações doutrinais ou morais, que derivam de certas opções ideológicas. A mensagem correrá o risco de perder o seu frescor e já não ter o perfume do Evangelho" (p. 34/35).
Para anunciar com alegria o Evangelho a Igreja, principalmente seus ministros, precisam distinguir o fundamental do acessório. Como diz o Papa Francisco, esta distinção é necessária "tanto para os dogmas da fé como para o conjunto dos ensinamentos da Igreja, incluindo a doutrina moral" (p. 32). Separar o principal do secundário é desafio permanente da Igreja, que tem que transmitir a eterna boa nova em meio aos ruídos do mundo. Logo o anúncio precisa ganhar a forma dos tempos, para que o ensinamento conserve o eterno frescor da formulação original. Explica Francisco: "as enormes e rápidas mudanças culturais exigem que prestemos constante atenção ao tentar exprimir as verdades de sempre numa linguagem que permita reconhecer a sua permanente novidade" (p. 36).
Para efetivar tal desafio é importante refletir sobre a verdade com liberdade apoiando-se na Filosofia, Teologia e na prática pastoral livremente tratadas. Essa atitude "ajuda a explicitar melhor o tesouro riquíssimo da palavra" (p. 36). A deixar que as circunstâncias histórico-culturais limitem a transmissão da verdade corre-se o risco de falseá-la, mesmo quando a verdade circunstanciada carrega a melhor das intenções.
O Papa é realista. Entende que as pessoas não são, de modo geral, santas e perfeitas, frequentemente vivem um longo e difícil caminho de aperfeiçoamento pessoal. Para essas pessoas Cristo é esperança de crescimento e salvação. Porém, é necessário anunciar Cristo "com misericórdia e paciência, às possíveis etapas do crescimento das pessoas, que se vão construindo dia após dia" (p. 39). De tal modo que o confessionário deve ser o lugar da misericórdia, não da tortura. Creio que se pode dizer o mesmo das homilias. E aqui palavras do Papa em seu esforço de aproximar-se de Jesus: "um pequeno passo, no meio das grandes limitações humanas, pode ser mais agradável a Deus do que a vida externamente correta de quem transcorre seus dias sem enfrentar sérias dificuldades" (p. 39/40).
É essa Igreja renovada pelo amor misericordioso de Deus que o Papa anuncia em seu documento. Ela não pode permanecer intra-muros, mas deve sair para o mundo para renová-lo. Indo ao mundo não deve se ocupar da autopreservação, com a suposta segurança doutrinal, que estigmatiza as pessoas e as condena. Uma Igreja de saída para o mundo é uma Igreja sensível às dores. Capaz de ir até onde está o mal sem se deixar contaminar por ele. Não se pode ocupar com a glória, títulos, bem-estar, segurança material e teórica, narcisismo e elitismo do clero.
E se essa Igreja errar ao sair para o mundo, esse erro parece ao Pontífice menos grave do que permanecer preso "em um emaranhado de obsessões e procedimentos" (p. 43) que emperram a instituição de viver na alegria e graça do Senhor.
Se este é o tempo e tantas são as faces do mal que nele surge, o homem deste tempo precisa de pastores alegres, generosos e acolhedores. Pastores encantados com o Evangelho e que o vivam e o apresentem com alegria. E é na alegria do Evangelho que a Igreja trará resposta às dúvidas, incertezas e inseguranças do homem de hoje.
Pois bem se as palavras de Francisco servirem para tornar a Instituição mais carinhosa, amiga e generosa, mais atenta ao sofrimento humano, elas soprarão como a voz do Espírito Santo a renovar e trazer vida nova à Igreja de Jesus. Creio que a compreensão de Francisco está próxima do que diz o filósofo alemão Immanuel Kant no ensaio O fim de todas as coisas (1985): "o amor é então, enquanto livre acolhimento da vontade de um outro, submetido a suas máximas, um indispensável complemento da imperfeição da natureza humana (para tornar necessário aquilo que a razão prescreve mediante a lei)" (p. 176). E completa: "Nunca se deve desprezar o fato de que somente a dignidade moral do amor que o cristianismo traz consigo (...), poderia conservar-lhe também no futuro os corações dos homens" (idem, p. 180).





sexta-feira, 3 de julho de 2015

FEIRA DE ECONOMIA SOLIDÁRIA. Selvino Antonio Malfatti - UFSM




O evento, "Feira de Economia Solidária",  no centro do Rio Grande do Sul, Santa Maria, Brasil, extrapola as fronteiras e estende-se para a América Latina e chama atenção para o resto do mundo. O aontecimento vem acontecendo desde 1994.
A idéia é abrir um espaço de articulação, debate, intercâmbio de idéias, experiências, em relação à Comercialização Solidária e Direta dos produtores da agricultura familiar, agroindústrias familiares, catadores, indígenas, trabalhadores do campo e cidade como uma alternativa ao modelo econômico capitalista.Qual o fundamento teórico desta experiência?
Pelo menos duas grandes orientações das igrejas cristãs proporcionaram a seus fiéis em relação aos bens materiais: o ascetismo e o solidarismo. Existem outras, como o misticismo, mas foge da relação propriamente dita com a economia, pois é tipicamente claustral.
Ao anunciar a Boa Nova, Jesus trouxe ESPERANÇA para os pecadores, pobres, doentes, enfim, a todos os que sofriam. Era a ESPERANÇA que cativava,encantava e atraía as multidões. E como podiam ter ESPERANÇA? O cristianismo inicial dava ênfase nas boas ações, fazer o bem, isto é praticando a caridade. Disso decorre que a salvação residia preponderantemente no fazer.
Com o advendo do protestantismo, deslocou-se o eixo da ESPERANÇA. Passou a ser a fé. "A tua fé te salvou". E uma das minfestações concretas da fé, foi a doutrina da Predestinação, do Calvinismo. Dela surgiu uma ética em relação à posse e aquisição de bens através da atividade econômica. Foi o ascetismo.
A ética do ascetismo econômico, de origem protestante, está calcada na idéia de Predestinação em relação à salvação após a morte. Tudo está decidido. Limitava-se a crer. A partir disso, os crentes tentaram encontrar “provas” da eleição. Identificaram-na no sucesso da atividade econômica, isto é, ser bem sucedido nos negócios era uma “prova” de ter sido escolhido por Deus para a salvação eterna.
Mas como chegar ao sucesso econômico? Através de um ethos de vida. Nada de gozar a vida com o dinheiro ganho ou os bens adquiridos. Gastar somente o necessário para sobrevivência. A orientação era ser prudente e diligente. Afastar a preguiça, pois tempo é dinheiro. Se o credor, dizia-se, o vir ou ouvir trabalhando até altas horas da noite ou cedo de manhã, ficará descansado. Cultivar um bom nome, pois isto facilita o crédito e este leva ao investimento e reinvestimento. “Crédito é dinheiro”, dizia o calvinismo. O dinheiro é procriador fértil. Ele gera dinheiro e seus rebentos geram mais dinheiro e assim ao infinito vai acumulando capital. Como diz o ditado, um bom pagador é senhor da bolsa alheia. Quem criar a fama de bom pagador pode pedir quanto dinheiro precisar ou quiser que todos o emprestarão. Esta ética de ascetismo deu origem ao capitalismo, o qual dá ênfase ao sucesso econômico individual e da soma das individualidades advirá o bem de todos, acreditava-se.

Resultado: produção + acúmulo = capital

O ramo do cristianismo que dá ênfase à caridade também deu origem a uma ética na posse e aquisição de bens: a ética da partição. A economia solidária é uma de suas manifestações concretas. Os antecedentes podem ser encontrados, primeiramente em Aristóteles que fala sobre a justiça corretiva. No entanto, estão com os escolásticos os fundamentos cristãos do catolicismo, quando Santo Tomás fala em justiça comutativa, no sistema de trocas a qual deve igualar as vantagens e desvantagens nas relações intercambiais entre os homens, tanto voluntárias, como involuntárias. E os fundamentos próximos da doutrina podem ser encontrados nas encíclicas Rerum Novarum de Leão XIII de 1891 e Quadragesimo Anno ddo papa Pio XI de 1931. Nelas é garantido o livre mercado, de ideologia liberal, a caridade e justiça social, da doutrina da Igreja, e sindicatos, de orientação socialista.
A ética do pensamento da economia solidária teoricamente objetiva assimilar os excluídos, minimizar o desemprego, proporcionar uma melhor distribuição de renda, fora do sistema capitalista. Este também persegue os mesmos objetivos só que por outros métodos. Cada um se move por uma ética diferente.
A ética da economia solidária, isto é, a produção, consumo e distribuição de bens visam a comunidade como um todo. Não basta um só crescer, ter bens, mas todos conjuntamente crescerem e disporem dos bens. O trabalho não se fundamenta em aumentar a quantidade de bens individuais, mas produzir bens em abundância que favoreçam a todos.
Os locais onde se dá a economia solidária são as associações e cooperativas de produção, consumo, comercialização e crédito. Esta forma de produção e consumo, se afasta tanto do individualismo capitalista, como do coletivismo socialista. 

Resultado: produção + distribuição = social

No capitalismo só o indivíduo sobressai e no solidarismo o todo. A economia solidária quer resgatar a esfera individual e comunitária introduzindo a idéia de pessoa. O bem estar do comunidade ou do grupo redundará no bem estar pessoal.

Por isso, a Feira de Economia Solidária se apresenta como um local onde se possa concretizar na prática a doutrina do solidarismo. Nela os diversos segmentos de uma economia primária e artesanal podem expor e vender seus produtos e os lucros são compartilhados  entre todos.

AVALIÇÃO: A proposta do solidarismo parece que deve ser entendida não como uma substituição ao capitalismo - o que parece atualmente improvável- mas uma alternativa, uma experiência paralela ou complementar.




sábado, 27 de junho de 2015

Identidade de Gênero e Cristianismo, o conflito desde dentro.José Mauríci de Cavalho - UFSJ




Esta semana a Câmara Municipal viveu um clima de disputa envolvendo o Plano Municipal de Educação. Infelizmente não se entrou, em profundidade, nos elementos constitutivos plano, o problema ficou restrito à chamada identidade de gênero. Na tentativa de evitar a evasão por discriminação de pessoas de orientação sexual diferente da tradicional, aquela no qual as pessoas se sentem homens e mulheres, identificados com o sexo biológico e atraídos pelo sexo oposto, o Plano Municipal de Educação trouxe a expressão identidade de gênero. A expressão sugere que todas as vivências sexuais tenham o mesmo peso, o que numa lógica simples impede a discriminação, já que independente da orientação sexual todas teriam o mesmo valor. Nenhuma novidade no que tange à confusão, uma vez que a questão vem gerando o mesmo tipo de embate em diferentes Prefeituras pelo país afora.  A divergência revela um conflito no entendimento da condição humana, pois a expressão identidade de gênero afronta elementos da tradição cristã estruturadoras de nossa sociedade.
A questão do gênero é complexa, ela envolve a sexualidade no sentido amplo, isto é, o sexo biológico, psicológico, a orientação e o ato sexual. Uma pessoa que nasce mulher, por exemplo, é  biologicamente do sexo feminino, mas pode ser psiquicamente identificada com o sexo masculino (sente-se, portanto, como homem apesar de ter corpo feminino), pode não ter vida sexual com nenhum parceiro, nem masculino, nem feminino. Neste caso porta-se como pessoa assexuada. Pode, diferentemente, orientar-se sexualmente para ter relações com outras mulheres, com homens, ou com os dois sexos. Viverá a sexualidade de modo diferente em qualquer dos casos. O mesmo acontece com homens que tenham identidade feminina (sentem-se como mulheres) e podem se relacionar com mulheres, com homens ou com pessoas dos dois sexos. Essas são as possibilidades estatísticas que poderiam ser representadas numa árvore de eventos, contemplando muitas possibilidades. Creio que se poderia resumir o problema ao entendimento de que nem sempre a identificação sexual (sentir-se psicologicamente como) coincide com o sexo biológico e nem sempre essa identidade reflete-se num comportamento padrão esperado, ensejando todas as variações acima indicadas.
Desde o início do século passado, a Psicologia, especialmente devido à contribuição da psicanálise, explicou como ocorre a identificação sexual mostrando que, no menino, ela procede de identificação complexa com o pai (ou outro representante do gênero masculino, um avô, tio, conhecido, etc.), mas que por diferentes razões, em circunstâncias especiais, a identidade pode também se dar com a mãe (ou outro representante do gênero feminino uma avó, tia, conhecida, etc.). Com a menina o processo tem a mesma complexidade, embora com elementos diferentes que seriam muito difíceis de serem explicados no pequeno texto.
A Bíblia judaico-cristã que tem no seu início um lindo poema sobre a criação do homem, refere-se à criação do gênero masculino e feminino, não contemplando variações, quer em virtude da enorme maioria das pessoas terem sua identidade e orientação sexual coincidente com o sexo biológico, quer porque foi escrita num tempo em que era necessário o nascimento de muitas crianças, pois curta era a vida colocando em risco a sobrevivência do grupo. Assim parecia ser o que prescrevia a natureza e, portanto, o desejo do seu Criador. Esse entendimento, fortalecido pela visão filosófica grego medieval que entendia serem fixos os processos essenciais da vida, prevaleceu durante séculos e construiu a lógica da exclusão. Acabou-se dizendo que o poema bíblico referia-se à natureza do homem, não podendo ser ela diferente em nada, consistindo qualquer desvio em pecado e aberração.
Pois bem, o sentido essencial do poema bíblico parece ser que Deus ao criar o homem da terra (e a mulher de sua costela) e lhes soprar nas narinas uma alma imortal colocou em cada uma dessas suas criaturas uma fagulha indestrutível de sua Presença. Não é o fato de suas criaturas terem dois sexos exclusivos o fundamental no texto. E além disso, a noção de pessoa que nasce do evangelho de Cristo, proclama que os homens (e mulheres) são iguais em dignidade, na capacidade de fazer escolhas livres, responsáveis, criativas e abertas à transcendência ou ao diálogo com Deus. A noção de pessoa atribuída inicialmente aos três indivíduos da trindade divina trouxe, por extensão, de Deus para a criatura humana que Ele fez a Sua imagem a referência, essa mesma condição. Portanto, embora em algumas passagens, a Bíblia condene a relação homossexual, não quer dizer que alguém perca sua condição humana ou de Filho de Deus por isso. O fato merece atenção e precisa ser melhor pensado num tempo em que se entende que a homossexualidade é fruto de um processo psicológico complexo e inconsciente (colocado fora do campo das escolhas pessoais) e que, portanto, não parece razoável discriminar ninguém ou privá-lo da vida social ou de se educar por isso. Nem parece cristão condenar as pessoas por conta de sua identidade sexual, deixemos a Deus essa dificílima tarefa.

Por outro lado, o respeito proclamado no parágrafo anterior não significa que todas as orientações sexuais são igualmente boas e desejáveis. Colocá-las dessa forma numa proclamada identidade de gênero não parece a melhor forma de tratar a dignidade da pessoa humana. Porém, ainda mais importante são os aspectos morais da sexualidade. Em sentido amplo a sexualidade envolve as dimensões biológicas, psicológicas e comportamental, isto é, para que seja verdadeiramente humana, a vida sexual precisa ser integralmente vivida na liberdade possível, responsabilidade, no respeito e amor ao outro. E mais, nas relações humanas em geral, que incluem outras dimensões além da sexual, o respeito ao outro (ou outros) é valor que precisa ser cultivado com o mesmo zelo que se dedicou ao problema do gênero. Num tempo de tanta violência, irresponsabilidade, egoísmo, isso parece o essencial.

sexta-feira, 19 de junho de 2015

“ENCÍCLICA LAUDATO SI”. Selvino Antonio Malfatti - UFSM























No dia 18 deste mês, o papa Francisco, Jorge Mario Bergoglio, editou uma Encíclica intitulada “Laudato Si” (Louvado Seja), cujo título é uma referência ao Cântico das Criaturas de São Francisco de Assis.
Possui 192 páginas e 246 parágrafos e é dedicada à ecologia. É uma alusão ao “oikos”, (οκος), (casa, em grego) para significar a morada comum da humanidade sob a ameaça de autodestruição. Inicia com a citação do Cântico das Criaturas como protótipo de uma ecologia integral que se manifesta na natureza, o livro pelo qual Deus se manifesta. Diz o papa Francisco, toda criatura é um valor e um fim em si. No contexto da natureza o homem é um ser pessoal, mas não o proprietário da natureza. E a natureza não é uma matéria bruta a nossa disposição. Os seres viventes não são meros objetos de desfrute e proveito do homem, mas um valor próprio perante Deus.
A ecologia é sempre uma ecologia humana. Conforme o papa, no mundo, tudo está interligado: a fragilidade da terra e fraqueza dos pobres, os desequilíbrios ambientais e as disparidades sociais, as especulações financeiras às armas e estas às guerras. A terra, citando São Francisco, é mãe e irmã e, conforme ele, quando dizia isto seu olhar voltava-se para os pobres. Qualquer conotação ecológica é também uma aproximação social. A justiça deve integrar os debates sobre o ambiente e escutar como os mesmos, os brados da Terra e os brados dos pobres. Lançar a culpa ao incremento demográfico e não ao consumismo exacerbado de alguns é uma forma de querer fugir do problema.
O papa faz um levantamento das crises ecológicas da atualidade. Naturais: aumento da temperatura global, mutações climáticas, aumento dos mares, empobrecimento da biodiversidade. Sociais: distribuição injusta dos alimentos, insuficiência de água e ao direito de todos a ela. Falta de equidade planetária. Considera que a dívida externa dos países pobres transformou-se num instrumento de controle, mas não acontece o mesmo com a participação dos recursos. Há uma dívida pendente entre o norte e o sul do mundo. Há uma fraqueza na política internacional. É preciso criar um sistema de normas que prevejam limites invioláveis e assegurem a proteção dos ecossistemas, antes que as novas formas de poder oriundas do paradigma técnico-econômico terminem por destruir não só a política, mas a liberdade e justiça. Este paradigma tecnocrático tende a sobrepujar a política e estender-se para o aumento do consumismo obsessivo.
Há trechos duríssimos e por isso mesmo havia certa relutância nos meios de comunicação em publicá-la. Pode-se citar a denúncia da especulação, aliada à pesquisa de lucros os quais ignoram qualquer contexto e os efeitos perversos sobre a dignidade humana e o ambiente. Diante deste quadro é muito provável que, com a exaustão dos recursos, vai-se delineando cenários favoráveis a novas guerras de formas e conseqüências imprevisíveis. Para tanto, todos devem ter coragem de se propor projetos a longo alcance e pleitear o poder. Isto irá depender de nossa sobrevivência e a harmonia da criação. Lembremo-nos, diz Francisco, “o objetivo das demais criaturas não somos nós”.
Avaliação: o que de novo Francisco traz é uma valorização das demais criaturas viventes, além do homem. Tradicionalmente dizia-se que só o homem era um valor em si, agora Francisco estende este conceito aos demais seres vivos. Isto fica evidente a partir do Capítulo II, 5, parágrafo 89:


As criaturas deste mundo não podem ser consideradas um bem sem dono: « Todas são tuas, ó Senhor, que amas a vida » (Sab 11, 26). Isto gera a convicção de que nós e todos os se­res do universo, sendo criados pelo mesmo Pai, estamos unidos por laços invisíveis e formamos uma espécie de família universal, uma comunhão sublime que nos impele a um respeito sagrado, amoroso e humilde”. (http://w2.vatican.va/content/dam/francesco/pdf/encyclicals/documents/papa-francesco_20150524_enciclica-laudato-si_po.pd)

sexta-feira, 12 de junho de 2015

MUNICÍPIO DE MATA, POR SEU DIA - Selvino Antonio Malfatti

Pórtico de entrada do município


Na região central do Rio Grande do sul localiza-se um pequeno municio, Mata. Ele é um dos poucos locais do planeta que possui madeira fossilizada. Esta riqueza fóssil estava adormecida há 200 milhões de anos e sua população simplesmente considerava um estorvo estas “malditas pedras.”
A mentalidade começou a mudar quando Padre Daniel Cargnin foi designado vigário da paróquia de Mata. Era um apreciador da paleontologia e tão logo as pedras lhe caíram no olhar um novo mundo começava a abrir para aquela comunidade. Cargnin possuía um bom relacionamento com a comunidade científica, em que pese seu autodidatismo na área.
Com a chegada do apreciador da Paleontologia em Mata foi desenvolvido um trabalho de conscientização sobre a riqueza fossilífera com que o município fora presenteado. Evidentemente, o Padre dispunha de um instrumento privilegiado para divulgar suas idéias, pois, além das rodas de amigos e dos convites para palestras, ele possuía o púlpito, que podia usar livremente por ser seu único titular e o fazia com competência.
Antes desse trabalho, no perímetro urbano e mesmo nas adjacências, os pedaços de troncos de árvores petrificadas dificultavam os munícipes em várias atividades. A população para construir uma casa, por exemplo, precisava primeiro remover aquelas madeiras-pedra para que fosse possível a construção do alicerce; se quisessem fazer uma horta, deveriam antes “limpar” o terreno, removendo aquelas “pedras”; se alguém comprasse algum sítio e nele existissem aquelas “malditas pedras”, o terreno passava a valer muito menos. Enfim, aquele material era um entulho que todos queriam evitar.
Padre Daniel aproveitou a infra-estrutura existente, isto é, praças, trevos, ruas, grutas, cantos e recantos e nela inseriu os fósseis de madeira. Para tanto, contou com a colaboração da comunidade e da Prefeitura. Toda a cidade, como idealizou Padre Daniel, foi transformada. Os fósseis maiores que a embelezam foram numerados, catalogados e há uma legislação que proíbe terminantemente de serem retirados do local.
Mata possui uma riqueza de fósseis com idade não inferior a 200 milhões de anos. Tratam-se de fossiliferos vegetais, isto é, florestas de árvores pertencentes aos grupos coníferas (araucárias). Os paleontólogos acreditam que, no lugar onde se ergue a idade de Mata, existia uma grande floresta, há cerca de 200 milhões de anos atrás. Nessa época, teria ocorrido um desnível no eixo da Terra, provocando um grande abalo na região. Como conseqüência, a floresta ruiu e foi coberta por uma camada conservadora e, posteriormente, pelas águas. A água, infiltrando-se nos
vegetais protegidos por essa camada, deles foi retirando molécula por molécula, deixando em seu lugar a sílica. Assim, ocorreu nos vegetais um processo lento de substituição e de perfeição infinita, que pode ser observado nos exemplares das pedras gigantescas expostas.

Padre Daniel transformou Mata, uma cidade bucólica, semi-agrícola, em centro turístico, passando a ser considerada um “museu a céu aberto”. Com efeito, essa imagem confere com a realidade, pois quem percorre esta pequena cidade encontra fósseis de madeira nas praças, nas calçadas, nas ruas, nos barrancos, nos pátios das casas, nos terrenos, nos sítios, nas matas; enfim as pedras estão em toda parte. Assim como na cidade de Florença, na qual para onde se olhar se enxerga arte, em Mata se vê madeira fossilizada em todos os lugares. Mata passou a fazer jus ao nome “mata”.

Vejam o novo visual de Mata:

Praça da Matriz


Gruta N.S. de Lourdes


Gruta Madre Paulina

Praça Santo Brugalli

Reserva fóssil

Museu municipal Pe. Daniel

sexta-feira, 5 de junho de 2015

Violência sem limite. José Maurício de Carvalho - UFSJ



Não é razoável aceitar a violência ou se acostumar com ela, pior quando a violência é praticada sem outro propósito que ampliar o mal no mundo: a violência para roubar, violentar, vingar, matar, etc. Nem falo aqui da violência realizada contra uma ordem jurídica ou política com o propósito de modificá-la, pois ela também produz o mal, mas tem a ilusão, de que se vai por caminhos tortos até o bem. Essa forma de violência, associada ao que se denomina ética dos fins, parece fora de moda por aqui. Do outro lado do mundo a encontramos viva. Não julgando suficiente o que fizeram os nazistas e as guerras mundiais no século passado, o Estado Islâmico tomou para si a cota da barbárie do novo século. Seus membros se esbaldam degolando, matando, violentando, torturando com a desculpa da religião. No entanto, não é um caminho aceitável buscar o bem fazendo o mal, pior ainda em nome de Deus.
Aqui entre nós a expressão atual da violência é o ataque a faca. Quanto mais a imprensa noticia, mais se multiplicam os ataques. Nos últimos dias aumentou essa forma de barbárie praticada em contato direto com a vítima, agressão em que se olha para dentro dos olhos da vítima.  E, em meio a um Estado que não funciona, autoridades perdidas, pobreza das teorias sociológicas e jurídicas que justificam a violência com a pobreza, do aumento da ganância desmedida da corrupção, jovens são criados à margem dos valores humanos. Eles descobriram na faca um novo e velhíssimo instrumento para propagar o terror. Com a faca nas mãos se sentem fortes para dar curso à animalidade.  A faca tornou-se o mais novo pavor do cidadão comum. Ele pode, a qualquer momento e sem esperar, ser esfaqueado por alguém que o golpeia mesmo sem lhe falar. Depois do ataque, com a vítima ferida, arranca-lhe o que desejam e fogem, deixando-a morrer lentamente à espera de um socorro que sempre tarda quando vem.
Não parece que ajuda a enfrentar o problema o discurso moralista tão forte em nossa tradição cultural. Também não serve a simples exigência de punir jovens cada vez mais novos, discurso que se multiplica entre a elite econômica (e só entre ela e seus empregados) em nosso país. Isso não significa ser contrário à redução da maioridade penal aos 16 anos, mas a certeza de que ela sem educar os jovens é ação perdida. Estamos vendo a violência ser praticada por jovens cada vez mais novos e se for para levar a sério o argumento da punição pela punição, com oito anos um menino tem plena consciência do certo e do errado, então é melhor colocar a maioridade penal aos 8 anos. Se ele não tiver consciência do certo e errado aos 8 anos, também não terá aos 16 ou 18 anos e provavelmente terá menos medo da punição.
O problema tem raiz na falta de educação moral, que não é sinônimo de escolarização, mas ausência de valores. O significado moral das ações somente se esclarece para a pessoa quando ela pode pensar nas consequências dos seus atos, quando ouve que algumas ações são más, isso se ainda for pequena e perceber o mal praticado. Então a pessoa, diante das pequenas falhas, aprende que deve procurar fazer o bem. Porque entenderá que praticando o mal ele irá alcançá-la ou aos que ela ama mais cedo do que imagina.

O Reino de Deus que Jesus de Nazaré se esforçou para ensinar equivale ao Reino da moralidade. Somente nele encontramos resguardo para uma vida verdadeiramente humana, um reino em que o homem seja o valor central, somente nele estamos verdadeiramente seguros contra o mal. É o que pede a oração que Jesus ensinou, mas o Reino da moralidade (ou o Reino de Deus) somente virá a nós se cada homem ou a grande maioria deles se dispuser a construí-lo e a educar as próximas gerações. Não é fácil, mas é possível respeitar a humanidade em si e nos outros.

sexta-feira, 29 de maio de 2015

O PAPEL SÓCIO-ULTURAL DE UMA BIBLIOTECA PÚBLICA. Selvino Antonio Malfatti.




Volta e meia se ouve que alguma biblioteca pública foi fechada. Geralmente quem toma esta decisão? Quase sempre algum burocrata exercendo uma função pública. Ora, entregar a decisão do fechamento ou não de uma biblioteca pública a técnicos frios e burocráticos é no mínimo lamentável. O que eles levam em conta? Se o prédio oferece segurança, condições, e não é deficitária. Isso é significativo? É. Mas não é só isso que está em jogo.
O fechamento de bibliotecas atualmente não é um fenômeno isolado. É uma prática generalizada. Acontece aqui no nosso país – a Biblioteca Nacional no Rio de Janeiro, a biblioteca pública de Porto Alegre, do Rio Grande do Sul, por exemplo, e várias outras, foram simplesmente fechadas sem compensações ou alternativas. A prática se generaliza na Europa e até mesmo nos Estados Unidos.
Embora atualmente existam “bibliotecas virtuais”, através de aparelhos como Ebooks, Kindle, e-readers, tablet, kindle paperwhite e outros, pelos quais podemos trazer a biblioteca até nós em vez de irmos a ela, o papel que uma biblioteca real desempenha ainda é insubstituível. E por isso, não justifica seu fechamento, sem uma compensação.
Há dois tipos de fechamento. O primeiro tem como fator preponderante as diminuições crescentes de investimentos e dotações orçamentárias. As que fecham, neste caso, querem evitar a falência. O segundo, o fechamento é temporário, para reformas. Só que estas ditas reformas se prolongam indefinidamente. Por que, antes de fechar, não se pensou em algum local que as abrigasse?
Quais as conseqüências do fechamento de bibliotecas, mormente as públicas? É o mesmo que abortar crianças, embrutecer jovens e desamparar idosos. Antes que cresçam são mortos, ao começar conhecer a vida do espírito são forçados a viver como brutos e quando podem deleitar-se da cultura são destinados à solidão. O que será da próxima geração de leitores, pesquisadores, estudiosos e mesmo sonhadores através de ficção? Será o apocalipse cultural? Ou um mundo do virtual “Ensaio sobre a Cegueira” de José Saramago para um mundo real?
Olhemo-nos bem nos olhos. Os livros são caros, principalmente os novos e os clássicos. Por outro lado, a missão de uma biblioteca é de dispô-los a todos. Todos mesmo: jovens e idosos deveriam ter a possibilidade de ler aquilo que querem, quando quiserem, independente da situação econômica de cada um. Os livros fazem o mesmo papel para o espírito que o oxigênio, a água e o sol para os seres vivos. Todos têm o direito de ter acesso.
Quando se fala em biblioteca a maioria de nós pensa no empréstimo de livros. Mas não é só para isso que servem. As bibliotecas são lugares calmos, confortáveis que muitos buscam para fugir do burburinho do dia a dia e dar-se ao luxo de pensar e sonhar, viver o espiritual. São também lugares de encontros, de trocas de idéias, de estudos. A biblioteca é um coração que pulsa  no bairro que moramos, de nossa cidade ou do país do qual somos cidadãos.
Penso que cada um está passando o filme de sua infâncoia e juventude em sua mente. Desde a infância olhávamos com admiração e respeito para o prédio da biblioteca de nossa cidade. E se tivéssemos qualquer tempinho vago entrávamos na biblioteca nem que fosse apenas para folhear o jornal ou as revistas, ver quem estava lá e conversar, dar uma olhada no catálogo para ver as novidades. E na maioria das vezes saíamos com um livro em baixo do braço. Voltávamos para casa, saltitantes, orgulhosos, sentindo-nos semideus. Lembro-me que no colégio onde estudava como interno, havia certos livros proibidos de serem lidos. O motivo não vem ao caso. Não tive dúvidas: associei-me à biblioteca pública da cidade e lia tudo o que tinha vontade.
Se você está lendo este artigo certamente não é dado a práticas de abortar agentes culturais. Ao contrário esmera-se para aprimorá-los. Por isso deve ser um defensor de bibliotecas públicas. Aliás, diga-se de passagem: no dilema de fechar ou não uma biblioteca é como estar diante de uma encruzilhada de dois caminhos. Um leva para as trevas, cegueira e outro para a luz, a visão. Basta escolher.



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